O que nos reserva o futuro: como se divertirão nossos filhotes inclames, por Sebastião Nunes

Por Sebaestião Nunes

Continuando minha análise do futuro controlado pelos inclames, eis uma pequena amostra de uma festança entre eles, talvez num clube particular e exclusivo, quem sabe num condomínio fechado. Se não for assim, será quase assim.

O PRAZER DE CHURRASQUEAR

Grupo numeroso de inclames, funcionários de multinacional, costumava reunir-se semanalmente em animadíssimo churrasco. Levavam família toda: consortes e sogros e filhos e pais e avós. Bisavós e cunhados e concunhados e genros. E noras e carros e gatos e cachorros.

As carnes do famoso churrasco eram sorteadas na hora, entre os participantes.

As picanhas (sempre em número de quatro) eram extraídas da bunda de duas das buclames-sogras.

As maminhas, dos peitos de quatro das buclames-avós.

As asinhas de frango constituíam-se de dedos de quinze ninclames (sic) menores de doze anos.

As linguiças eram fornecidas por três dúzias de chaclames (sic) também menores de doze anos.

Os corações eram de buclames-mães, quatro por sessão, picadinhos no formato dos de frango.

Os lombos (temperados com orégano e sal) sempre se retiravam de penclames (sic), também em número de quatro.

Como os inclames eram muitos, e levando-se em conta que das buclames-mães doadoras de corações nada mais se poderia esperar, eram elas lavadas, raspados os pelos (como os brasilianos primevos cumpriam com francos e portugas em seus banquetes), e então assadas por inteiro, as amplas gorduras chiando e cheirando, sob aplausos e vivas generais.

Os doadores de carnes eram depois da bela festança indenizados regiamente, ficando doravante dispensados de novas doações. Seria sem dúvida excessivo – você não concorda? – que a uma buclame-avó despeitada ou a uma buclame-sogra desbundada se exigisse mais.

Quanto ao que sobrava das buclames-mães assadas, ou seja: ossos e algumas vísceras menos nobres, era enterrado com pompa e glória, cobertos os caixões com as bandeiras nacional, estadual e municipal, além das costumeiras coroas multiflores, onde se liam as costumeiras frases-florais: “Saudades eternas de Fulano e Beltrano”, “Paz na eternidade, querida”, “Nunca te esqueceremos, mamãe”, e, sem dúvida, “Sua lacuna será irreparável, inesquecível Sicrana”, esta última oferecida pelos exultantes colegas de trabalho.

Durante os festejos bebia-se cerveja, refrigerante e até um pouco de cachaça curtida em frutas. O barulho que amaciava as carnes vinha de rádios FM da moda, com seus incansáveis tagarelas taramelando besteiras aos berros e seus músicos de merda fazendo média.

De vez em quando, para variar um pouco, convidavam um ou dois graúdos generentes e subgenerentes com seus familiares, aceitando eles – com o maior entusiasmo – as regras generais. Enfim, a festa era mais que ótima e todos se divertiam mais que muito.

Em um dos churrascos mais frequentados (além dos contumazes comilões havia seis subsubgenerês, quatro subgenerês, dois generês e um vice-presi-nacional, que aliás forneceram deliciosos e suculentos chouriços, disputados com entusiasmo pelas buclames mais lampeiras), acontece que sobrou uma das maminhas.

Fato raríssimo, vale salientar, sucedeu contudo porque o Contador-Pesador-Mor (CPM), que contava as bocas e dividia-as por X, encontrando então o total de mamas necessárias, distraiu-se com uma das maminhas, tenra, firme e suave aos dedos.

Embora a amável fornecenda ao final houvesse proposto doá-la a uma boa instituição de caridade, tipo a dos deputados e senadores aposentados, a dos velhos empresários sentimentais, a dos juristas desvairados ou até mesmo, em último caso, a dos recém-nados órfãos, pareceu por bem ao Conselho General dos Churrascos Inclâmicos (CGCI) devolvê-la à sua legítima possuidora, uma relativamente jovem e até que bem apanhada buclame-avó.

Assim foi feito e, com espinhos de roseira, ora-pro-nóbis e laranjeira, voltou a maminha a seu antigo e morno ninho.

Apenas quem não gostou do retorno foi o mal-agradecido penclame-maridão da dita buclame-avó, que sempre se esquecia dos inesperados (para ele) prendedores e espetava os dedos nos momentos mais – como dizer? – mais empolgantes de suas cada vez mais raras incursões (ou excursões?) mamárias.

 

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Os diversos (sic) remetem a conceitos basilares em nossa terminologia, devendo ser explicitados futuramente.

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