O velho safado que enfrentou a falsa estabilidade do mundo careta, por Sebastião Nunes

Antes de se tornar o mais famoso dos escritores marginais, Charles Bukowski publicou dezenas – talvez centenas – de poemas e contos em revistas de baixa tiragem

O velho safado que enfrentou a falsa estabilidade do mundo careta

por Sebastião Nunes

Antes de se tornar o mais famoso dos escritores marginais, Charles Bukowski publicou dezenas – talvez centenas – de poemas e contos em revistas de baixa tiragem. Quando seu nome finalmente saiu do limbo, passou a ser convidado para ler poesia em universidades e círculos literários, sessões nas quais entrava bêbado e saía bêbado, mas os patrocinadores sabiam disso e o convidavam assim mesmo. Pagavam-lhe entre 50 e 200 dólares por leitura, grana que lhe garantia um quarto numa pensão vagabunda e o suficiente para beber de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, recomeçando no dia seguinte e no outro e no outro, enquanto os fundos permitissem.

Depois de trabalhar 10 anos nos correios dos Estados Unidos, publicou o primeiro romance e aí, sim, se tornou famoso, embora continuasse marginal pois, se existiu um marginal natural, visceral e total, ele se chamou Charles Bukowski.

 

ENTRE O AMOR E O ÓDIO

Apresentando “Post Office”, esse primeiro romance, o crítico Gerald Locklin dissecou, com um bisturi afiado, o autor:

“Na minha opinião, embora Bukowski preferisse escrever poemas e contos, é nos romances que encontramos o melhor do seu trabalho. Recomendo sempre ‘Correios’ como o ponto de partida ideal para qualquer leitor que queira começar a ler a prolífica obra de Bukowski tendo uma boa impressão inicial.”

“É um romance eminentemente estadunidense, tanto pelas cenas burlescas, pelo vernáculo da sua narração e dos seus diálogos, quanto pela sexualidade irreverente e antirromântica que o caracteriza, pela evocação de um universo masculino antiquado: o do álcool, do fumo, do jogo, das lutas [e das corridas de cavalo, acrescento eu] e da sua eterna perseguição de fêmeas. (Agora chamam-lhe sedução; costumava ser chamado vida social ou, às vezes, virilidade.) Apesar de tudo, o herói de Bukowski não se enquadra nos estereótipos do machismo – ele se encontrava encurralado entre as forças biológicas do indivíduo e as forças repressivas da sociedade.”

“Habitualmente considerado um ‘outsider’, é provável que se mantenha sempre um ‘outsider’ em relação aos meios acadêmicos e literários; afastado do ‘cânone oficial’, mas destinado a ser um membro permanente de um cânone alternativo, ao lado do Marquês de Sade, de Henry Miller, de Anaïs Nin e de outros que espalharam a sua verdade, quer esta ofendesse quer não as elites culturais, sem se importarem com a aprovação ou com o sentimento de ofensa dos professores.”

“Embora tenha mudado para os Estados Unidos com dois anos de idade [nasceu na Alemanha em 1920, filho de pai estadunidense e de mãe alemã], existem traços da disciplina e da resiliência germânica na sua personalidade, que lhe permitiram adaptar-se e sobreviver durante tanto tempo em condições frequentemente adversas, depressivas e humilhantes, prosseguindo a sua viagem ao fim da noite.”

“Apesar dos conflitos com os pais ‘prussianos’, ele tinha consciência de seu próprio potencial de crueldade e tentava arduamente controlá-lo. E acabou por ser um pai muito diferente e carinhoso para a sua filha, garantindo-lhe uma vida diferente da sua. De alguma forma, teve força suficiente para sobreviver às dificuldades de sua infância e, na idade adulta, ao trabalho físico, às lutas nos bares, às mulheres de vida fácil, às bebedeiras, aos hábitos autodestrutivos e aos confrontos com a polícia.”

“Que mais podemos esperar encontrar nesse romance? Um trabalhador em conflito constante com seus patrões. Um pobre homem que procura incessantemente o consolo na bebida, que precisa de um emprego, mas que foge dele. Um homem mais inteligente e sensível do que aqueles que olham para ele de cima, mas que simboliza os típicos vícios e fraquezas daquilo que E.E. Cummings chamou ‘manunkind’. Uma dose saudável de comédia sexual, intercalada com elementos de ‘pathos’. Alguém disposto a travar uma batalha perdida contra as autoridades, na defesa de seus direitos, de sua honra e do que resta de sua dignidade. Um homem que anseia por uma vida mais bela e mais simples [ele não gostava de música pop, que considerava barulho, mas adorava Beethoven, Sibelius, Bruckner e Mahler] e, no entanto, rapidamente parece destruir estas possibilidades.”

“Para Henry Chinaski [alter ego de Bukowski], aspirante a escritor, à beira do seu momento de triunfo, será esse livro uma ilusão momentânea, ou um caminho para a transcendência, para a realização do seu sonho e para a redenção da sua vida?”

 Gerald Lockin não oferece respostas, deixando-as por conta do leitor.

Bukowski, sempre direto, mas paradoxal, também não oferece soluções, apenas apresenta problemas, como na curta e definitiva frase gravada em seu túmulo e que foi seu último grito de guerra contra um mundo terrivelmente hostil para quem não se deixa dobrar pelas circunstâncias ou pela força: “Don’t try”.

Ou, como escreveu Drummond, “este é tempo de partido, tempo de homens partidos”, nosso tempo sombrio do qual Bukowski é espelho e reflexo.

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