Os enforcamentos públicos, o almoço e o dicionário da Novilíngua, por Sebastião Nunes 

Neste 14º episódio da distopia 2084, a ditadura do Grande Irmão promove enforcamentos públicos e a prática de destruir palavras, para emburrecer ao máximo as pessoas.

Os enforcamentos públicos, o almoço e o dicionário da Novilíngua

por Sebastião Nunes 

No refeitório subterrâneo de teto baixo, a fila do bandejão avançava lentamente. A sala estava repleta e o ruído era ensurdecedor. O cheiro do ensopado escapava pela grade atrás do balcão, espalhando um odor enjoativo. No extremo da sala havia um bar, pouco mais que um buraco na parede, no qual grandes doses de cachaça Paulistana custavam dez centavos. Estava apinhado.

– Justamente quem eu procurava – disse uma voz atrás de Wilson, que se virou e deu de cara com seu amigo Simeão, do Departamento de Pesquisas. Talvez “amigo” não fosse a palavra adequada. Ninguém mais tinha amigos, somente camaradas, porém a companhia de alguns era mais agradável que a de outros.

Simeão era filólogo, especialista em Novilíngua. Na verdade, participava da grande equipe de experts dedicados a compilar a 11ª edição do “Dicionário da Novilíngua”. Era um sujeito miúdo, mais baixo do que Wilson, de cabelos pretos e olhos esbugalhados, ao mesmo tempo tristes e brincalhões, que pareciam esquadrinhar os rostos enquanto falava.

– Queria te perguntar se você tem lâminas de barbear.

– Nenhuma! – respondeu Wilson, com precipitação, sentindo-se culpado. – Procurei por toda parte. É como se tivessem deixado de existir.

Todo mundo vivia pedindo lâminas de barbear. Na verdade, Wilson tinha duas, novas, que guardava como um tesouro. Fazia meses que as lâminas estavam em falta. Sempre havia alguma coisa que as lojas do Partido não podiam fornecer. Às vezes eram sabonetes. Outras, cuecas. Outras, cadarço para sapatos. Desta vez eram as lâminas de barbear. Só se podia consegui-las, assim mesmo com sorte, procurando de maneira mais ou menos furtiva no “mercado livre”.

– Uso a mesma lâmina há seis semanas – acrescentou, mentindo.

A fila avançou um pouco. Quando parou, os dois pegaram bandejas de metal engorduradas da pilha que ficava no canto do balcão.

– Você foi ao enforcamento dos terroristas proles? – perguntou Simeão.

– Estava trabalhando – respondeu Wilson com indiferença. – Verei no cinema.

– Não é a mesma coisa – disse Simeão. – Fica parecendo teatro.

 

DE FATO, NÃO É A MESMA COISA

Os olhos brincalhões de Simeão examinaram o rosto de Wilson. “Te conheço.”, pareciam dizer os olhos, “Sei muito bem porque você não foi ver o enforcamento dos proles”. Apesar de sua aparência de intelectual, Simeão era um ortodoxo virulento. Falava com um prazer desagradável dos ataques contra os terroristas proles, dos julgamentos e das confissões dos criminosos mentais, das execuções nos porões do Ministério do Amor.

Para conseguir conversar com ele, Wilson tinha de fazer esforço para desviá-lo desses assuntos e envolvê-lo, o mais possível, nos tecnicismos da Novilíngua, em que era autoridade indiscutível. Wilson virou um pouco a cabeça, de modo a evitar a devassa dos grandes olhos pretos.

– Foi um bom enforcamento – disse Simeão, reflexivo. – Na minha opinião, quando amarram os pés dos condenados perde-se o principal efeito. Gosto de vê-los estrebuchar de corpo inteiro. Gosto principalmente da parte final, quando botam pra fora a língua arroxeada. É o detalhe que mais me agrada.

– O seguinte – gritou impaciente o servente de avental branco e concha na mão.

Wilson e Simeão empurraram suas bandejas pela abertura gradeada. Em cada uma foi despejado o almoço regulamentar: uma marmita rasa de ensopado meio que rosado, um pedaço de pão, duas rodelas de tomate, uma folha de alface, uma caneca de café Paulistano e um tablete mínimo de adoçante.

– Debaixo daquela macrotela tem uma mesa livre – disse Simeão. – Vamos pegar uma cachaça no bar.

A cachaça era servida em grandes copos de vidro. Abriram caminho pelo refeitório abarrotado e deixaram as bandejas na mesa forrada de metal, em cuja beirada alguém havia deixado um pequeno charco de ensopado, uma coisa nojenta que parecia vômito. Wilson pegou seu copo de cachaça, fez uma pausa para criar coragem, e engoliu tudo de uma vez. A bebida desceu rasgando. Wilson piscou várias vezes para evitar que as lágrimas escorressem e percebeu que estava com fome.

Começou a engolir a comida em grandes colheradas. Não saberia dizer o que estava comendo. Sabia apenas que era um caldo aguado, no qual boiavam toletes rosados, algum preparado à base de carne de segunda. Enquanto as marmitas não ficaram limpas, nenhum deles disse nada. Na mesa à esquerda, alguém falava sem interrupção, num tom áspero como a voz de um pato rouco.

– Como vai o dicionário da Novilíngua? – indagou Wilson, elevando a voz para que Simeão pudesse ouvi-lo.

– Devagar e sempre – respondeu Simeão. – Estou nos adjetivos. É um trabalho fascinante. Quando terminarmos, pessoas como você serão obrigadas a aprender tudo de novo. Você pensa, por acaso, que estamos inventando palavras novas? Nada disso. Nós estamos é destruindo palavras!

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