Palavras vincadas

Do blog Eli Rezende

Publicado originalmente no blog Pensados a Tinta

Por Eliana Rezende

Houve tempos em que a gaveta era o melhor amigo de um escritor. 

Era ali que o texto adormecido esperava seu tempo de maturação, ou até seu tempo de descarte: do não dito e escrito. As palavras assim esperavam adormecidas e quietas, o tempo em que a tinta as materializasse e lhes propiciasse vir à existência.

Palácio de Alhambra – Granada – Espanha

O texto adormecido na gaveta esperava sua sentença que podia vir cedo. Num acesso de fúria e destruição ou num período de limbo expiatório. O melhor mesmo era quando recebia sua emancipação e tornava-se um texto livre à olhos alheios.

Sim, os textos nos tempos de imediaticidade e consumo deixaram de ter essa maturação da escrita pensada e recomposta dia a dia. Literalmente lapidada para, palavra por palavra compor um pensamento inteiro.

O sentido de escrita original gradativamente se perdeu e o que temos é uma que se insere substituindo e anulando a anterior.

Descartes simples e rápidos que não nos dão o sentido de sua plenitude. Oferecem-nos apenas e tão somente o produto do dia, do agora. Uma escrita quase que sem passado, sem rastros ou vestígios. Novos tempos de leitores e de escritas. Não apenas de seus suportes e formas de veiculação.

A gaveta oferecia  o tempo da intimidade. Algo que se cristaliza e pigmenta. A tinta encontrava o papel e se fazia pensamento materializado. Era ideia que se expunha. Escrito por: Eliana Rezende, Janeiro/2014

Leia também:  Minha estrada, minha rua/Minha musa naufragada, por Romério Rômulo

A escrita, tanto como a leitura são coisas que se cultivam e aprofundam.

Algo que tece nossas impressões sobre o mundo. Merecem ser pensadas com cuidado, lapidadas com tempo e apreço pela palavra que se diz e por quem a lerá.

O tempo de imediaticidades e buscas de respostas sempre prontas e rápidas tiram os textos dessa quietude que às vezes é tão salutar.

Ao mesmo tempo, e isso por experiência própria, um texto é sempre novo a cada vez que o retocamos e o rigor da gaveta pode inviabilizar um escrito.

São Paulo – SP

Às vezes o ideal é simplesmente deixar a escrita solta e entregá-la à independência para que novas ideias surjam. Nem maiores e nem melhores, apenas oxigenadas pelo novo!

A escrita tem mesmo esse quê de artesanato, de cuidado lapidar.

Considero normal que um texto nunca esteja concluído, o que ocorre é darmos a eles a independência de nossa tutela.

É a emancipação do escrito.

Nos dois casos é interessante: se reescrita constantemente ou se amadurecida para um momento específico.

É palavra vincada.

___________

Posts relacionados:

O papel e a tinta por Da Vinci

Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores – Parte I

Pensados a tinta e escritos à máquina

Chegamos ao fim da leitura?

Como se constrói uma Narrativa Fotográfica?

Magia encadernada

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

18 comentários

  1. Ainda existe e afronto.

    Um é o papel sem valor que chamamos de conversa fiada, virtual e bebado.

    E o outro que ainda continua descansando na gaveta e entre livros, sem vida, deslembrada e ordenada para segui-la do depois sem presa. Sem nascer mais fecundado para a formação de ideias e palavras.

  2. Palavras vincadas

    Olá João…

    Sim, há de fato tipos de palavras e de espera. 

    Aqui refiro-me aquela do tempo para a escrita. Aquela que respeita o leitor no sentido de oferecer-lhe uma paalvra esmerilhada e bem colocada.

    A imediaticidade de nossos tempos às vezes leva as pessoas a escreverem sem pensar. O bom texto muitas vezes precisa adormecer. O que ocorre é que hoje em dia cada vez mais as gavetas estão ficando raras.

    Abs e grata pela interlocução

    Eliana 

  3. Deturpação da escrita

    Olá Eliana, adorei a forma como você expressou o que está entalado aqui na minha garganta e que não consigo colocar para fora.

    Não sou profissional de letras, mas tenho um carinho muito especial com a escrita. Gosto das palavras que fogem dos conceitos fundamentalistas, dogmáticos, controladores, chatos. Amo e odeio norma culta, compreende?

    Concordo perfeitamente quando você afirma que a escrita tem mesmo esse quê de artesanato. Porém, infelizmente, o trabalho árduo e artístico da letra, da palavra, da frase e consequentemente do pensamento que o origina perdeu espaço para a nossa cultura imediatista e estupradora de singularidade.

    Obrigado pelo espaço, voltarei mais vezes.

    Marco Bueno.

    • Palavras vincadas

      [email protected] Marco Bueno…

      O enfrentamento do escritor com suas palavras é uma luta titânica. 
      Ás vezes somos nossos algozes e somos muito duros com nós mesmos. 
      Mas como disse, esse tempo de maturação e depois de libertação do escrito acaba sendo muito salutar e enriquecedor. Espero que tuas palavras saiam das gavetas! E encontrem um curso próprio que te satisfaça. Ainda hoje conclui um post no meu blog o Pensados a Tinta ode falo das palavras e das suas metáforas. Que tal conferir? Aqui está o link

      Abs e volte sempre sim!

      Eliana 

  4. bom ler este texto por aqui.

    acho que a gaveta continua a existir. porque quantas sao as coisas que nao saem nunca da gaveta para que, um dia, uma escrita saia rassabiada. isso para que saia apenas alguma coisa. pois parece que para que saia ao menos alguma coisa, o acúmulo na gaveta deve ser considerável. a palavra pede espera, e a repetiçao é sua obsessao produtiva. 

    • Palavras vincadas

      [email protected] Maira…

      Escrita é algo de uma intimidade atroz!
      Emprestamos nossa visão de mundo para os outros. É claro que isso significa um caminho de sensibilidade e olhar atento ao outro. 
      além disso, escrever não é apenas justapor palavras: precisam fazer sentido e construir uma ideia. 
      Posso falar por mim, e em meu caso ela simplesmente brota… a maioria dos meus escritos surgem de um e-mail, de um pensamento, de uma paisagem, de uma leitura. 
      Muitos são os caminhos que trazem alimento para a esta escrita. Por isso, é difícil dar rce3itas ou afins. Em geral o que serve para um não resultará para o outro. 
      Abs e apareça!

      Eliana

  5.  
    ”v incadas” me faz viajar

     

    ”v incadas” me faz viajar no tempo.

       Lembro da minha calça tergal. com boca de sino.

  6. Palavra Vincada

    Nassif: essa foi na veia. Fico feliz em sentir que ainda há escritores para quem a “gaveta” é seu grande aliado. Hoje pulala-se o mundo com ensaios, teses e outros, até “científicos”, para se ensinar e justificar o exercício nobre de compor com palavras um cenário pleno de emoção, tipo daquelas que nos chega com a fúria de uma tempestade, mas que em nós repousa como uma brisa vespertina após o dia de sol intenso. Como um gole dágua na sede intensa. Realmente, “os textos nos tempos de imediaticidade e consumo deixaram de ter essa maturação da escrita pensada e recomposta dia a dia. Literalmente lapidada para, palavra por palavra compor um pensamento inteiro”. Seria pedantismo, de minha parte, dizer que os “novos” estariam errados em produzir alimento para uma multidão sedenta de qualquer coisa que lhe venha forrar o espírito, mesmo com comprometimento do que chamamos de “qualidade”. A fome, material ou espiritual, exige socorro rápido. Mas, creditar-lhes méritos soaria, ainda de minha parte, como plena imaturidade. Compartilho da reserva da “imediaticidade” e das “respostas rápidas” nos textos, considerando, dentre outras, a responsabilidade social do autor. Almir Sater canta que “e preciso paz pra poder sorrir / é preciso a chuva pra poder florir”. Isto é “gaveta”. Quanto ao receio de que o “rigor da gaveta pode inviabilizar um escrito”, lembrei Drummond — “o que quebrou, cristal não era!”. Belo e sensível texto, digno de ser re-vincado em seu Blog.

    • Palavras vincadas

      [email protected] J. Cordeiro…

      Obrigada pelas palavras. Vou tomá-las como grande elogio!
      Gosto muito das palavras e é muito bom saber que elas alcançam diferentes olhares e sentidos.

      A escrita por estar inserida em um contexto social, cultural e afins tem ritmos e necessidades. Cabe a este que escreve descobrir com quais tempos lida e do que seus leitores precisam.

      Tudo isso é o que pode ser chamado de “alquimia da escrita”.

      É sim uma mágica de muitos elementos, que reunidos dão tantos tons e sensações…
      O escritor nunca escreve para ninguém… suas palavras precisam de interlocução e nesse transito de ir e vir o texto acontece: alimenta leitor e escritor.

      Abs e [email protected]

      Eliana

      • Ainda, Palavra Vincada

        Eliana: não há do que agradecer. Eu sim, me sinto lisonjeado com sua atenção aos meus rabiscos. Seu texto, em mim, foi como o “gole dágua na sede intensa”, pois no deserto intelectual em que vivemos poucos são os escritos que me aplacam a sede. A sensibilidade nele é tão intensa que dizer qualquer coisa a respeito corre o risco de macular a leveza. É desses escritos que se lermos mil vezes, cada vez será uma sensação diferente, grata e bela. Lembra aquela passagem onde Kafka comenta duma carta de Milena, que ele lia e a guardava no bolso para, mais adiante, ler novamente, como se fosse recém chegada. Espero ter o prazer de ler outras de suas manifestações literárias. Enquanto isto, vou, como Kafka, guardar seu texto, enfia-lo no bolso para deleitar-me mais adiante…

        • Palavras vincadas

          [email protected] JCordeiro

          Qdo nos dispomos a imprimir em tinta pensamentos não deixa de ser uma forma de se desnudar.
          Palavras vincadas foi meu pos inaugural do meu blog que comecei em Janeiro deste ano. Apesar de constantes apelos de todos os que em liam resistia muito a me expor.

          Mas acho que a hr chegou e o melhor que faço é expor-me inteira com tintas e cores. 

          Todos os que escrevemos escrevemos paa alguém. E é bom saber que os temos após nossa escrita. 

          Abs e vamos nos “vendo”

          Eliana

  7. Obrigada, Eliana!

    Pelas suas palavras. É..o outro, sim. POis lograr a comunicaçao parece ser a razao de uso das palavras, e entao, nao resta outra que aparecer. Outro abraço para você, e bons escritos. 

  8. valeu, Eliana……………adorei sua visão, legal, diferente

    foi numa dessas gavetas que deixei alguém que escrevia só para eu ler…………………..nada a ver com dualidade

    estranho, não!? mas vou tentar explicar

    uma vez tentei resgatá-la, mas passei a escrever como se a ouvisse e desisti novamente, joguei tudo numa gaveta

    quero escrever como se vivesse

    mas gavetas são gavetas, como você bem descreveu, mas para o meu caso em particular todas são sem fundo…………………..descobri que não é só ela

    a meu ver a pior das condições, pelo que interpretei de Palavras Vincadas, inspirações sem fim

    e na maioria das vezes em que tentei voltar a escrever, procurei por palavras mais adequadas, no sentido de me facilar a escrita ou algo assim como encontrar uma escrita minha e não para mim, dela e de muitas outras e de muitos outros, quando então descobri a realidade no fundo do fundo da gaveta, um abismo que se for expressado pela lógica de quem lê, jamais deixará de ser apenas os gritos sem ruído de quem escreve, o que na realidade nunca foi

    não me interessa escrever só para isso, nem a eles nem elas, não costumeiros

    mas ainda não desistimos…………………….

    hei de encontrar uma forma de escrever como se estivesse pintando a escrita em vida dessas pessoas

    quase impossível, eu sei, livre do que já se escreveu sobre , sem fantasias

     

    foi um momento de encanto ler teus escritos, prazer em conhecê-la

    • Palavras vincadas

      [email protected] Peregrino….

      Ah as escritas e seus mistérios!
      É interessante como cada um de nós se relaciona com seus escritos. 
      Não tenho regras para meu caso. 
      Em geral, meus escritos surgem a partir de Debates ou e-mails. Quando vejo está lá tudo escrito e em geral não mudo nem vírgulas. Claro está que isso ocorre para o que costumo chamar de prosa poética ou reflexões mais rápidas.
      Mas há tbm os escritos acadêmicos. Esses precisam de tempo de maturação. Em geral, quanto mais vezes o revisitamos, mais encontramos brechas e caminhos a melhorar.
      Tenho também os escritos por força da minha atuação como docente/conteudista EaD. Outra forma de escrita, outro público e mais um veículo. 
      O que de fato temos é que cada escrita encontrará “gavetas” e escaninhos de acordo com seus suportes e seu público leitor. 
      Afinal, regras são boas mesmo para a quebrarmos!
      Abs e muito [email protected] por estar entre nós

      Eliana

      • admiráveis teus escritos e teu trabalho, não conhecia…

        recanto que visitarei sempre……………………………………para estudar

        ando meio perdido nesse mundo novo, detido ainda por referências passadas não escritas

        motivo que me atraiu de imediato para a importância do teu trabalho, da escrita, fotos, quadros, vídeos, enfim, de tudo isto que flui quase que descontroladamente para o futuro devemos sempre preservar a natureza ou visão momentânea de cada um

        trabalhão, imagino

        pois para mim é como se fosse uma biblioteca em cada pessoa, portanto difícil de transportar ou transferir, pela rapidez com que tudo acontece

         

        abraço forte…………………….luz, saúde e paz

        • Palavras vincadas

          [email protected] Peregrino…

          Sim, é verdade. Meu trabalho é interdisciplinar e toma em conta diferentes suportes e sua apropriação cultural, social. Daí que os temas que trago são os que me inquietam. 

          Espero que te seja útil e que goste. Podes conhecer mais e emlhor lendo os posts relacinados que coloco no fim de cada pos e que te levam para outras trilhas e caminhos. 

          Abs e nos “vemos”

          Eliana

  9. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome