Pelas ventas, por Lúcio Verçoza

Aqui eu vi sacos e mais sacos de açúcar, que entravam e saíam de acordo com a velocidade das barcaças e dos pingos de suor dos homens que os carregavam

Pelas ventas

Por Lúcio Verçoza

No começo eu era apenas um bolo de barro. Então Maria, com suas mãos, me modelou e insuflou em suas narinas um hálito quente de cansaço, e de argila do solo, me tornei um tijolo pronto para ser comprado.

Antes de chegar às mãos de Maria, foi de lá, daquela terra argilosa, na beira da Mundaú, que Jacinto me retirou. Não sei precisamente o ano, isso nem o carbono 14 saberia, mas é certo que fui retirado por ele: como esquecer de seus olhos margeados de massapê? Como esquecer do seu corpo curvado pelo peso do soldo das latas de barro? Era como se a terra úmida tivesse deixado sua digital nele todo.

Jacinto foi o primeiro a me tocar com as mãos, com os pés eu já havia sido tocado não sei quantas luas antes. Primeiro, pelos pés de índios errantes, depois pelos pés igualmente nus e fugidos da gente dos quilombos.

Após virar tijolo, o dono da olaria me negociou com um próspero comerciante de Maceió. Reginaldo, o canoeiro, foi quem me levou Lagoa adentro. Na ocasião não havia vento e Reginaldo zingou como que em busca de um alimento. Migrei da margem de Santa Luzia do Norte para o canal da Levada. Quando vi aquele bocado de gente e de coisas juntas me senti um nada. De lá me colocaram no carro-de-boi guiado por um tal de Nego Benedito, e quando dei por mim, já havia sido descarregado num terreno de Jaraguá.

Não deu nem tempo de me acostumar com o novo ambiente e, no dia seguinte o pedreiro, que atendia por Feitosa, foi logo me colocando por sobre outros tijolos. Na verdade não foi bem assim, entre mim e os outros tijolos havia algo, uma espécie de massa mole como o massapê que eu já fora, mas que depois de um tempo, de seca, se transmutou em algo tão duro quanto nós: tijolos. Na época eu me perguntei: será que o destino de tudo o que seca é acabar duro como a parede desse armazém?

Aqui eu vi sacos e mais sacos de açúcar, que entravam e saíam de acordo com a velocidade das barcaças e dos pingos de suor dos homens que os carregavam. Depois vi tecidos que chegavam e saíam como o apito de navios e trens. Tudo o que aqui chegava, era para ir embora.

Até que um dia, sem nenhum aviso prévio, passaram o cadeado na porta. O açúcar não precisava mais parar no armazém, ia direto ao porto. Quanto aos tecidos, não havia mais fábricas. O bonde? Sim, o bonde, também não havia mais. A maresia? Sim, essa continuava a mesma, lambendo todos os tijolos.

Minto, nem a maresia era a mesma. De uns tempos para cá, sua lambida chega junto ao mau hálito, alguns atribuem a catinga à boca do Riacho Salgadinho, que saliva líquido sujo e espesso na banguela enseada de Jaraguá.

Pois é, os tijolos não são de ferro, mas a gente também sente a ferrugem do tempo. Para que não me chamem de saudosista, falarei de hoje.

Agora o lugar, quem diria? Virou um bar de nome meio esnobe. E na madrugada de ontem para hoje eu vi uma jovem estudante declamar uma poesia que me lembrou Maria, Jacinto, Reginaldo, Nego Benedito e Feitosa. Que me lembrou o toque dos pés de quando eu era massapê. E vi que apesar de tijolo, eu não estava completamente seco, ainda há um pouco de terra úmida em mim.

 

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