Poema da esperança para além da desesperança, nas palavras de Carl Sagan, por Sebastião Nunes

Talvez apenas que, ou aprendemos a conviver uns com os outros, ou mais dia menos dia seremos responsáveis pela nossa própria destruição em massa, com ou sem razão, com ou sem motivo.

Poema da esperança para além da desesperança, nas palavras de Carl Sagan, por Sebastião Nunes

No livro “Pálido ponto azul”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Rosaura Eichenberg, Carl Sagan escreveu o seguinte:

“Nós podemos explicar o azul pálido desse pequeno mundo porque o conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial.”

“Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, ‘superastros’, ‘líderes supremos’, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali – num grão de poeira suspenso num raio de sol.”

E continua, didático e comovido:

“A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus frequentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.”

E segue:

“Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, em meio a toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.”

E vai fundo:

“A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em um futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.”

E termina assim:

“Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina a humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que essa distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservamos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”

Depois disso, será preciso dizer mais alguma coisa?

Talvez apenas que, ou aprendemos a conviver uns com os outros, ou mais dia menos dia seremos responsáveis pela nossa própria destruição em massa, com ou sem razão, com ou sem motivo.

Na próxima semana, penso esmiuçar a “Equação de Drake” e em seguida “O paradoxo de Fermi”, nenhum deles otimista quanto a nosso futuro como espécie.

Neste momento em que o Brasil e o mundo parecem retornar à barbárie mais primitiva, de uma maneira agressiva, selvagem e truculenta como nunca, talvez seja uma boa ideia refletir sobre o que estamos fazendo com nosso pequeno e pálido ponto azul.

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