Poema de um setembro triste, por Dora Incontri

Mas a pátria também é / O corpo que cai na favela / E a mancha do sangue negro / E a história de marcha ré!

Poema de um setembro triste, por Dora Incontri

Fiz esse poema no ano passado, no dia 7 de setembro. De lá para cá, só tivemos pioras em nosso cenário. Portanto, ele é ainda lamentavelmente atual.

A pátria é meu Caymmi
Que deu meu nome de Dora.
A pátria é minha poesia
De Castro Alves, Drumond.
A pátria é meu desenredo
De Guimarães do sertão.
A pátria é meu coração
Onda moram meus amores, de agora
De antes, depois.
A pátria é discreta alegria
De um bem-te-vi na janela.
A pátria é amarela de ipê.

Mas a pátria também é
O corpo que cai na favela
E a mancha do sangue negro
E a história de marcha ré!

Pátria amada, cultuada
Em minha alma de criança
Estás nua, desdentada,
Ensangüentada, queimada,
Rasgando nossa esperança.

Piedade, Musa da pátria
Volta ao que nunca foste
Justa, pura e sem igual.
Dissolve no céu azul
A gritaria atonal,
E faz de nós que sabemos
Nossa estrada desigual,
Construtores dessa hora,
Viajores do presente
Em que de novo se assente
Uma esperança potente!

Pátria amada, desidratada,
Por nosso pranto varonil
Devolve-nos mais que depressa
A seiva do nosso Brasil!

Dora Incontri

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  O preto de cara preta e o branco de cara pintada de preto, por Sebastião Nunes

3 comentários

  1. E, pelo que parece, continuará atual ainda por muito tempo, dado os valores cultivados por boa parte desta sociedade “afluente” em solidariedade.

  2. Encontrei hoje, também, esse poema da Cecília Meireles no blog do Antonio Melo, muito simbólico do Brasil atual:
    Pus o meu sonho num navio

    Pus o meu sonho num navio
    e o navio em cima do mar;
    – depois, abri o mar com as mãos,
    para o meu sonho naufragar

    Minhas mãos ainda estão molhadas
    do azul das ondas entreabertas,
    e a cor que escorre de meus dedos
    colore as areias desertas.

    O vento vem vindo de longe,
    a noite se curva de frio;
    debaixo da água vai morrendo
    meu sonho, dentro de um navio…

    Chorarei quanto for preciso,
    para fazer com que o mar cresça,
    e o meu navio chegue ao fundo
    e o meu sonho desapareça.

    Depois, tudo estará perfeito;
    praia lisa, águas ordenadas,
    meus olhos secos como pedras
    e as minhas duas mãos quebradas.

  3. Muito bonito, triste e exato…
    uma Pátria que apodrece em sua posse por um governo que odeia o seu significado natural

    para alguns de hoje, a Pátria é onde eles mandam e podem descarregar suas bestialidades

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome