Poesia como oxigênio, por Gilson Jorge

Poetas baianos apresentam poemas inéditos criados durante a pandemia e refletem sobre o que esse tempo representa

Enviado por Josias Pires

Jornal A TARDE, Salvador (BA) 16/08/2020

Poesia como oxigênio

por Gilson Jorge

Há um século, o mundo viveu três eventos que impactaram os rumos da humanidade.  A pandemia conhecida como gripe espanhola, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, que colocou parte do planeta sob a inédita experiência do socialismo. Nos cafés europeus, inicialmente, e depois nos campos de batalha, vários poetas influenciados por Karl Marx pregavam e lutavam por um mundo mais solidário que, acreditavam, viria com a revolta do proletariado.

Depois de implantado, o regime ganhou defensores, como Vladmir Maiakóvski. “A mim, cabe falar de mim de minha era. Eu encanador, eu sanitarista… a revolução me convoca, me alista”, diz um trecho do poema A Plenos Pulmões.

O líder bolchevique Karl Radek, poeta e jornalista, por sua vez, declarou sobre a camarada Larissa Reisner: “Ela tem alma de poeta e a raiva de um lutador”.

Atualmente, é difícil encontrar poetas que defendam o socialismo com a faca nos dentes, mas o aprofundamento das desigualdades sociais e da opressão contra os mais desfavorecidos e a própria possibilidade de encontrar a morte forjam um novo momento para a poesia. Uma sensação comum a poetas baianos que estão produzindo durante a quarentena é que o capitalismo não tem dado respostas satisfatórias à necessidade de cuidar da saúde das pessoas.

“O Brasil já tem mais de 100 mil mortos e não há UTIs em quantidade suficiente porque são caras e depois vão ficar ociosas”, afirma Lívia Natália, poeta e professora de teoria literária da Ufba.

Moradora de Itapuã, Lívia sente no bairro os sinais de deterioração da vida mesmo quando está dentro de casa.  Gritos femininos vindos de alguma das centenas de casas aglomeradas na rua em que reside respaldam o noticiário quando esse publica o crescimento da violência doméstica durante a quarentena.  “A gente ouve o barulho e põe a cara para fora, tentando imaginar de onde vem o grito”, diz Lívia.

Tragédia social

Primeira mulher negra a vencer o prêmio de melhor poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA, 2017), Lívia se declara particularmente tocada pelo aumento do sofrimento entre a população pobre e negra nesse período.  Menos trabalho, mais gente tendo que morar na rua por não poder pagar o aluguel e uma tragédia social que ainda não está suficientemente dimensionada. “Muita gente só vai se dar conta do que está sendo esse período mais tarde”, afirma.

Às vezes, para entender é preciso deixar a poeira assentar e assimilar toda a informação.   É o que faz Marcus Vinícius Rodrigues, poeta, escritor, professor e, desde abril do ano passado, membro da Academia de Letras da Bahia.

Rodrigues não tem escrito poemas durante esses dias. Prosa, sim. O uso de personagens permite transferir a outras identidades o que se sente, pensa.  Mas o poema é pessoal, intransferível. “Prefiro esperar o tempo passar e escrever a partir de minhas memórias”, assinala o escritor, que se declara um “pessimista alegre”.

Ao contrário do que chegou a ser cogitado no início da quarentena, de que essa é uma chance para a humanidade repensar suas práticas, Marcus não acredita em um mundo melhor depois da pandemia.

Para ele, haverá mudanças de comportamento em função do risco de contaminação, mas o mundo será essencialmente o mesmo. “É que as pessoas boas vão ficar mais precavidas e as pessoas de índole má vão ficar mais egoístas ainda”, avalia.

Autor do livro NiBrotas, que traz as peculiaridades do bairro onde mora há seis anos, Nilson Galvão aponta um dado desanimador sobre o local que escolheu para viver em 2014: “Se a divisão geográfica adotada pelas autoridades para efeitos de casos de Covid contasse o Acupe, onde moro, e outras partes junto com Brotas, o bairro talvez estivesse em primeiro lugar em número de ocorrências”.

Potência dos versos

O lançamento de NiBrotas, pela Licuri Livros Artesanais, do jornalista Marcus Gusmão, acabou suspenso por causa da pandemia. Mas, por intermédio de Gusmão, o poeta acabou conhecendo o editor gaúcho Gaudêncio Gaudério (pseudônimo de um professor universitário), que mantém uma editora cartonera – editora alternativa que publica livros em papelão reciclado.

Por meio dessa editora, a Vento Norte, Galvão foi convidado a participar de uma coletânea de poemas sobre a pandemia (com Os Argonautas da Rua, publicado antecipadamente nesta edição).

“Essas conversas, que viraram reuniões por videoconferência com a participação de cartoneros de vários países, têm sido um alento também na pandemia”, afirma.

O poeta do gigantesco bairro fincado no coração da cidade afirma seguir firmemente as regras de contenção à disseminação do coronavírus. Higienização do que entra em casa, distanciamento social. Coisas que nem toda a vizinhança seguiu à risca.

Praticante de meditação e do budismo, Nilson Galvão nega a fé na evolução da humanidade depois da pandemia. “Nesse sentido, sou absolutamente negacionista”, brinca.

O poeta afirma sentir-se ainda surpreso quando toma conhecimento de que um poema seu tem boa acolhida. “Escrevo muito para lidar com as coisas”, diz o escritor, que coloca a poesia junto com a meditação e o zen budismo, como apoios para seguir em frente.

Membro da ALB, professor da Ufba e vencedor dos prêmios Cruz e Sousa e da Academia Brasileira de Letras de Poesia, Ruy Espinheira Filho mostra indignação com a forma como o lucro e a manutenção das riquezas de uma minoria são priorizados, mesmo em face de uma crise sanitária.

“É inaceitável o aumento da miséria e a concentração de bilhões nas mãos de uns poucos. Para que eles vão querer tanto dinheiro”, questiona o poeta.

Ruy pontua que a pandemia não é uma novidade histórica, o é apenas para a nossa geração e demarca sua falta de ilusão de que alguma coisa mude por causa do sofrimento atual.

“Eu não sou um homem com esperança na humanidade”, afirma o poeta, ao destacar o predomínio da violência, da estupidez, da falsidade e da ambição desmedida.

Afetos e convivência

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, categoria Poesia, em 2013, a doutora em literatura e cultura Clarissa Macedo declara-se otimista em relação aos afetos, à convivência entre as pessoas.

“Como Carlos Drummond de Andrade, eu me obrigo a ter esperança”, diz ela, que todavia se considera pessimista em relação à economia do país.

“Vejo o comércio em Itapuã (bairro onde mora há dois anos) fechando, as pessoas em dificuldades, sem ajuda do governo”. Também sente falta da vida noturna, dos saraus, como o Som das Sílabas, que costuma frequentar às segundas-feiras no Bar Velho Espanha (Barris).

O bardo português Fernando Pessoa afirmou que liberdade é a possibilidade de isolamento.  Isolados neste momento, sozinhos ou em família, não por escolha, mas por imposição sanitária, os poetas desta geração vão armazenando matéria-prima para contar, agora ou no futuro, a experiência de ter que ficar em casa.

“Para mim, não muda muito. Sou caseiro, e, fora o fato de não sair para dar aulas, minha rotina não mudou muito”, afirma Marcus Vinícius Rodrigues. Mora com a família, mas tem o seu cantinho onde pode exercer quando necessário o isolamento libertário de Pessoa.

Trancada em casa com o companheiro e os seus sete cachorros, Lívia Natália sente-se privilegiada por ter uma residência confortável, mas afirma que não é fácil escrever poesia neste momento com a ciência de que uma parte da população está cada vez mais desassistida.

Nilson Galvão recorre a atividades lúdicas com a mulher e o filho quando bate a ansiedade. Assim como todos os poetas contemporâneos, estão a seu modo produzindo agora os versos que vão ajudar as gerações futuras a sentir o que foi viver a pandemia do coronavírus.

POEMAS

Lívia Natália: O sol desses dias

Agora, a casa precisa devir caverna,
fortaleza,
catre,
bolha-prisão.

Guardar em seu longo ventre
almas desamparadas de medo.

Prender em paredes incertas
às vezes – um muntueiro de gente
cada um devassado por sua dor.

Os telhados não podem vacilar
ante a força das nuvens escuras:
há que se guardar as Águas que jorram
potentes de dentro:
em lágrima,
tapa,
grito,
gozo,
horror.

As casas vão se tecendo
de substância humana,
demasiada…

As ruas se enchem de despojos tristes,
sobejos de vida,
miudezas de existência
que têm,
no céu duro,
seja de sol, estrelas ou
chuva dolorosa,
uma caverna adversa
que precisa aspirar ser
casa.

*

Nilson Galvão: os argonautas da rua

este ar rarefeito nos fascina, a nós,
os argonautas da rua.
essa festa dos diabos em nós, os
vendedores da alma, essa nossa alma
empenhada mil vezes ao demônio
da autocomplacência. argonautas da rua
flutuando pela cidade estrangeira
tão nossa outro dia. mas nenhum outro dia
nos pertence, só este agora, e nele saltamos
em nossos escafandros nossos olhos fundos
de recém-chegados ao planeta sem nome.

amanhã costumava ser o dia dos meus anos,
e ok, nem todos estão mortos mas me diga,
e se eu mesmo estou morto, morri de medo,
morri da peste da indiferença, morri de mim?
amanhã costumava ser um dia inquieto, acordava
crendo ainda mais fervorosamente em ser
essa pessoa tal e qual, mas quá, quem?
quando? amanhã?

em marte pelo menos eu seria exatamente
a projeção das expectativas de quem fosse,
o filho jamais concebido, a menina perdida,
o androide gentil. eu seria tantos e não ninguém,
como serei amanhã, argonauta no planeta equívoco,
filho de um dia de tantas décadas, um dia na
fumaça desses dias filtrados na lente do escafandro,
hoje sou o não-nascido, o aquém de mim,
a natureza crua em cujos códigos está escrito:
fica, vivo ou morto resiste, cruza o mar abissal
para além da porta de casa e segue caminhando,
flutuando, saltitando como quem não sabe
de onde veio e toma outra direção.

saltitando em câmera lenta como os homens
resolutos de 1969, cheios de si no espaço
infinito vazio de si, desajeitadamente como
aqueles homens, medindo cada passo na
superfície intocada, até dobrar a esquina da
avenida de sempre com a rua de sabe-deus-quando.

*

Clarissa Macedo: Serendipidade (p/ Adriane Garcia)

Carrego o mundo nos ombros
e sou apenas o pó
do suor antigo dos cavalos e dos homens,
uma barriga estéril de procriar
um bestiário inteiro de incertezas.

Uma mulher é o absoluto de sua miragem
quando o pórtico da casa não lhe venda os olhos.

Alguns escombros partiram esta manhã
pintando os escudos de uma velha estrada.

Meu amor é um lago vazio
onde tuas muitas mulheres se banham.

Eu sou a ovelha vendida de meu pai
que ofereceu os lençóis em troca da vida;
sou aquela que cravou, da cozinha em que foi instalada,
a faca triste-enferrujada
na cicatriz do próprio umbigo.

*

Ruy Espinheira Filho: Canção em tempo de pandemia

Dentro do mundo parado
reexaminamos a vida:
por que a tornamos assim
tão infeliz, tão perdida?

Injusta, fria, inconsciente,
amarga mais do que fel,
mentirosa, desonesta,
gananciosa, cruel!

Vendo só poder e lucro,
com arrogância, impiedade,
matando o direito de
busca da felicidade!

Ah, é a construção de um mundo
em lamaçal de vaidade,
da mais dura indiferença
e vasta mediocridade

que vão sempre corrompendo,
querendo tudo aviltar,
pregando por toda parte
que está proibido sonhar.

Sonhamos, porém… Vencida
a pandemia, será vez
de mudar a nossa vida
em outra melhor, talvez…

Talvez… Mas se não pudermos
jamais derrotar o mal,
que venha – e será bem-vinda! –
a Pandemia Final!

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