Puxa, como não pensamos nisso antes? O grande impasse, por Sebastião Nunes

Enquanto o genocida não cai e seus asseclas insistem em fazer merda, meus amigos mortos também insistem mas, no caso deles, em vender o Rio de Janeiro. A nova dúvida que ameaça melar o negócio é sobre quem poderá comprar, permutar ou arrendar o Rio.

Puxa, como não pensamos nisso antes? O grande impasse

por Sebastião Nunes

Ia tudo bem, muito bem, na produção do anúncio para vender, permutar ou arrendar o estado do Rio (por no mínimo 500 anos),quando o velho e erudito Manoel Lobato meteu-se destemperado, azedando o leite. Como não posso exigir do eventual e inconstante leitor que acompanhe pari passu esta caótica narrativa, repito o argumento do ladino farmacêutico:

– Seguinte – declarou Lobato, olhando de banda para Luís Gonzaga Vieira, que de publicidade entendia tanto quanto de física teórica. – Não podemos aceitar qualquer um. Imaginem se Donald Trump ou Viktor Orbán gostam da ideia e decidem comprar, permutar ou arrendar nosso produto.

Silêncio geral. Nada de trombetas anunciando visitas ilustres, nada de cânticos angelicais puxando o saco do Senhor, nada de explosões sulfurosas de entes malignos enfezados, nadica de nada. Os nomes referidos bastavam para aturdir, aparvalhar, atoleimar, destemperar e, resumindo, transformar sabidos em estúpidos.

Nisso, Sancho Pança, talvez o mais esperto dos que ali queimavam neurônios, indagou, como quem não quer nada:

– Entrega-se o estado do Rio de porteira fechada. Muito bem. E como ficará, a partir da entrega, a demarcação territorial? Com base em limites, como acontece dentro da federação, ou criando-se fronteiras, como é usual em demarcações transnacionais?

– Mas o que tem o cu a ver com as calças? – engrossou Sérgio Sant’Anna, o irritadiço carioca-raiz.

– O seguinte – repetiu-se o douto Lobato. – Se se separa por limites, o território ficará sob a jurisdição do governo federal, se e quando tivermos governo. Se se separa por fronteiras, cria-se nova nação, que terá constituição própria e demais penduricalhos.

Advogados, ou pelo menos bacharéis em direito, eram ali Adão Ventura, o nobre e boquirroto Lobato, além de Sérgio, maioria absoluta entre os amigos mortos: 3×2.

Matutaram.

REINTRODUZINDO O JUMENTO

Nesse meio tempo, o jumento-asno-burro-jegue Bolsonaro, pendurado pelo rabo, continuava pastando o apetitoso capim em que eram pródigos os bosques eternos.

DE NOVO SEM O JUMENTO

Matutavam, pois.

“Oba!”, pensou Otávio Ramos, que não era bacharel em porra nenhuma e pouco se lixava para bacharelices. Minto. Otávio era bacharel em generalidades.

“Oba!”, pensou Luís Gonzaga Vieira, ex-seminarista-quase-padre, bacharel em jornalismo e doutor honoris causa em Existencialismo.

Os demais brasilianos eram diplomados em direito, a mais amena forma de sugerir que frequentaram faculdades, participaram de formaturas, receberam canudos e louvores dos paraninfos, mas que nada pescavam de ciências jurídicas.

Arrepiaram os cabelinhos da nuca dos bacharéis. “Com que então”, pensaram lá com seus instintos, “teriam de decidir o indecidível?”. Sem dúvida. Não era admissível permitir que Donald Trump, Viktor Orbán ou um jegue semelhante se apossasse do Rio de Janeiro, de porteira fechada. Seria o fim da picada.

SOLUÇÃO, CADÊ A SOLUÇÃO?

– Proponho um comitê internacional de notáveis para decidir quem pode e quem não pode participar do negócio – sugeriu Vieira, o pós-existencialista eterno. – Sartre e Bertrand Russel adoravam esses comitês.

– Muito complicado – disse Sérgio. – Me parece melhor escrever no anúncio que só nações podem participar.

– Sei não – duvidou Otávio. – Se com essa cláusula eliminamos Trump, não se esqueçam de que Orbán continua sendo um prospect.

– Por outro lado, não descartem pessoas físicas e grandes corporações – lembrou Adão. – Imaginem Apple, Coca-Cola, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos ou até a fundação Bill e Melinda Gates administrando o Rio. Me parece uma ótima ideia.

– Eu preferia a União Europeia, agora que a Inglaterra caiu fora – argumentou Lobato. – O diabo é que a Hungria faz parte e gosta de dar palpite.

– Adão tá muito capitalista pro meu gosto – insinuou Otávio. – Que tal a Rússia? Que acham do Putin mandando no Rio, hein?

O JUMENTO TEM UM TROÇO

O jumento-asno-burro-jegue Jair Messias que, pendurado pelo rabo, continuava pastando, parou de mascar, soluçou, bufou e falou – quem diria! – ele sabe falar!

– Comunista, nunca!!! Sugiro arrendar pros milicianos cariocas que são gente de casa, conhecem o Rio como a palma da mão e tão acostumados a trabalhar ali.

Boquiabriram-se os amigos. Quem diria, até o jumento dando palpite! O que não virá depois daquilo?

(No próximo capítulo: O que veio depois daquilo.)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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