Quadrinhos e política se misturam?, por Rogério Faria

A real é que inexiste neutralidade, inclusive nos quadrinhos.

Quadrinhos e política se misturam?

por Rogério Faria

Esse é um debate que volta e meia vem à tona, não só quanto às HQ, mas à arte em geral. Há uma falsa noção de neutralidade que, muitas vezes, confundimos com discursos que apenas estão na linha do nosso ponto de vista. Do contrário, “são tendenciosos”.

A real é que inexiste neutralidade, inclusive nos quadrinhos. As obras que menos nos incomodam em relação à temática, ainda que uma “inocente” HQ infantil, são aquelas que falam mais sobre nós mesmos e que exigem de nós um esforço maior para irromper essa superficialidade.

Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o Tio Sam buscava reforçar uma visão pró-estadunidense na América Latina numa estratégia cultural capitaneada por Walt Disney. É dessa época, por exemplo, a criação do personagem Zé Carioca, presente ainda hoje nos quadrinhos. Isso, por si, não desmerece a obra hoje, claro. Eu leio quadrinhos Disney, agora caprichadamente publicados pela editora Culturama, e meu filho está sendo alfabetizado nessas páginas.

Assim, superando esse assunto, quadrinhos podem ter o importante papel de nos chamar à reflexão de forma madura, de nos apresentar novos pontos de vistas sobre temas antigos, de nos fazer ver a realidade com outros olhos, outra bagagem, outras ferramentas. Por isso, recomendo algumas leituras de quadrinhos nacionais.

Marighella #LIVRE

Esse quadrinho, com roteiro meu e desenhos de Ricardo Sousa (ZéMurai) e Jefferson Costa (Jeremias – Pele), traz três episódios da vida do guerrilheiro comunista inimigo número 1 da ditadura militar. Aqui narramos sua tortura pelo governo de Getúlio Vargas pré-Estado Novo, a sua prisão em 64 no cinema e a sua execução em 69. A HQ conta com prefácio da Cynara Menezes, a Socialista Morena, e posfácio do Luis Nassif.

Ditadura no ar – Coração selvagem

Leia também:  “O menino do Bandolim”, um mergulho na vida de Ian Coury

Após o desaparecimento de sua namorada Lenina, o fotógrafo Félix Panta entra em uma arriscada investigação para descobrir o que os militares fizeram com a estudante comunista. Esse quadrinho, ganhador do Troféu HQMix, tem roteiro de Raphael Fernandes (Apagão) e arte de Rafael Vasconcellos, o Abel (Macbeth).

Socorro! Polícia!

Um quadrinho sobre o que a PM sofre e o que sofremos com ela. Essa obra é uma reportagem em quadrinhos que não tira conclusões. Seu objetivo é mostrar o quão problemática é a situação e que não existem soluções rápidas. Mas uma coisa fica clara, não se pode culpar o policial, pois ele é um dos que mais sofre com a Polícia Militar. Trabalho dos jornalistas Amanda Ribeiro (Folha de S. Paulo) e Luiz Fernando Menezes (Aos Fatos).

A máscara da morte branca

Com bases históricas,  esse quadrinho surge de um presságio que une passado e futuro: na hora mais sombria que virá, Branca Dias há de retornar, com seu faqueiro de prata reluzente, e as trilhas da vingança ela há de iluminar. Tem roteiro de Alexey Dodsworth, duas vezes vencedor do Prêmio Argos de literatura fantástica, e desenhos de Isaque Sagara.

Os quatro quadrinhos podem ser encontrados no site da editora Draco. Porém, ainda dá para aproveitar um pacote promocional no Catarse, e adquiri-las juntamente com a coletânea Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial, na recompensa “Quadrinhos Históricos”. A campanha, que está entrando no seu último dia, pode ser acessada aqui: catarse.me/guerra

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome