Quatro encontros desencontrados com Clarice Lispector

Por Sebastião Nunes

PRIMEIRO ENCONTRO

            Minha velha vizinha bateu na porta e anunciou que me chamavam ao telefone. Estranho. Eu não tinha telefone nem sabia que a vizinha tivesse. Só podia ser notícia ruim. Enfiei a camisa para dentro da calça, calcei um chinelo e fui atender.

            – Aqui é Clarice Lispector – disse a voz desconhecida.

            “Só pode ser trote”, pensei. E resolvi ganhar tempo.

            – Não entendi. Como é mesmo o nome?

            – Clarice Lispector.

            Branco total durante alguns segundos. Não parecia trote. Pelo menos eu não queria que fosse. Não sendo trote, seria mesmo Clarice? Sendo Clarice, que diabo queria comigo? Então me lembrei de que, na semana anterior, despachara pelo correio cerca de 50 envelopes “poéticos”, um deles destinado à interlocutora que ora se apresentava de viva voz, realizando um de meus mais caros sonhos.

            – Ah, sim, Clarice Lispector – recuperei o fôlego e a esperança. – Grande honra receber um telefonema da senhora – continuei, um tanto baba-ovo, trocando a gentileza dos experimentados pelo puxa-saquismo dos desarvorados. Não era todo dia que uma musa de tal grandeza me caía no colo.

            – Recebi um envelope com poemas seus. Não entendi nada, mas desconfio que existe alguma coisa ali dentro. Você poderia me visitar para conversarmos?

 

COMO TUDO COMEÇOU

            Eu me mudara para o Rio de Janeiro seis meses antes. Desgostoso de Belo Horizonte e da rotina de poeta da roça, decidira bater asas, concretizando o sonho dos intelectuais mineiros que não pretendiam mofar eternamente na vida besta provinciana: Rio, São Paulo, Paris ou Nova Iorque. Escolhi o Rio.

            Algumas mudas de roupa na mala, 50 livros de cabeceira despachados numa caixa, 100 cruzeiros no bolso e lá estava eu, entrincheirado numa quitinete da Rua da Passagem, em Botafogo, praticamente duro. Publicitário que odiava a profissão, vendera meus quase 5.000 livros para pagar dívidas. Mal chegado conseguira emprego num cursinho pré-universitário na Rua da Carioca e, através dele, uma gráfica disposta a rodar meu último livro, “Finis operis”: um grande envelope recheado com produções que pretendiam ir além de Concretismo, Neoconcretismo e Poema/processo. Naquela confusa e caótica década de 1970 eu aspirava, com a mania de grandeza dos aprendizes de poeta, a uma “quarta via”, toda minha, de poemas verbo-visuais. Daí a natural estranheza de Clarice e, me vestindo com penas de pavão, a esperança de que ela tivesse me reconhecido como alguém digno de atenção.

SEGUNDO ENCONTRO

            O apartamento de Clarice ficava no Leme. Ela me recebeu bem e nada tinha de apavorante, mesmo sendo eu tímido como um louva-a-deus. Não estava feia nem bonita nem triste. Como esse encontro ocorreu em setembro de 1973, tinha então 52 anos. Do resto nada sei. Era apenas uma mulher curiosa. Sorriu e abriu o jogo:

            – Confesso que fiquei interessada no que vocês fazem. Tenho visto muita coisa por aí que chamam de poesia e não gosto. Como disse por telefone, não entendi nada de seus poemas. O que pretende com aquilo?

            Eu tinha 34 anos, três livros publicados, bom relacionamento epistolar com escritores de todo o Brasil e praticamente nenhum contato pessoal com autores fora de Minas. Lá eu conhecia todos, claro, pois era impossível não tropeçar em contistas, poetas, romancistas, cineastas, compositores, críticos e bêbados na meia dúzia de quarteirões entre o edifício Arcângelo Maletta, o bar Saloon, a Livraria dos Estudantes e o Suplemento Literário do Minas Gerais, capitaneado por Murilo Rubião.

            Não sei o que respondi. Sei que depois de algum tempo me surpreendi dando aula de poesia pós-moderna para a grande dama de nossa prosa. Envergonhado, meti a viola no saco e me dispus a ouvir. Ela não queria falar. Me pareceu insegura, ouvindo tantos termos e nomes estranhos, quase todos desconhecidos para ela.

            Nos despedimos como amigos. Não levara nenhum livro para que autografasse nem ela me ofereceu qualquer de suas obras-primas.

TERCEIRO ENCONTRO

            Durante dois ou três meses trocamos algumas cartas. Lembro-me bem de que na primeira delas, certamente para justificar o silêncio, confessava preferir escrever a falar. E então me convidou para visitá-la novamente.

            O que ela não disse – pois jamais imaginaria que mineiros fossem enrustidos e arredios – é que se tratava de uma pequena reunião com artistas de teatro e jornalistas. Peixe fora d’água, me senti perdido. Andei de um lado para o outro enquanto falavam e se exibiam, buscando atrair a atenção de Clarice. Mais uma vez ela apenas ouvia. Foi quando percebi que o Rio é um imenso teatro e todos são atores num palco iluminado. Reconheci alguns dos famosos do momento, inclusive gente de televisão. Meia hora depois estava cheio e os ouvidos zumbiam. Me despedi dela e caí fora. Nunca mais nos escrevemos nem ela me convidou novamente. Penso que, depois da primeira visita e das cartas, descobriu o que procurava saber de poesia pós-moderna: que não passava de uma tendência (ou mania estética) como todas as outras. Essa última visita, imagino, fora apenas um delicado bota-fora para o aprendiz de futurista.

QUARTO ENCONTRO

            Alguns anos depois, voltando para casa altas horas, minha mulher me disse que haviam ligado do Jornal do Brasil. Queriam um depoimento meu sobre Clarice, morta naquele dia. Bêbado demais, caí na cama. Só no dia seguinte li o obituário sobre minha adorável, cultuada e para sempre perdida ex-quase-grande amiga.

            Pensando bem, o que poderia eu dizer? Que mal a conhecera e nada sabia de sua vida, exceto o que era de domínio público. Ou o que estava em seus livros, numa linguagem que ela nem ao menos inventou: como todos os predestinados, a linguagem e o mundo haviam nascido com ela.

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