Raduan Nassar e eu ninguém, por Rui Daher

Raduan Nassar e eu ninguém

por Rui Daher

Amigos que gostam de ler e alguns que escrevem sempre colocaram a mão no queixo, em gesto de dúvida, quando eu anunciava “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, como o melhor livro, em língua portuguesa, que eu havia lido.

Toda a razão. Trazem com eles um Brasil de grandes escritores. Difícil. Quem vem a este GGN, sabe. Machado, Lima Barreto, J.J Veiga, João do Rio, Rosa, Clarice; na poesia Drummond, Bandeira, Manoel de Barros, Thiago, Coralina. Tantos outros, vocês sabem, tantos outros.

Dos posteriores, sei pouco e ando lendo pouco. O projeto de me aposentar para apenas poder ler e escrever naufragou. O patrimônio formado com o trabalho assalariado foi pelo ralo em avais e fianças dados a bancos e multinacionais químicas para empresa da qual não tinha única ação, apenas o dever ético da ingenuidade e, inclusive, levaram a minha lavoura arcaica de café.

Daí, talvez, minha sagração ao livro de Raduan. Ele publicou sua obra seminal em 1975, quando estava com 40 anos. A minha edição é uma das primeiras, surrada, pois lida, pelo menos, cinco vezes, e emprestada outras tantas.

Em 1984, resolveu parar de escrever e se dedicar à Fazenda Lagoa do Sino, em Buri, interior de São Paulo, sua cidade natal, onde leva vida simples e altruística.

Digo isso, pois tenho relações negociais com uma das cadeias de lojas do Brasil da família Nassar, mas de que Raduan não participa.

Leia também:  Uma fábula tão medíocre e simplória quanto os tempos que vivemos, por Sebastião Nunes

O gênio, já afastado dos campos literários, em 2010, doou os 643 hectares da Lagoa do Sino para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) para que ali se instalasse um campus voltado à agronomia.

Gratuita, no corpo discente destacam-se jovens ligados à agricultura familiar.

Raduan, como outros gênios da literatura e do cancioneiro brasileiro (Chico Buarque), não dá entrevistas, pouco fala, pouco se expõe.

Com duas dignas exceções: a primeira, ao se colocar frontalmente contra o golpe dado à presidente Dilma Rousseff; a segunda, em matéria para o programa Globo Rural, da TV Globo, apresentado em 07/01, pelo excelente repórter José Hamilton Ribeiro.

E mais não digo. Apenas vejam a matéria e pensem na dor que é ver nossas lavouras arcaicamente democráticas serem arrancadas por um bando de canalhas.

Nota: Para assistir à reportagem precisa entrar no site do Globo Rural TV 

https://globoplay.globo.com/v/5561968/

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

    • Assisti, Antônio Francisco,

      mas embora o diretor, Luís Fernando Carvalho, tenha tentado ser o mais fiel possível ao texto, não me encantou tanto quanto o livro. Abraços.

  1. Quando veremos isso acontecer novamente?

    Esses golpistas que estão no poder só querem saber de poder… poder dilapidar o patrimônio dos brasileiros.

  2. Assisti o programa.
    Ressalto que Globo rural continua sendo o melhor programa dá TV. Foi o único a enaltecer o Mais Médicos em um programa.

  3. Rui estou enfeitiçado pelo

    Rui estou enfeitiçado pelo campo, assim como o Raduan Nassar e provavelmente você são ao longo de todas as suas vidas. Gostaria de conversar com você sobre isso, quem sabe com um fundo profissional. Abraço!

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome