Se o ano 2020 acabou, a porta 2020 também não existe mais, por Sebastião Nunes

Depois de uma semana atroz nos Estados Unidos, com o Trump ultrapassando todos os limites, continuo a distopia brasiliana, esperando que o boquirroto Jair Messias consiga sair do pântano de merda em que está cada dia mais afundado, e não nos afunde junto com ele.

Se o ano 2020 acabou, a porta 2020 também não existe mais

por Sebastião Nunes

O capítulo anterior desta fábula distópica terminou assim:

“Jair Messias não tinha escolha. Ou assinava ou dançava. Olhou para o guarda. Não havia piedade nos seus olhos. Olhou para a submetralhadora. Não havia compaixão no seu cano. Olhou para os imortais-mortais-imortais. Eles viraram o rosto e olharam para a porta que estava bem ali, indicando 2020. Eles caminharam na direção da porta.

Sem olhar para trás.”

À medida que nossos amigos avançavam, a porta começou a desaparecer, lenta, muito lentamente, e o guarda com ela, até que restou o vazio.

Nossos amigos pararam. Que fazer?

– Sugiro que a gente continue andando – opinou Sérgio Sant’Anna. – Quem sabe existe alguma coisa na frente desse vazio?

– Ora, Sérgio – escarneceu Vieira. – Onde já se viu atravessar o nada? É mais provável que a gente desapareça também.

– Ou entre numa nova dimensão – argumentou Otávio, um tanto chegado a novidades metafísicas e cosmológicas. – Hein? O que vocês acham?

Sancho Pança e Adão Ventura (sempre montado em seu cavalo) ficaram com medo, mas Jimi Hendrix concordou de imediato:

– Vamos nessa, cara! O que nos pode acontecer além de morrer? Se já estamos mortos, não vai acontecer de novo. Não é mesmo, Janis?

– Tô dentro – declarou Janis Joplin. – Mais fodidos não podemos ficar.

ATRAVESSANDO O NADA

Impávidos como caçadores de fantasmas, nossos amigos seguiram caminhando, Adão e Sancho na retaguarda. Passaram por onde havia a porta 2020 e viram surgir em frente, repentinamente, uma estrada comprida e estreita a perder de vista, flanqueada por abismos colossais. Entre os intrépidos caminhantes e a estrada, um mata-burro.

– E meu cavalo? – inquietou-se Adão. – Mata-burro é danado de perigoso e pode quebrar as patas da minha montaria que, além de ter sido gente, foi presidente da Fundação Palmares antes de desencarnar. Presidente ruim pra danar, mas foi.

– Devemos arriscar – sugeriu Sérgio. – Se quebrar as pernas, azar dele. Jogamos o corpo nesse buracão sem fundo e acabou-se mais um canalha.

– Estou gostando de viajar montado – refugou Adão. – Isso de peão não faz bem pro meu coração. Gostaram da rima pobre?

– Tenho uma sugestão – disse Manoel Lobato. – Por que não faz como numa fábula antiga e bota ele nas costas pra atravessar? Se ficar pesado demais, nós ajudamos.

Dito e feito.

E lá se foram nossos amigos, depois de atravessarem o mata-burro com o cavalo de Adão nos braços dos mais fortes, que eram São Pedro e o Arcanjo Gabriel. Os outros só fingiram ajudar, de modo que, com força e fingimento, o cavalo passou numa boa.

  DENTRO DO NADA, VEREDAS

O tempo, dissemos séculos atrás, não existe na Eternidade. Assim, é impossível calcular a demora da caminhada. Sei apenas que, calculando no olho, devem ter se passado uns 500 anos desde a travessia do mata-burro.

Estudiosos das Escrituras, sabiam todos que não podiam olhar para trás, sob pena de se transformarem em estátuas de sal. Porém, mais teimosos do que burro empacado, olharam conjuntamente e de repente para trás, como se comandados pela voz divina ou por alguém do mesmo calibre.

E não deu outra, pois lá estava, colado na rabeira de nossos amigos, o infame Bolsonaro, a galope, a língua de fora, fedendo como o diabo. Como escapou do pântano de merda? Não sei, não faço a mínima ideia.

A solução que ocorreu a nossos amigos foi ignorá-lo. Apressaram a marcha, de tal modo que Jair Messias quase vomitava os bofes de tanto sebo que botava nas canelas para não perder de vista nossos amigos imortais-mortais-imortais.

Decorridos mais uns 200 anos de tempo inexistente, perceberam que a estrada ficava mais estreita a cada ano. No ponto em que estavam sua largura não devia ser maior do que um palmo dos grandes. A conta certa de botar um pé na frente do outro, sem olhar para baixo, com tremendo risco de despencar no abismo. E assim tremiam, e seguiam.

Quanto ao cavalo, que esqueci, desculpem a distração, mas aconteceu o seguinte: depois de atravessado nas costas pelos nossos amigos, depois de se verem livres do mata-burro e à medida que caminhavam, perceberam que suas quatro patas não davam conta de trilhar a estrada cada vez mais estreita.

Diz o ditado: Não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. Assim, num dado momento, como que por acaso, Adão desceu da montaria e, com uma valente chicotada, despachou o infeliz cavalo Sérgio Camargo para o fundo sem fim do abismo.

Sobre as veredas de que fala o subtítulo acima, elas nos aguardam no próximo capítulo desta interminável distopia. Será uma baita surpresa!

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