Sérgio Sant’Anna e Dom Quixote discutem o futuro da humanidade, por Sebastião Nunes

Sobre o que escrever num país tão doente como o nosso? Sobre doenças, óbvio. Assim, tomo por testemunhas alguns amigos mortos e Dom Quixote, para mais uma dose de humor escrachado. 

Wilhelm Marstrand, Don Quixote og Sancho Panza ved en skillevej, u.å. (efter 1847)

Sérgio Sant’Anna e Dom Quixote discutem o futuro da humanidade

por Sebastião Nunes

Em memória de Mariza Werneck, amiga de longa data, embora à
distância, e de raros encontros.

Você sabe como é o Paraíso. Num dia dá praia, no outro também. O sol brilha num dia, no outro também. As cobras não têm dentes, são pequetitas e vegetarianas. Couves dão lindas flores, para deleite de abelhas e marimbondos, que não têm ferrões. Leões dormem abraçados com tigres, elefantes levam na tromba bichos-preguiças para passear. As galinhas têm dentes, mas não mordem; os rabos dos macacos-prego servem para os pais ensinarem os filhotes a pular corda; nada daquele calorão brabo, que nos países tropicais inferniza a vida dos habitantes; nem do frio terrível que no inverno gela os nórdicos narizes. As noites – ah, as noites! – são iluminadas por fulgurantes luas cheias. Só uma? Que nada: um monte. O Paraíso não tem patrões nem empregados. O Paraíso não tem favela nem condomínios de luxo nem banqueiros nem polícia nem exército. Para quê? O Paraíso, enfim, é aquilo que os antigos sonhadores chamavam de democracia, notória ilusão ótica, epistemológica, estética, ética e política.

Por falar em democracia e sonhadores, certo dia, numa das infinitas quebradas paradisíacas, encontraram-se por puro acaso Dom Quixote e Sérgio Sant’Anna, ambos por ali flanando, como se a vida eterna lhes sorrisse eternamente, o que era verdade.

Ao lado de Dom Quixote vinha Dulcineia del Toboso, linda donzela; e também Sancho Pança, que nunca largava o destrambelhado amo. Pari passu com Sérgio, seus diletos amigos Adão Ventura, Otávio Ramos, Manoel Lobato e Luís Gonzaga Vieira, companheiros de eira e beirada. Lerdos e tardos, como se tivessem a eternidade pela frente. O que também era verdade.

No que se encontraram, saudaram-se de viva voz e altos risos com beijos e abraços, pois no Paraíso não havia espécie alguma dos minúsculos e malvados vilões transmissores das seguintes malignidades:

Covid
Cólera
Varíola de macaco
Tifo
Tuberculose
Sarampo
Lepra
Pneumonia
Gripe
Varicela
Coqueluche
Quebranto
Caxumba
Doença-de-São-Guido
Mal-de-Parkinson
Mau-olhado
Esclerose múltipla amiotrófica
Asma
Olho gordo
Caduquice
Sarna
Mal-das-cadeiras
Rinite
Gastrite
Úlcera gastroduodenal
Dor de dente
Câncer
Dor-das-juntas
Esofagite
Unha encravada
Piorreia
Caganeira
Cólica intestinal
Uretrite
Alzheimer
Furúnculo
Espinha
Isquemia
Ciúme
Espinhela-caída
Inveja
Impotência sexual
Lordose…

Sérgio olhou para Sancho que olhou para dom Quixote que olhou para Otávio Ramos que olhou para Dulcineia del Toboso que olhou etc.

– Por que não botamos essa lista em linhas corridas, separadas por vírgulas, para economizar espaço e poder continuar nossa conversa? Na OMS tem mais de 9.999 malignidades registradas. Será um nunca acabar de listas.

– Agora é tarde – disse São Pedro, aparecendo sem ser chamado. – Se querem continuar com essa lenga-lenga, continuem no próximo domingo.

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“A doença mais grave é a ignorância. Ela é a matriz de todas as doenças que existiram, existem ou virão a existir.” (Sancho Pança)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

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