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Surdina

Enviado por Felipe A. P. L. Costa

Surdina

Por Olavo Bilac [1]

 

No ar sossegado um sino canta,

Um sino canta no ar sombrio…

Pálida, Vênus se levanta…

                        Que frio!

 

Um sino canta. O campanário

Longe, entre névoas, aparece…

Sino, que cantas solitário,

Que quer dizer a tua prece?

 

Que frio! embuçam-se as colinas:

Chora, correndo, a água do rio;

E o céu se cobre de neblinas…

                        Que frio!

 

Ninguém… A estrada, ampla e silente,

Sem caminhantes, adormece…

Sino, que cantas docemente,

Que quer dizer a tua prece?

 

Que medo pânico me aperta

O coração triste e vazio!

Que esperas mais, alma deserta?

                        Que frio!

 

Já tanto amei! já sofri tanto!

Olhos, por que inda estais molhados?

Por que é que choro, a ouvir-te o canto,

Sino que dobras a finados?

 

Trevas, caí! que o dia é morto!

Morre também, sonho erradio!

– A morte é o último conforto…

                        Que frio!

 

Pobres amores, sem destino,

Soltos ao vento, e dizimados!

Inda vos choro… E, como um sino,

Meu coração dobra a finados.

 

E com que mágoa o sino canta,

No ar sossegado, no ar sombrio!

– Pálida, Vênus se levanta…

                        Que frio!

*

Nota

[1] Olavo [Brás Martins dos Guimarães] Bilac (1865-1918). O poema acima – extraído da coletânea Poesia contra a guerra (2015)– foi publicado em livro em 1888.

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