Termina a leitura e vai recomeçar a lambança, por Sebastião Nunes

Continuando a distopia, nossos amigos perseguem uma verdade impura e corrompida, como tudo no reino dos canalhas e do genocida, que nunca enxerga as maldades nas quais atola o país.

Termina a leitura e vai recomeçar a lambança

por Sebastião Nunes

Nossos amigos imortais-mortais-imortais, sentados em poltronas de nada, ocupavam no espaço-tempo inexistente uma minúscula fatia, tão pré-microscópica que nem Einstein levaria em conta, caso pretendesse reformular a teoria geral. Não importa. O que estavam trombeteando nossos amigos era mais importante do que ninharias tipo relatividade, buracos negros, teoria das cordas, universos paralelos e bobagens similares, inventadas por físicos ociosos e metidos a besta.

Com nada se preocupavam. Apenas digeriam o acabado de ouvir, preparando-se para o que ainda ouviriam, enquanto refletiam sobre o nojento movimento dos canalhas lá embaixo, na superfície envenenada da Terra, como donos, proprietários e senhores absolutos de todo o universo desde que, com um peido, ele se originara do pré-tempo. E se preocupavam com toda a infinita chusma de canalhas nojentos, se não no futuro, que não existia, nem no passado, que era apenas um retrato ensanguentado na parede, no presente, que também não existia, embora fizesse de conta.

Entediado, Gabriel Arcanjo, com o adjutório do bom Sancho Pança, se aplicou na veia um pouco de heroína. Quase nada, apenas o suficiente para desobstruir as portas da percepção e se desligar daquela aporrinhante leitura de excertos do escritor Raymond Chandler, que decerto odiava os que ganhavam muito dinheiro, chutando ou não o saco do pai, pisando ou não no pescoço da mãe. Gabriel não estava nem aí.

São Pedro, sentado numa nuvem branquela, e aproveitando que Sancho passava por ali, serviu-se de gordo baseado, que se pôs a chupar como se fosse o seio materno, de olhos voltados para o nirvana, que também não existia. O que teria ele, habitante do Paraíso, chefe de portaria, responsável pelas entradas, com os canalhas? Nada.

DE VOLTA ÀS LEITURAS

Sérgio Sant’Anna, percebendo que não estavam nem aí, voltou ao penúltimo capítulo para ler um trecho do prometido ensaio de Chandler sobre a entrega do Oscar, não importa o ano. Pigarreou, encheu o peito, abriu a boca e mandou:

“Os que desprezam o cinema costumam pensar que disseram tudo de ruim, ao considerá-lo como entretenimento de massas. Como se isso significasse alguma coisa. O teatro grego, que a maioria dos intelectuais continua considerando bastante respeitável, era entretenimento de massas para os cidadãos de Atenas. Também o era, dentro de seus limites econômicos e topográficos, o teatro isabelino. As grandes catedrais da Europa, mesmo que não tenham sido construídas exatamente para se passar uma tarde, tinham um imediato efeito estético e espiritual no homem comum. (…) Seria razoável dizer que toda arte, em algum momento e de algum modo, se converte em entretenimento de massas e, se não o faz, morre e cai no esquecimento.”

Cadê os aplausos? Esperou. Olhou cada um dos amigos. Examinou a seringa de Gabriel. Contemplou o baseado de São Pedro. 

– Agora é a minha vez – adiantou-se Luís Gonzaga Vieira, que certamente ouvira a arenga de Sérgio. – Tenho aqui um acrescentamento fantástico:

“Supondo que sua inteligência seja tão alta como a minha (dificilmente seria mais elevada), supondo que suas oportunidades na vida para promover seus próprios interesses sejam tão numerosas como devem ser, por que trabalhar por uma migalha? A resposta a essa pergunta conta a história completa, a história que sempre se está escrevendo de maneira indireta e que nunca é completa, nem ao menos clara. É o combate de todos os homens para ganhar a vida de maneira decente numa sociedade corrupta. É um combate impossível: não se pode ganhar.”

Então aplaudiram. E aplaudiram por quê? Talvez porque todos ali sentiram que, durante sua inglória perambulação pelas estradas da vida, viveram daquele jeito. Ou seja, o primeiro texto era teórico; o segundo, picava na veia, com perdão do repeteco.

TRESPASSA A CARAVANA

Disputaram na porrinha quem seria o próximo, pois eram muitos excertos e poucos leitores para todo o conteúdo selecionado do livro-fruta. Ganhou Otávio Ramos. Que leu o seguinte:

“Há coisas no negócio editorial de que gostaria, mas lidar com escritores não seria uma delas. Seus egos exigem demasiada atenção. Vivem vidas demasiado tensas, em que se sacrifica demasiada humanidade por demasiada pouca arte. Para toda essa gente a literatura é mais ou menos o fato central de sua existência, enquanto que, para uma imensa quantidade de pessoas razoavelmente inteligentes, é um fato marginal sem importância.”

Silêncio. Não era com eles. Perda de tempo (que não existia ali, claro).

De novo na porrinha, ganhou Adão Ventura:

 “Os que possuem o dinheiro e o poder absoluto podem fazer o que quiserem.”

Parou. Refletiu. O trecho era longo e continha muito blá-blá-blá. Mas, continuar por quê? Bastava uma frase para registrar o que acontecia no mundo e, se a gente pensar no país em que pontificava o antipresidente Jair Messias, tudo estava dito.

Foi quando, como se surgindo do nada, Bolsonaro apareceu. Esfarrapado, boca aberta, olhos esbugalhados, nariz escorrendo meleca.

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