Três poemas sobre futebol

Enviado por Nilva de Souza

Do Outras Palavras

3 poemas inéditos sobre o ludopédio bretão chamado Football

Por Augusto Guimaraens Cavalcanti

Sobre os goleiros

Medita o goleiro-engenheiro na geometria

de gestos mais econômicos

Traves são planetas grávidos

de gols, vicejados de noite

 

 

O gol é o melhor psicanalista do atacante

O gol redime “tudo”,

é a meta representação ideal para toda cirurgia do jogo;

para o verão forçado de um gol

Antes de qualquer tempo inaugural,

pairam os goleiros

com suas aparências desoladas

a beijar solitariamente suas traves

Goleiro mãe do galináceo,

guardião do marco zero

O mistério dos goleiros:

eles também não aprenderam a voar

.

Ao rés do chão

Uma bola enfrenta o limite “real” do chão

Balizas nascem do gol como telas contíguas a

qualquer escala do corpo humano,

rodeadas por eróticas redes

Pernas eloquentes tocam o lado escuro

dos mármores lunares

Esta é a caça recíproca dos deuses que mordem;

deuses publicitários de si próprios

Este é o arriscado balé dos lumes babilônicos,

das luas improváveis de mármore

O Olímpio trágico de um Maracanã é o nosso laboratório ancestral

Somos todos filhos do dilúvio

Rola a esfera na terra sintética do espetáculo;

órbita em permanente assunção

ao rés do chão

.

Gramática das chuteiras

Um empate seria morrer pelo outro,

como uma bola que beijasse tragicamente a trave

para depois se lamentar para sempre

Das chuteiras é que saltam os pulmões das travas,

suas melodias irrompem das cinzas de uma grama

ainda por crescer

Este é o baile de um destino

que se decide em ato;

a vertigem do gol sempre abre uma fresta no espaço

Todo gol transborda

por ser irreversível

Seus roteiros não definem seus trajetos

A bola, placenta celeste, joia sem furo, esfera-lua,

bola-sol que resvala seu mapa empírico:

                                          diamante do homem comum

.

140608-Guimaraens

Augusto Guimaraens é poeta e romancista. Já lançou: Poemas para se ler ao meio-dia(2006, 7Letras); Os tigres cravaram as garras no horizonte (2010, Circuito) e Fui à Bulgária procurar por Campos de Carvalho (7Letras). Atualmente prepara o livroMáquina de fazer mar. Mantém um blog: www.augustoazul.blogspot.com

Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandasMercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

5 comentários

  1. por favor seu nassif,deixe a

    por favor seu nassif,

    deixe a poesia de fora dessa marmelada populista de mercado! neste interregno futebolístico da Soberania Nacional invadida anexada pelo conluio FIFA/Megacorporações/Religião pra cima da boa fé de um povo bom, generoso, alegre na sua santa ignorância do primário mal feito…

  2. Muito legais os poemas, mas

    Muito legais os poemas, mas Carlos Drummond de Andrade se superou com o “Sermão da Planície” (que é prosa)

    Peço desculpas aos colegas, mas não encontro o link para ele, mas lembro que:

    “Bem aventurados os surdos, porque não ouvirão o estrondo de bombas, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo”

    • Ainda Drummond.

      A LÍNGUA E O FATO

      Precisamos dar um nome
      português a este desporto.
      De resto, o nome genérico
      nem tem cara de vernáculo.
      Lincoln, de latim provido,
      hesita entre bulopédio
      e globipédio. Afinal
      define-se por ludopédio
      no jornal oficial.
      Aprovado o lançamento
      por força de lei mineira
      não assinada mas válida,
      eis que de súbito estraleja
      barulho estranho lá fora.
      A redação se interroga.
      Que foi? Que não foi? Acode
      o servente noticioso
      e conta que espatifou-se
      a vidraça da fachada
      por bola de futebol.

      Carlos Drummond de Andrade – Nova Reunião Vol. 2 – José Olympio Editora

       

  3. Boa, Nílva!

    Poesia de craque.  

    Contribuo com o poema de um brasiliense por adoção:

     

    nem tudo
    que é torto
    é errado

    veja as pernas
    do garrincha
    a as árvores
    do cerrado

     

    Nicolas Behr

    Poesília – Poesia pau-brasília – LGE Editora

    Exibiçõe

     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome