Um guerrilheiro solitário planeja atacar o Grande Irmão, por Sebastião Nunes

Wilson vira o caderno na vitrine de uma loja de bugigangas, uma lojinha pobre e desmazelada num dos bairros miseráveis de proles, cuja localização esqueceu.

Um guerrilheiro solitário planeja atacar o Grande Irmão

por Sebastião Nunes

O membro do Partido Exterior Wilson Souza estava determinado a escrever um diário e, através dele, hostilizar o Grande Irmão, o Partido Interior e o coração do poder na Terra Unificada. Se provocasse ao menos um arranhão na carapaça de aço. Se outros tivessem coragem de fazer algo parecido. O camarada Wilson, meio bêbado, delirava.

Em momentos assim, o ardor no estômago, causado pela cachaça vagabunda, desaparecia. Wilson tirou um cigarro de um maço em que se lia “Cigarros Paulistanos”. Distraído, deixou-o na vertical, de modo que o fumo frouxo deslizou para o chão, sem que Wilson pudesse impedir. Os “Paulistanos”, além de únicos cigarros acessíveis aos membros do Partido Exterior, eram de péssima qualidade. Tirou outro, mantendo-o na horizontal, riscou um “fósforo Paulistano”, tragou com força e voltou para a sala.

Por alguma razão desconhecida, a macrotela ocupava uma posição incomum na sala do apartamento: em vez de estar na parede dos fundos, ficava na parede mais larga, diante da janela. Fora do alcance da macrotela, havia uma reentrância estreita, na qual Wilson havia colocado uma mesa e uma cadeira. Com certeza, houve um erro de construção. Erro que Wilson aproveitou para conseguir um ótimo esconderijo.

 

DESAFIANDO O PODER UNIFICADO

Wilson puxou a cadeira e sentou-se o mais perto possível da parede. Podiam ouvi-lo, é claro, mas enquanto estivesse sentado não o poderiam ver. Se evitasse ruídos, também não o ouviriam. Foi por causa da existência desse esconderijo que a ideia de escrever um diário lhe ocorrera.

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Tirou da gaveta um caderno grosso e bonito. O papel era suave, de cor creme, amarelado pelo tempo: havia pelo menos quarenta anos que não se fabricava esse tipo de papel. Existia a possibilidade de que fosse mais velho, talvez até da década de 2020 ou 2030, quando ainda existia papel de escrita, apesar de cada vez ser menos usado, devido à avassaladora dominação dos minitelas, que invadiram os antigos países e fascinaram crianças e velhos. Como Wilson bem sabia, o predomínio absoluto dos minitelas (que então se chamavam telefones celulares e eram dotados de incríveis funções) marcou o fim das iniciativas individuais, da capacidade de pensar com autonomia. Quando alguém tentava ler ou escrever durante mais de 10 minutos, era acometido por intolerável sensação de desconforto, seguida de fortíssima dor de cabeça. Lentamente, escritores e leitores desapareceram, sem que ninguém desse por isso. Na nova ordem da Terra Unificada, esse tipo de gente não fazia falta.

Wilson vira o caderno na vitrine de uma loja de bugigangas, uma lojinha pobre e desmazelada num dos bairros miseráveis de proles, cuja localização esqueceu. Ao vê-lo na vitrine, sentiu irresistível desejo de posse, como há muito não experimentava.

Supunha-se que os membros do Partido não entravam em lojas como aquela, nas quais se praticava o chamado “mercado livre”. Mas as regras não se aplicavam na sua totalidade, pois havia coisas, como atacadores de sapato e lâminas de barbear, que eram impossíveis de obter de outra maneira. Depois de olhar para cima e para baixo, Wilson entrou na loja e comprou o caderno por dois euros e cinquenta cêntimos. Na hora, não lhe ocorreu qualquer utilidade para ele, mas ficou orgulhoso de possuir um objeto tão bonito, embora se sentisse terrivelmente culpado pelo que havia feito: era uma posse comprometedora. Então, num impulso, e já que se tornara culpado de um crime grave, embora não houvesse qualquer lei proibindo comprar algo dos proles, comprou também seis lápis, outros objetos quase extintos, pagando mais dois euros e quarenta.

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CRIMES, PENAS E DESAPARECIMENTOS

Quando entrou em casa e abriu o caderno, notou inscrições em muitas folhas. Uma delas, ocupando duas páginas, Wilson não foi capaz de entender. Escrita com lápis preto e, aparentemente, com raiva, sugeria que o autor sofria daquilo que os psicólogos chamavam de descontrole emocional. Dizia: FORA BOLSONAZI!

Não tinha a menor ideia de quem fosse esse tal de Bolsonazi. O nome soava familiar e ele se lembrou do nazismo, um partido político antigo, da Inglaterra ou da França, dirigido por um tal de Stalin ou Franco (precisava verificar nos arquivos), que praticara crimes horrorosos na antiga Europa. Com certeza, o nome se referia a algum dos milhares de políticos que, antes da Unificação da Terra, usavam os governos de países, estados, províncias, territórios e distritos como propriedade sua e de seus cúmplices, agrupados em milícias e organizados como exércitos violentíssimos.

O que teria acontecido com esse tal de Bolsonazi? Até onde se lembrava, muitos desses criminosos políticos foram, assim que o Grande Irmão assumiu o poder supremo, condenados a penas severas, desde prisão perpétua com trabalhos forçados até o temido enforcamento em praça pública. Quando condenados a prisão perpétua, desfilavam metidos em trapos pelas ruas centrais, sujeitos a xingamento dos proles. Se condenados à forca, ondas de pavorosa alegria acompanhavam seu trajeto da cadeia até o local da execução, numa macabra cerimônia em que crianças e adultos jogavam pedras, ovos, tomates, urina, excremento, lixo e todo tipo de porcaria nos criminosos que, quase nus e de mãos amarradas nas costas, recebiam essas descargas de sujeira sem reação e até, às vezes, chorando. Os exemplares de O Globo que Wilson retificava, frequentemente se referiam a eles, mas eram tantos os criminosos que acabara por confundir uns com os outros e, finalmente, por esquecê-los e a seus crimes, por mais hediondos que fossem.

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Esse tal de Bolsonazi, por exemplo, era como se nunca houvesse existido.

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