Uma pausa na distopia que persegue a maior utopia negativa do século XX, por Sebastião Nunes

Quem tem razão é o português Alberto Pimenta, que publicou, no já distante ano de 1977, a primeira edição do pequeno-grande livro “Discurso sobre o filho da puta”

Uma pausa na distopia que persegue a maior utopia negativa do século XX

por Sebastião Nunes

Vivendo em 2084, Wilson Souza desconhecia completamente os pequenos genocidas Donald Trump e Jair Bolsonaro. Como era possível para um trabalhador, cuja função era reescrever notícias do passado, desconhecer essas horríveis criaturas?

O motivo, na verdade, era bem simples: havia pequenos genocidas demais na história humana. Dos grandes ninguém esquecia. Quando inquirido, Wilson se lembrou imediatamente de Hitler e Stalin, os maiores genocidas do século XX. Mas não lembrou nenhum dos genocidas que cometeram horrores no século XXI.

Desde Alexandre Magno, passando por Júlio César até chegar a Napoleão Bonaparte, todos foram considerados heróis-conquistadores, invadindo e devastando vilas, cidades e nações, apenas pela ânsia de mais poder, e mais riqueza. Mas suas devastações eram consideradas apenas do ponto de vista militar: capitães e guerreiros de elite, estavam acima do Bem e do Mal, pouco se importando com o rastro de violência e destruição que seguia seus exércitos encharcados pelo sangue dos mortos e pelo ódio dos sobreviventes deixados para trás.

Em todos os tempos houve pequenos genocidas demais, como houve pequenos filhos da puta demais. Por isso, ninguém se lembra dos pequenos genocidas do passado nem dos pequenos genocidas modernos nem dos pequenos genocidas contemporâneos.    Quem tem razão é o português Alberto Pimenta, que publicou, no já distante ano de 1977, a primeira edição do pequeno-grande livro “Discurso sobre o filho da puta”, que tem trechos da mais pura iluminação-sardônico-grotesca:

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“O pequeno filho da puta é sempre um pequeno filho da puta; mas não há filho da puta, por pequeno que seja, que não tenha a sua própria grandeza, diz o pequeno filho da puta.”

Os pequenos filhos da puta, tipo Donald Trump e Jair Bolsonaro, se conformam com sua pequenez, como o próprio pequeno filho da puta reconhece:

“No entanto, há filhos da puta que nascem grandes e filhos da puta que nascem pequenos, diz o pequeno filho da puta. De resto, os filhos da puta não se medem aos palmos, diz ainda o pequeno filho da puta.”

Quem pariu Mateus que o embale, reza o ditado. Assim, parte dos povos que por azar, ignorância, burrice ou estupidez, geraram os pequenos filhos da puta, insistem em continuar apoiando os pequenos filhos da puta em sua perseguição por mais poder, para si mesmos ou para outros pequenos filhos da puta iguais a eles.

Pois essa parcela da população, como o próprio pequeno filho da puta, é tal e qual descreveu Alberto Pimenta:

“O pequeno filho da puta tem uma pequena visão das coisas, e mostra em tudo quanto faz e diz que é mesmo o pequeno filho da puta.”

Nem os pequenos filhos da puta, à maneira de Trump e Bolsonaro almejam mais do que isso, porque

“… o pequeno filho da puta tem orgulho em ser o pequeno filho da puta. Todos os grandes filhos da puta são reprodução em ponto grande do pequeno filho da puta, diz o pequeno filho da puta.”

DESIGUALANDO OS IGUAIS

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A essa altura, creio já poder diferenciar nossos dois heróis de hoje: pelo poderio e riqueza do grande país do Norte, que ele humilha e envergonha, Donald Trump talvez mereça ser chamado de grande filho da puta; e pela miséria e pobreza crescente imposta ao grande país do Sul, Jair Bolsonaro merece, sem dúvida, ser chamado de pequeno filho da puta.

Diante do exposto, e reconhecendo que estou em dúvida sobre a continuação mais adequada a esta distopia comparativa, faço uma pausa necessária para ruminar e, quem sabe, retomar com mais brilho e lucidez este 2084.

Para encerrar, reconheço que, neste momento, o grande filho da puta do Norte e o pequeno filho da puta do Sul estão em vantagem no vale-tudo do jogo democrático que vivemos.

Os novos lances dependem do que o futuro próximo nos jogará na cara.

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