Amazônia em Chamas: incêndios arrasam florestas da Bolívia e do Paraguai

Especialistas temem que impactos sejam ainda maiores, pois a época da seca está só começando. No helicopetro, militares usam bolsa que jorra água (o dispositivo Bambi Bucket) para apagar queimadas na região de Roboré, na Bolívia

Foto cedida por Carlos Orias B/agosto 2019

da Amazônia Real

Amazônia em Chamas: incêndios arrasam florestas da Bolívia e do Paraguai

Por Giovanny Vera, especial para a Amazônia Real

Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) – Agosto foi um mês trágico não só para a Amazônia brasileira, que sofreu com um recorde de queimadas, mas também para a Bolívia e o Paraguai, pois, assim como no país vizinho, continuam combatendo focos de incêndios que se revitalizam cada dia, amparados pela baixa umidade e os fortes ventos. Com números cada vez maiores de queimadas e com um tímido, ou quase nulo, apoio ao combate ao fogo por parte de seus governos, agora a população exige uma luta ativa contra os incêndios florestais.

Como se pode constatar, as queimadas e seus impactos vão além das fronteiras. Nas regiões do Pantanal, compartilhado entre Bolívia e Paraguai e também na Chiquitania boliviana, grandes queimadas tiveram sua contribuição para o rio de fumaça que chegou até São Paulo para cobrir seu céu e que continuou até a região Sul do Brasil. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou a chegada da fumaça na maior cidade brasileira. Leia a primeira reportagem da série “Amazônia em Chamas”.

Houve dias em que a concentração de focos de calor e as emissões de dióxido de carbono (CO2) e dióxido de nitrogênio (NO2) foram muito  altas. Elas se apresentaram simultaneamente nas áreas mencionadas acima, e coincidiram com os ventos vindos de norte a sul. Transportaram a fumaça desde a Amazônia, se juntando às emissões da Bolívia e Paraguai, conforme explicou Armando Rodríguez, gerente de projetos de geomática da Fundação Amigos de la Naturaleza (FAN), da Bolívia.

De acordo com ele, a situação atual de queimadas tem alguns fatores comuns que a promoveram, como “a época seca que começou mais cedo em relação a anos anteriores, fortes ventos atípicos neste período, e atividades humanas, como o desmatamento para abertura e habilitação de novas terras para plantios”.

Incêndios na Serra de Ricardo Franco, no Mato Grosso, fronteira com Bolívia
(Foto CBM-MT)

Outro fator comum aconteceu no Brasil e na Bolívia: o descaso dos governos dos dois países para atender ao iminente perigo de descontrole dos incêndios. Foram mais de 20 dias de queimadas sem ações diretas de apoio às instituições que estão à frente no combate ao fogo, até que, por pressões da população, os presidentes Jair Bolsonaro e Evo Morales, cada um em seu país, decidiram dispor de fundos para controlar os incêndios e enviar ajuda.

Foi assim que no dia 22 de agosto a Coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) declarou os presidentes Morales, da Bolívia, e Bolsonaro, do Brasil, como personas non gratas em uma carta aberta aos povos indígenas.

Também foi elaborada uma declaração de emergência ambiental e humanitária pela Coica. Nesses documentos, ambos os presidentes foram acusados de apresentar falta de vontade e incapacidade para proteger os povos indígenas e a biodiversidade, frente aos incêndios florestais em seus países.

Já no Paraguai, a Secretaria de Emergência Nacional (SEN), dependente do governo central, atuou desde a segunda semana de agosto no combate ao fogo no Pantanal paraguaio. Por isso, conseguiu controlá-lo logo, enviando aviões e especialistas à região afetada.

O Inpe registrou em 18/08/2019
a fumaça na Cordilheira Santa Cruz, na Bolívia

População em pânico

Incêndio florestal na Bolívia (Foto cedida por Carlos Orias/B8)

Na Bolívia, as regiões mais afetadas com as queimadas são a de Chiquitania, área de transição entre a Amazônia e o Chaco, e a do Pantanal, que a partir da segunda quinzena de agosto sofreram ainda mais com o fogo que se descontrolou. O avanço do fogo foi ameaçando comunidades e a população entrou em pânico, por se sentir incapaz de apagá-lo.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que na Bolívia os focos de calor começaram a se multiplicar a partir de junho, até alcançar o número de 14.307 focos neste mês, somando um total de 19.871 pontos detectados durante o ano inteiro. Por sua vez, o Sistema de Monitoramento e Alerta Precoce de Riscos de Incêndios Florestais (Satrifo), da Fundação Amigos da Natureza (FAN) da Bolívia, informou que foram registrados mais de 2,1 milhões de hectares queimados no país inteiro neste ano, até o dia 27 de agosto. Veja o infográfico abaixo:

Apesar da emergência, nesse momento o presidente boliviano Evo Morales declarou que a Bolívia tinha os recursos necessários para o combate ao fogo e se negou a solicitar a ajuda estrangeira. Agiu de modo semelhante ao presidente brasileiro Jair Bolsonaro na relação com as queimadas na Amazônia brasileira.

Já na quinta-feira, 22, o governo boliviano anunciou a contratação do maior avião tanque do mundo, o Supertanker Boing 747, para ajudar no combate aos incêndios nesse país. O avião vem operando até hoje, junto a helicópteros militares e aviões agrícolas pulverizadores, numa tarefa conjunta para debelar o fogo.

Em uma primeira avaliação, feita pelo governo boliviano, os incêndios já tinham devastado, até o dia 24 de agosto, mais de 700 mil hectares de bosques, em 35 comunidades de 11 municípios, afetando, pelo menos, 1.817 famílias, de acordo com Javier Zavaleta, ministro da Defesa boliviano.

Com o fogo acirrando, e depois de uma semana de manifestações de moradores e autoridades da região afetada, no domingo, 25 de agosto, o presidente Morales aceitou a oferta de ajuda de países como Argentina, Peru, Paraguai, Chile e Espanha, além de apoio financeiro oferecido pela Corporação Andina de Fomento (CAF).

Pesquisadores, autoridades e instituições ambientalistas bolivianas avaliam que as queimadas estão relacionadas a uma série de medidas que Evo Morales vem tomando na área de meio ambiente. Um exemplo é o assentamento de colonos ligados ao seu partido político, dentro de unidades de conservação na Chiquitania, conforme comentou Rosa Virginia Suárez, coordenadora da ONG Probioma. “Grupos de pessoas são trazidos para a região para colonizar e para abrir novos campos agropecuários, até dentro de unidades de conservação que fornecem água ao Pantanal e para toda a região”, explicou Virgínia.

Militares usaram helicópteros para apagar chamas na região de Roboré, na Bolívia
(Foto: Carlos Orias B/agosto 2019)

Para Vincent Vos, biólogo pesquisador, “os incêndios são o resultado direto de políticas governamentais focadas na ampliação da fronteira agropecuária e o fomento ao agronegócio, com custos ambientais e sociais inaceitáveis”. Segundo o investigador, o governo boliviano tem realizado alterações nas normativas ambientais que “favorecem e promovem o desmatamento, novos assentamentos e atividades agropecuárias em zonas com vocação florestal”, sem respeitar as recomendações técnicas e científicas.

O presidente Morales promulgou um decreto, um mês antes que as queimadas se descontrolassem, no qual foram autorizados, nas regiões de Santa Cruz e Beni, o desmatamento e a queima controlada de mata, com o objetivo de realizar atividades agropecuárias.

Paraguai em alerta

A Bolívia e o pantanal paraguaio enfrentaram incêndios que conseguiram propagar-se nessas regiões ao mesmo tempo, devastando cerca de 39 mil hectares de áreas de floresta e pastagens. Além disso, ainda afetaram duas unidades de conservação, de acordo com dados da Secretaria de Emergência Nacional (SEN) do Paraguai. O fogo teria iniciado no lado boliviano, e de lá pulou para Bahía Negra e Chovoreca, na região Alto Paraguai, a mais de 800 km de Assunção. Até a terceira semana do mês de agosto foram registrados no país 10.723 focos de calor.

Joaquin Roa, ministro da SEN, informou que os incêndios no pantanal paraguaio foram controlados pelas equipes enviadas desde Assunção, mas que devido às críticas situações nos lados boliviano e brasileiro, o presidente paraguaio Mario Abdo Benitez orientou que a SEN esteja pronta para atender a novos casos de queimadas na região.

Desta forma, a SEN entrou em alerta máxima e preparou um plano que terá como base a cidade de Forte Olimpo, a quase 800 km de Assunção, para onde serão levados insumos, materiais e bombeiros para o combate ao fogo, se for necessário. Devido à mudança na direção do vento, desde o dia 24, sábado com ventos de sul a norte, haverá dois helicópteros e equipes de bombeiros na cidade de Bahía Negra e na região de Chovoreca.

De acordo com Oscar Rodas, diretor de Mudanças Climáticas da WWF Paraguai, as queimadas afetaram mais de 20 mil hectares do Parque Nacional Rio Negro, que é Pantanal, e, pelo menos, 10 mil hectares na zona da Reserva Natural Chovoreca, onde a vegetação é de bosque seco. A área de Pantanal é adaptada às queimadas e espera-se que não tenha um impacto muito grande. Porém, continua Oscar, “o bosque seco de Chovoreca poderá ser ainda mais afetado, dependendo da intensidade dos incêndios, levando em conta que a época de queimadas ainda está começando e vai até outubro”.

Após os graves incêndios de agosto, o governo paraguaio iniciou avaliações dos impactos e estabelecendo os próximos passos, considerando que a região tem uma importância natural para sua conservação e recuperação, explicou o representante governamental. Por enquanto, o Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável publicou um comunicado, indicando que estará monitorando a zona afetada, para que os incêndios não sejam a causa de mudanças no uso do solo, levando em conta que na região existem fazendas pecuárias.

Diante da situação das queimadas, o Senado paraguaio declarou, em situação de emergência ambiental, as duas regiões afetadas pelas queimadas: Alto Paraguay e Boquerón. Essa situação de emergência terá duração de um período de sessenta dias, e tem como objetivo apoiar a população local e instituições, disponibilizando recursos para o combate ao fogo.

Região de Bahia Negra, no Paraguai, se viu contaminada de fumaça das queimadas tanto deste país como a vinda da Bolívia (Foto cedida por Guyra Paraguay)

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