As revisões do IPCC

Da Folha

Estudo revê impacto de degelo na Ásia

Aquecimento global encolherá geleiras do Himalaia que abastecem rios, mas nem todas as áreas serão afetadas

Secas poderão liquidar agricultura irrigada que alimenta 60 milhões de pessoas; previsão de painel da ONU era pior

Luca Galuzzi/Creative Commons

Área próxima à nascente do rio Bramaputra, no Tibete

RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO

A previsão do painel do clima da ONU de que o encolhimento de geleiras no Himalaia afetará a vazão de rios e deixará mais de 1 bilhão de pessoas sem água e comida é exagerada, conclui um novo estudo: “apenas” 60 milhões de pessoas estão em risco.

A pesquisa, elaborada por cientistas holandeses, é a primeira revisão abrangente da literatura acadêmica formal sobre o assunto. O trabalho estima o impacto do aquecimento global na disponibilidade de água das grandes bacias hidrográficas da Ásia.

No final do ano passado, o assunto foi alvo de polêmica, quando o geólogo indiano Vijay Raina afirmou que o IPCC (o painel do clima da ONU) tinha errado ao informar que as geleiras do Himalaia poderiam desaparecer por completo até 2035.

O painel, afinal, reconheceu o erro. Os dados haviam sido compilados por uma ONG, que por sua vez usara informação de uma revista popular. O episódio é frequentemente citado pelos “céticos” do clima, grupo que nega a existência do aquecimento global e acusa o IPCC de forjar dados.

Com o estudo holandês, publicado hoje na revista “Science”, a discussão sai do plano ideológico. Submetido a revisão independente, o trabalho indica que a mudança climática terá impacto sério na Ásia, ainda que o IPCC tenha sido alarmista.

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Os 60 milhões de pessoas em risco estão quase todos nas bacias dos rios Indo e Bramaputra, onde a falta de água para fazendas pode espalhar a fome. Os rios Amarelo, Ganges e Yangtzé não sofrerão tanto, pois sua vazão não depende muito do derretimento sazonal de neve e de geleiras do Himalaia.

Os autores do trabalho reconhecem que o número de pessoas afetadas ainda é uma estimativa imprecisa, mas dizem que consequências ruins já são uma certeza.

“Um aumento simulado de 3C na temperatura e pequenas quedas na precipitação nas cabeceiras dos rios vão acabar resultando inevitavelmente em uma redução das geleiras”, disse à Folha Walter Immerzeel, do centro de pesquisas FutureWater.

ADAPTAÇÃO

Na opinião do cientista, indianos e paquistaneses precisam começar a pensar em estratégias para ajudar sua agricultura. “Nossos resultados podem servir para identificar onde esses esforços devem se concentrar”, diz.

Segundo Immerzeel, a vazão do Indo e do Bramaputra deve crescer num momento inicial e, quando as geleiras se esgotarem, entre 2045 e 2065, cairá drasticamente. Ambos se tornariam rios com fluxo zero nas estações secas.

Raina concorda, mas ainda destaca as incertezas. “Acho que os grandes rios terão declínio no fluxo de água, mas certamente não se tornarão rios efêmeros.”

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