A expedição do Greenpeace após o desastre de Mariana

Jornal GGN – O Greenpeace decidiu enviar uma equipe de pesquisadores aos distritos de Mariana (MG) atingidos pelo rompimentos das barragens da mineradora Samarco, no início do mês. No último dia 14, a expedição chegou a Bento Rodrigues, a primeira comunidade afetada.

O “cenário desolador” voltou ao noticiário nesta segunda (16), com a informação de que o distrito deixará, de fato, de existir. Os moradores, em assembleia, decidiram reconstruir suas vidas em outro local, e aguardam que a empresa responsável pelo incidente apresente o plano de recuperação, que deve prever novas moradias para as vítimas do desastre.

Bento Rodrigues está interditada pelo fechamento das estradas pela lama composta de rejeitos tóximos. Alguns moradores, segundo relatos do Greenpeace, se queixaram do fato da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros não criarem grupos de resgate para animais que acabaram ficando para trás na hora do desespero.

Ainda no dia 14, o Greenpeace visitou Paracatu de Baixo, segundo distrito destruído pelo desastre. Lá, um morador relatou que foi procurado pela Samarco, que se disse interessada em reconstruir a casa amarela onde vivia com a família há muito anos e que foi destruída pela avanço da lama. O idoso, porém, ficou sabendo dos riscos do rompimento de uma segunda barragem e não quer mais permanecer no local.

“De fato a barragem do Germano, que compõe o complexo de barragens da Samarco e é ainda maior que as do Fundão e de Santarém (as duas que arrebentaram no dia 5 de novembro), está com um trinca de 3 metros, segundo o Corpo de Bombeiros”, lembrou a equipe do Greenpeace.

No dia 15, a expedição seguiu pelas cidades de Paracatuzinho e Barra Longa, que ficam a mais de 100 quilômetros de Mariana. Lá, caminhões pipas enviados pela Samarco tentavam prestar ajuda com o abastecimento de água. A empresa também fazia doações. A equipe abordou um morador que se queixou da falta de acesso a municípios vizinhos porque estradas e pontes estavam destruídas. Assim, sua mulher estava há dias sem remédio para doença cardíaca. Foi quando funcionários da Samarco orientaram o morador a relatar as coisas boas que a empresa tem feito pelas vítimas do desastre.

O Greenpeace seguiu viagem seguindo o curso do Rio Doce, mais de 200 quilômetros a frente. Em Ilhéus de Prata e Governador Valadares – cidade com mais de 270 mil habitantes e que sofre com a falta de água. Naquela região – o curso do manancial está visivelmente afetado. A entidade informou que trabalha com pesquisadores para descobrir o impacto sobre a quinta maior bacia hidrográfica brasileira.

Abaixo, as primeiras páginas do “diário” do Greenpeace, na íntegra.

Do Greenpeace

Lama até o pescoço

Greenpeace chega as comunidades de Mariana, em Minas Gerais, para documentar a tragédia causada pelo rompimento das barragens da mineradora Samarco

14 de novembro – sábado

Terra arrasada não é suficiente para definir o cenário desolador que deu lugar aos distritos da cidade mineira de Mariana. Contrariando os avisos de que todos os acessos ao arraial de Bento Rodrigues, primeira comunidade a ser atingida pelo rompimento das barragens da Samarco, estariam fechados, encontramos uma estrada privada – de mineração – que nos deixou a menos de 100 metros do pequeno vilarejo.

No caminho, cenas aterradoras de enormes porções de terra totalmente lavadas pela força da lama composta de rejeitos minerais. Pesquisadores do Greenpeace levantaram que um corredor de aproximadamente 500 hectares de lama foi formado no arredores do arraial de Bento Rodrigues, o equivalente a 700 campos de futebol.

A estrada estava de fato bloqueada, mas não pelo Corpo de Bombeiros ou Defesa Civil, e sim pela própria lama que engolfou parte do caminho. Hora de seguir a pé. Andamos dois quilômetros em meio a um mar mole de barro até alcançarmos um morro que nos colocou frente a frente com a comunidade de Bento Rodrigues. Segundo os moradores, cerca de 80% do lugar foi devastado, restando apenas escombros e animais abandonados que vagam pela destruição em busca de qualquer alimento.

Antônio Geral de Paula [foto], conhecido como Bem Amado, morava há 40 anos no arraial com a esposa, cunhado, filhos e neto. “Não perdi ninguém, graças a Deus. Em 10 minutos a lama veio de lá a aqui. Perdi duas casas… estamos voltando para tentar pegar os bichos. As galinhas e os cachorros tão tudo lá, passando fome. Eu até entendo ter que fechar o local, mas eles podiam deixar a gente tirar as coisas de lá pelo menos. Ou fazer pelo menos um grupo de voluntários para voltar com os bombeiros”. O agricultor de 52 anos aponta para a caçamba da sua caminhonete, onde dois bezerros trêmulos de medo e ensopados de lama se equilibram no piso frisado e irregular. “Elas tavam atoladas no barro, de hoje não passariam. Por sorte a gente conseguiu salvar”. Perguntado como conseguiu escapar da enxurrada de lama, Bem Amado diz que foi o grito dos moradores que salvou ele e sua família.

Entre o morro e o arraial de Bento Rodrigues, um antigo córrego se transformou num rio intransponível de lama. Conseguimos fazer imagens de longe e um sobrevoo com o drone. Quanto mais perto chegávamos, mais a perna afundava no solo mole e mais alto gritavam os trovões da chuva que se aproximava.

Seguimos então para o distrito de Paracatu de Baixo, o segundo arraial mais atingido pela tragédia. De um lado, estrada bloqueada por uma barreira de terra. Do outro, uma ponte que foi consumida e desaparecera após a violenta lama chegar à comunidade. Novamente um cenário desolador, monotom, onde os verdes morros de Minas Gerais foram substituídos por irregulares montanhas de lama cinza.

Encontramos com Geraldo Nascimento, de 69 anos, olhando da beira da estrada uma casa amarela destruída. “Essa casa era minha. Morava aí faz mais de 40 anos com a minha mulher. Meus filhos já são tudo de Mariana, graças a Deus não precisaram passar por isso”, ele aponta para o buraco aberto na parede de seu quarto. “Eles ligaram aqui para casa né, falaram pra gente sair. Deu tempo de ir para a casa da minha filha, aqui perto. Agora a Samarco me disse que quer reconstruir a minha casa. Mas parece que tem outra barragem aí em risco né, então acho que aqui eu não fico mais não”.

De fato a barragem do Germano, que compõe o complexo de barragens da Samarco e é ainda maior que as do Fundão e de Santarém (as duas que arrebentaram no dia 5 de novembro), está com um trinca de 3 metros, segundo o Corpo de Bombeiros. Tentamos acesso, mas em vão. Na portaria, o guarda nos informou que nem mesmo a Samarco está autorizada a acessar a área.

De volta à Mariana, visitamos o ginásio municipal que recebia as doações vindas de todo o país. Pilhas e pilhas de fraldas, sapatos, produtos de higiene pessoal, cobertor, roupa, produtos de limpeza, brinquedos infantis e galões de água se acumulavam no local. Segundo a coordenadora dos voluntários, Adelma Borges, as doações vieram de todo o Brasil e não param de chegar. “Vamos interromper o recebimento de doação no domingo, às 16h. Já temos muita coisa. O estádio municipal também tá cheio de doação, mais que aqui. Agora a gente precisa organizar tudo”.

A solidariedade massiva, tanto de quem doou como dos inúmeros voluntários correndo para lá e para cá, é um pequeno consolo ao nosso dia repleto de tristeza causada pela tragédia. Agora seguiremos o curso do Rio Doce, que foi tomado pela lama, para documentar os impactos que os rejeitos minerais da Samarco – empresa controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton – deixaram em seu caminho.

15 de novembro – domingo

Pela manhã chegamos ao povoado de Paracatuzinho, em Minas Gerais, já a 100 quilômetros da cidade de Mariana. O Rio Rigualaxo, que corta essa comunidade e outras no caminho, deu lugar a um rio de lama cercado de montes e mais montes de barro seco. Olhando suas beiradas, árvores jazem deitadas como peças de dominó caídas ao longo de todo seu curso. Dá para notar a marca da lama em seus troncos, que alcança quase a copa das árvores.

Continuamos numa estradinha de terra, beirando a destruição, rumo a cidade de Barra Longa, ainda no estado mineiro, onde soubemos que muitas casas também foram destruídas e famílias desalojadas. No caminho, passando pelo povoado de Barreto, a estrada estava bloqueada por um caminhão pipa e carros de funcionários da Samarco, que estavam no local distribuindo doações.

Nos aproximamos e conversamos com Seu Francisco, nascido em Barreto, que acompanhava os funcionários da mineradora com muita curiosidade. Segundo ele, é impossível o acesso para as cidades vizinhas, uma vez que diversas pontes foram destruídas pela força da lama. “Nós estamos presos aqui. Minha mulher está precisando de remédio para o coração, mas nunca chega”.

Nesse momento, os funcionários da Samarco interromperam nosso papo e chamaram seu Francisco e outros dois amigos dele que estavam conosco para um ligeiro mídia training. Ouvíamos de longe: “Muitas pessoas vão vir aqui, fazer entrevista… As pessoas sempre vão querer falar o lado ruim das coisas. Mas vocês também têm que falar do lado bom, que não é tudo ruim, que também estamos fazendo o bem”.

Com o caminhão pipa enchendo as caixas d’água de Barreto, tivemos que dar meia volta e tentar outro caminho. Depois de patinar o carro em muita lama, chegamos a uma ponte totalmente destruída. O único jeito era voltar até a estrada de Mariana para seguir direto a cidade de Ipatinga.

No caminho, ao cruzar o pequeno município mineiro de Ilhéus de Prata, a cerca de 120 quilômetro de onde estávamos, documentamos pela primeira vez o Rio Doce, que ironicamente amarga uma lenta morte. O Greenpeace está trabalhando ao lado de parceiros para identificar o grau de contaminação dessa água, que contém rejeitos minerais como alumínio, ferro e magnésio.

Chegamos a Ipatinga com um restinho de luz do dia, o suficiente para registrarmos um Rio Doce bem mais alargado, ainda tomado de lama. O impacto visual é forte. O impacto ambiental, imensurável.

Alcançamos Governador Valadares às 21h de um domingo aparentemente tranquilo na cidade. Mas sabemos que não é nada disso: falta água na cidade mineira com mais de 270 mil habitantes, que se encontra em estado de calamidade pública. Agora nosso trabalho será por aqui, e depois continuamos até o litoral do Espírito Santo para ver a chegada da lama ao Oceano Atlântico.

Clique aqui para ver mais fotos da expedição.

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