Samarco é alvo do MP por outros dois acidentes ambientais em Minas Gerais

Em 2010, o rompimento de um mineroduto da Samarco poluiu rios e suspendeu o abastecimento de Espera Feliz. Caso foi relacionado por ambientalista a interesses da Vale em construir uma siderúrgica na região

Jornal GGN – Em 5 de novembro de 2015, quando barragens da mineradora Samarco romperam gerando um “tsunami de lama” que avançou sobre distritos do município de Mariana (Minas Gerais) e região, o saldo inicial foi de uma dezena de mortos, feridos e desaparecidos, e o comprometimento do solo e de mananciais importantes, como o Rio Doce, quinta maior bacia hidrográfica do País. 

Esse foi o maior desastre socioambiental patrocinado pela Samarco, segundo o noticiário recente, mas está longe de ser o primeiro envolvendo a mineradora controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP.

Multada pelo governo federal e alvo de inquéritos no Estado e do Ministério Público Federal pela tragédia em Mariana, a Samarco já, na verdade, velha conhecida da promotoria mineira.

A empresa é investigada no Ministério Público de Minas Gerais em menos dois outros inquéritos civis públicos. Um de 2009 (MPMG-0003.08.000004-9), referente à “poluição ambiental causada pelo escoamento de minério de ferro em curso d´água” em Abre Campo, que ocorreu em 2008; e outro de 2010 (MPMG-0242.10.000115-3), que investiga o rompimento de um mineroduto no distrito de São Sebastião da Barra, que acabou poluindo terras e as águas do Rio São João, que abastecia o município de Espera Feliz.

O caso de 2010 foi relacionado por um ambientalista aos interesses da Vale em construir uma siderúrgica na região afetada pelo rompimento do mineroduto. 

Leia também:  Devastação e pandemia: Fabiana Prado no Cai na Roda deste sábado

O caso Espera Feliz

Em 26 de julho de 2010, o mineroduto que transportava minério de ferro do pátio da Samarco, em Germano (MG), até Ubu, em Anchieta, na divisa com o Espírito Santo, rompeu e poluiu o rio São Sebastião, São João e Caparaó.

Pelo noticiário da época, o acidente ocorreu de madrugada e a equipe da Samarco levou duas horas para interromper o vazamento. O resultado foi a suspensão do abastecimento de água em Espera Feliz, embora a empresa tenha difundido que o material jogado na natureza era apenas “escuro”, mas não prejudicial à saúde. Mortandade de peixe foi registrada.

Da mesma maneira que ocorreu agora em Mariana, a Samarco providenciou ajuda emergencial, como caminhões-pipa para suprir a demanda por água da cidade. Um dia depois, a mancha de minério de ferro que vazou podia ser vista a 18 quilômetros de distância do local do acidente. A Copasa, companhia mineira de saneamento, teve de fazer análises nas águas das regiões de divisa com o Espírito Santo e Rio de Janeiro. 

O jornal Hoje em Dia noticiou que o Ibama, da mesma forma que fez no caso Mariana, levantaria dados sobre os impactos ambientais do vazamento e estipularia uma multa para a Samarco. No dia 28, o Ministério Público de Minas Gerais instaurou o inquérito, que continua em aberto, para apurar a responsabilidade da Samarco.

À repórter Flavia Bernardes, do Século Diário, o jornalista e ambientalista Jurandir Lazarotti inseriu o acidente da Samarco em um contexto mais amplo de interesses comerciais colocados acima da preservação do meio ambiente e da responsabilidade social.

Leia também:  Devastação e pandemia: Fabiana Prado no Cai na Roda deste sábado

Lazarotti lançou dúvidas sobre o fato da Samarco só ter interrompido o vazamento duas horas após o seu início. Segundo ele, terras comprometidas pelo minério acabaram imprestáveis e foram parar nas mãos de chineses. “Das 36 fazendas cortadas pelo mineroduto, 14 foram vendidas após este episódio”, escreveu Bernardes.

“A suspeita do jornalista é que eles [os vazamentos] estão contribuindo para a venda das terras na região. As terras vendidas após o vazamento, segundo ele, foram para chineses, e boa parte delas faz parte da área pretendida para a construção da Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU)”, acrescentou.

As intenções da Vale

A CSU era um projeto da Vale – mesma controladora da Samarco – com a chinesa Baosteel Corp, a ser instalada em Anchieta (ES), ao sul de Minas. Em fevereiro de 2010, a Vale já havia investido cerca de R$ 50 milhões em estudos para obter a licença ambiental que já havia sido negada por autoridades antes, por projetar uma siderúrgica de porte acima do suportado pela região, prejudicando o abastecimento de água da população, além de comprometer a qualidade do ar. Outra questão que travava a obra era a existência de povoados bem onde a Vale pretendia erguer o empreendimento bilionário.

Em março deste ano, a CSU (Vale) anunciou uma nova investida para obter licença ambiental. O fato foi parar nas páginas de Economia de vários portais. Já sobre os impactos ambientais do rompimento do mineroduto que atingiu Espera Feliz, pouco foi dito até hoje.

Leia também:  Devastação e pandemia: Fabiana Prado no Cai na Roda deste sábado

Construção em área tombada

Além de inquéritos, outro fato que não é novidade entre a Samarco e o Ministério Público de Minas Gerais é a assinatura de TACs (Termos de Ajustamento de Conduta) para reparar danos ou contornar irregularidades praticadas pela empresa de mineração. 

No último dia 16, após a tragédia em Mariana, o MPMG e procuradores da República anunciaram um acordo preliminar que obriga a Samarco a reservar R$ 1 bilhão para investimentos nos distritos destruídos pelo recente rompimento de barragens.

Dois anos atrás, o MPMG também firmou acordo de R$ 1 milhão com a Samarco. Àquela época, a medida visava ajudou a empresa a regularizar a construção de uma obra para extrair água do rio Santa Barbára, que corta uma área considerada patrimônio histórico.

Com a palavra, o MP

Procurado pelo GGN para abordar o andamento dos dois inquéritos ainda em aberto contra  a Samarco, o Ministério Público de Minas Gerais informou não ter previsão para prestar esclarecimentos. Isso porque, segundo a assessoria de imprensa do órgão, o desastre em Mariana gerou uma “fila de demandas” de jornalistas sobre o mesmo assunto e, dessa maneira, “será necessário aguardar”. O MP também não forneceu detalhes sobre o inquérito civil que envolve prejuízio ambiental ao município de Abre Campo.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

10 comentários

  1. “A CSU era um projeto da Vale

    “A CSU era um projeto da Vale – mesma controladora da Samarco – com a chinesa Baosteel Corp, a ser instalada em Anchieta, no sul de Minas. E”

     

    Anchieta é no ES e não em MG.

     

    “até Ubu, em Anchieta, na divisa com o Espírito Santo”

     

    Anchieta fica no litoral e não na divisa com MG. O rompimento é que parece ter sido próximo a divisa.

     

     

  2. $inistra ‘disneylandia’

    Faça um TAC. É baratin, rápidin. Demora menos que qualquer ecologista de plantão no IBAMA. Os colonizados irão agradecer e premia-lo. E depois de alguns goles da ‘champanhe do Charlie Ebdo’ voce poderá ír para casa as gargalhadas e bolsos cheios. 

  3. É o valoroso MP em defesa do

    É o valoroso MP em defesa do interesse público. O TAC de um bilhão é a conta certa para pagar o retroativo do auxílio-moradia dos promotores mineiros, que pretendem receber retroativos referentes a períodos anteriores há cinco anos e livres de IRPF.

  4. comentários, expressão do desinteresse

    Pela quantidade de comentários me parece que o assunto está fadado a morrer nalguma praia do Espirito Santo tal qual a lama. A mídia parece determinada a liquefazer a tragédia mas, talvez, e só talvez, ajudasse se juntos cantassemos a marselhesa !

  5. Lazarotti

    O jornalista e ambientalista citado, Jurandir Lazarotti foi o autor também da denúncia do surgimento de crianças anencéfalas na Lagoa de Mae Bá, Meaípe, na usinade Ubu da multi, na mesma época em que denunciou o “acidente” no mineroduto, provocado pela incúria da Samarco. Por causa disso, insuflado pelos patrões, os metalúrgicos de Anchieta e Guarapari o ameaçaram de morte, na alegação de que “poderiam perder o emprego”. Teve que sair da cidade, e hj, segundo informes, mora na Bahia, em graves dificuldades. É a maneira da solução da empresa assassina que coopta políticos, justiça e imprensa para continuar sua saga destruidora.

  6. A quem interessou, interessa e vai continuar interessando, ignorar a absurda diferença de comportamento (inclusive o legal / penal) no trato do Desastre de Mariana e o de Brumadinho? É muito triste acreditar que os órgãos públicos responsáveis pela análise das duas significativas agressões ambientais tenham adotado práticas tão diversas. E o pior é que, pouco a pouco, se induz o processo de esquecimento do caso Mariana e vai se reduzindo os efeitos das ações em Brumadinho.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome