Pesquisadores alertam para risco da emergência de novas doenças

No cenário brasileiro, o aumento da vulnerabilidade social e da degradação ambiental elevam o risco de infecções zoonóticas.

da Agência Fiocruz de Notícias

Pesquisadores alertam para risco da emergência de novas doenças

Por: Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)*

Uma carta publicada na revista científica The Lancet, um dos periódicos de maior prestígio da área biomédica, alerta para o risco da emergência de novas doenças no Brasil, especialmente aquelas de caráter silvestre. Dez pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Centro para Sobrevivência de Espécies do Brasil (Center for Species Survival Brazil/IUCN-SSC) são autores da publicação. O documento conta ainda com o apoio de 15 especialistas de instituições nacionais e internacionais, entre elas, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O texto aponta retrocessos nas políticas sociais e ambientais do país, que podem favorecer a ocorrência de infecções causadas por patógenos de origem animal, chamadas de zoonoses. Os especialistas defendem a criação de um sistema integrado de vigilância de doenças silvestres.

Cientistas de diferentes unidades e programas de pesquisa da Fiocruz subscrevem a carta, incluindo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), Fiocruz-Ceará, Vice-Presidência de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS/Fiocruz), Projeto FioAntar e Programa Institucional de Biodiversidade e Saúde Silvestre (PIBSS/ Fiocruz). No IOC, pesquisadores de quatro laboratórios são autores do documento. São eles: Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatório, Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental, Laboratório de Desenvolvimento Tecnológico em Virologia e Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo.

Relação entre biodiversidade e saúde

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De acordo com os especialistas, a perda da biodiversidade, a expansão das atividades humanas em áreas de matas e florestas e o consumo de animais silvestres como recurso alimentar ou em práticas exotéricas são alguns dos principais facilitadores de surtos recentes de doenças infecciosas, tais como ebola, Nipah e arboviroses (patógenos transmitidos por insetos). No cenário brasileiro, o aumento da vulnerabilidade social e da degradação ambiental elevam o risco de infecções zoonóticas. Assim, a emergência e a re-emergência de agravos, incluindo a febre oropouche, hantaviroses, doença de Chagas e febre amarela, são consideradas sinais de alerta.

Para os pesquisadores, a progressiva flexibilização das leis de proteção, o desmantelamento das instituições ambientais, o desrespeito às evidências científicas e os ataques às organizações de conservação do meio ambiente são fatores que contribuem para o aumento do desmatamento, uso indevido de pesticidas e comércio ilegal de animais selvagens. “Todas essas ações representam um grande retrocesso nas políticas socioambientais, o que abre novas portas para o surgimento de zoonoses e impacta negativamente tanto a biodiversidade como a saúde pública, colocando milhões de pessoas em risco”, afirmam os autores.

O fortalecimento do sistema público de saúde brasileiro, incluindo o paradigma da saúde única, que contempla a saúde humana, animal e ambiental, é apontado como o caminho para enfrentar o problema. Neste sentido, os especialistas defendem a criação de um sistema integrado de vigilância e monitoramento de doenças silvestres, com forte colaboração intersetorial. Além disso, enfatizam necessidade de cooperação multilateral e transfronteiriça.

Considerando a pandemia de Covid-19, os pesquisadores afirmam que a doença ‘representa um argumento irrefutável da necessidade de integrar a conservação da biodiversidade, a inclusão social e a resiliência econômica, por meio de cadeias sócio-produtivas inovadoras e sustentáveis’. “A ciência e a justiça social precisam ser aplicadas como instrumentos para a transformação da formulação de políticas ambientais e de saúde”, concluem os cientistas. Confira a íntegra da carta.

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* Edição: Vinicius Ferreira e Raquel Aguiar

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1 comentário

  1. Sem contar os vírus que migram dos quartéis, das igrejas e das milícias, para cargos públicos…
    estes sim, estão causando danos terríveis à saúde pública

    Para que se preocupar com os transmissores de doenças das florestas, se todos os sistemas de esgoto de todos os grandes centros urbanos do Brasil estão infestados de ratos e na proporção de 30 para cada cidadão?

    salvo engano, um rato carrega quase 100 tipos diferentes de doença, enquanto os animais das florestas carregam no máximo 20, e assim mesmo por contato com seres humanos predadores e que não respeitam o habitat de qualquer espécie.

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