‘Política climática oscila entre cinismo de Trump e radicalismo de Greta’, por Martin Wolf

"Para ter sucesso no combate à emergência, precisamos de políticas drásticas e eficazes, legítimas e globais", pondera articulista

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Jornal GGN – Apesar de décadas de discussões sobre o assunto e de propostas como a do acordo climático de Paris, as emissões de gases do efeito estufa e as temperaturas globais continuam subindo, contribuindo para o aumento de desastres ambientais em patamares acima da média histórica.

O que é preciso para que os Estados e as populações coloquem em prática, por exemplo, a substituição de combustíveis fósseis e uso de matrizes e tecnologias limpas? Em artigo publicado no Financial Times, o jornalista britânico Martin Wolf analisa que é preciso estabelecer mecanismos de compensação por preços mais altos de combustível de origem fóssil e oferecer uma visão convincente de um futuro melhor à população, para mostrar que o esforço vale a pena.

Nesse sentido, ele destaca que duas visões extremistas dominaram o debate sobre as mudanças climáticas. A primeira é a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que age como se o problema não existisse. Recentemente, o norte-americano tirou seu país, o segundo maior emissor mundial de gases do efeito estufa, do acordo climático de Paris.

A segunda visão é a da jovem Greta Thunberg, que acabou se tornando um ícone na luta sobre o tema. Para Wolf, a exigência da ativista de um corte de mais de 50% das emissões líquidas globais de gases de efeito estufa até 2030 é “inconcebível”.

Apesar dessa análise, ele entende que a “exasperação dos ativistas climáticos radicais é compreensível”, dado o fato de, em décadas de debates, não ter ocorrido avanço nenhum no sentido de reduzir o nível de poluição.

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“Se a tendência não mudar logo, as chances de se evitar um aumento na temperatura média global de mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais serão zero, e as de se evitar um aumento de 2°C serão mínimas”, pontua o articulista.

“Como observa o FMI em seu último Monitor Fiscal, atingir o segundo objetivo exige reduzir as emissões de gases do efeito estufa em um terço abaixo da linha de base, até 2030. Para ficarmos em um aumento inferior a 1,5°C, as emissões precisam ficar na metade da linha básica”, explica Wolf.

“Quanto maior o atraso na ação, maior se torna a ação necessária, até que nada possa ser feito, pois será tarde demais. Já é quase tarde demais para evitar o que os especialistas veem como alterações climáticas destrutivas e irreversíveis”, prossegue.

Apesar de concordar a necessidade de políticas drásticas, Wolf, entretanto, destaca que a Comissão de Transições de Energia avalia que é viável a implantação delas nas próximas três décadas, de forma escalonada e crescente.

O analista destaca ainda que, “infelizmente, a oposição direta de pessoas como Trump e a indiferença de grande parte da população não são os únicos obstáculos ao êxito” na implantação de políticas contra as mudanças climáticas. Para ele, um grupo que também atrapalha no debate são os que defendem “uma campanha mais ampla contra o mercado”.

“Assim, muitos apoiadores do New Deal Verde veem o clima como uma justificativa para a economia planejada. Como argumenta o jornalista britânico Paul Mason: ‘O trabalhismo quer combater a mudança climática por meio de três mecanismos: gastos estatais, empréstimos estatais e a direção estatal das finanças privadas'”, prossegue Wolf, que é defensor do capitalismo de mercado.

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“Essa abordagem [contra o mercado] permite que os adversários argumentem que a esquerda está mais preocupada em destruir as economias de mercado do que em salvar o planeta. A bagunça criada ao se tentar planejar uma economia com zero emissões líquidas em uma década pode levar a descrédito todas as tentativas de mitigação”, avalia.

Wolf destaca que “a mudança climática não será resolvida por um país” e que, para que a proposta tenha sucesso” é preciso uma política “eficaz, legítima e global”.

“Para ser eficaz, a política deve combinar planejamento, regulamentação, pesquisa e incentivos. Há uma forte justificativa para as ações do governo em pesquisa, planejamento espacial e finanças”.

O articulista aponta ainda que é necessário incentivos para a mudança de comportamento. “Comando e controle raramente são muito eficazes por si sós”, frisa.

“A compensação por preços mais altos de combustível precisa ser visível. Igualmente importante, deve-se oferecer uma visão convincente de um futuro melhor. Caso contrário, as mudanças necessárias na política nunca serão aceitas”, destaca.

Por fim, ele defende uma política climática global, com todas as grandes economias envolvidas. “[É claro[ que isso cria enormes problemas de equidade. Claramente, nunca chegaremos a uma solução perfeita. Mas alguma solução terá que ser encontrada na ajuda generosa dos países de alta renda aos países emergentes e em desenvolvimento, especialmente com a introdução de novas tecnologias”, sugere.

“Isso também levanta uma questão importante: o que deve ser feito com os que pegam carona e, acima de tudo, com o maior de todos, os inconfiáveis EUA? A resposta em princípio é clara: terão que ser penalizados com força. Se aceitarmos, como deveríamos, a urgência do desafio, isso ocorrerá naturalmente”, conclui.

*Clique aqui para ler o artigo de Martin Wolf na íntegra.

3 comentários

  1. Estranho que sendo o Sr Tom Wolf porta voz do “mercado”, palavra da novilingua que significa aqueles que realmente mandam, nao tenha adquirido ainda, como seus pares, seu luxuoso bunker para assistir o parto do admirável mundo novo que está a nascer de suas entranhas.

  2. Parece brincadeira, ou piada…
    A “análise” do autor pendula entre o lugar comum da malhação do gerente do império decadente que faz emissões pesadas (mas jamais comprovadas científicamente como causadoras do aumento de temperatura) e que não cessarão (perda de tempo) e declarações infantis e piegas de uma criança anormal (no sentido de sociopata mesmo) teleguiada por milionários que se esborram de rir do rebanho que se distrai com discussões sobre temas que não entendem nem uma vírgula.
    Bola fora do GGN…

  3. A liberdade de Donald Trump para agir é apenas aparente. Sob pressão intensa dos democratas e correndo o risco de sofrer Impeachment, o presidente dos EUA não pode abandonar os compromissos que assumiu com os políticos e empresários que desejam menos regulamentação para continuar poluindo o meio ambiente. Se aderisse ao Green Deal nesse momento (algo que contraria os instintos empresariais, a história pessoal e os compromissos políticos de Trump), o presidente dos EUA não ganharia uma base de apoio sólida e perderia sua única base política e econômica de sustentação.

    Greta Thumberg é apenas uma menina. Ela tem bons sentimentos em relação à natureza, mas não sabe como a inércia das relações consolidadas afeta de maneira profunda e duradoura a sociedade, a economia e a política. O voluntarismo e a ingenuidade dela são imensos. É um erro depositar esperanças demais nessa Joana D’Arc ecológica. Apenas o aprofundamento da crise vai produzir as condições necessárias para uma reviravolta e ela não deixará de ser dolorosa.

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