Roberto Freire não tem olhos para a incúria da dinastia tucana em São Paulo

Da editoria-geral do Terra Brasilis

Instalado, certamente, na sua luxuosa residência no bairro nobre de Alto Pinheiros [SP], Serra “twittava”. Lá pelas tantas, resolveu sugerir – para o final de semana [espera-se que não chova forte em São Paulo, para o bem dos que sofrem com o desgoverno tucano] – a leitura do que ele considera três grandes artigos. A trilogia é assinada por Roberto Freire [o ex-comunista que, a título de reciclagem intelectual, bandeou-se para o lado da “elite cheirosa”]; Fernando Gabeira [o ex-guerrilheiro e intelectual que vê, em seu umbigo, sua própria imagem. Faz-me lembrar o sr. Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, não o  compositor e cantor [1]]; e, finalmente, por Guilherme Fiuza [a quem – por sua cantilena desprezível contra o governo Lula e, agora, contra o governo Dilma – cognominamos de “Guilherme Fiuza: meu nome é leviano” [2]].

O que se pode extrair, de pelo menos duas, dessas indicações de leitura? Que Serra quer fazer soar sua voz  e mantê-la acesa, de olho em 2014 [seriam prepostos os autores de tais artigos?]. Sentindo que alguns figurões do que se chama PIG já o escorraçam, desesperado ante a possibilidade de ver seu nome rifado da futura disputa no próprio ninho tucano [Geraldo Alckmin seria o novo “ungido”?], o  candidato derrotado recentemente nas urnas elege determinadas análises e as dissemina com dois tácitos objetivos:

  1. desqualificar os oito anos do governo Lula [embora alardeasse, em campanha, que daria continuidade às ações do governo petista]; e
  2. desconstruir Dilma Rousseff [ele já dera mostras disso em pleno embate eleitoral de 2010, com a hipócrita lengalenga do aborto, por exemplo. Descobriu-se depois que a “inimiga”, aquela que “comia criancinhas” dormia a seu lado. Com a palavra a sra. Mônica Serra…]. Dilma que, segundo o presidente do PSDB, seria “um poste” facilmente lançado ao chão. Mas a história tripudiou das palavras infelizes do ex-senador e “fujão”  Sérgio Guerra [decidiu concorrer a uma vaga na Câmara Federal por Pernambuco, ao invés de se lançar à reeleição para o Senado. Tivesse se arvorado a isso, teria sido vergonhosamente derrotado].

Como se poderá ler, a temática desses “grandes artigos” – sugeridos pelo Serra – gira em torno da chuva, de Lula e de Dilma Rousseff.

Se nos detivermos, em especial, no tema chuva, in A tragédia anunciada – de Roberto Freire [leia na íntegra, abaixo], perceberemos um quê de engodo, de desonestidade intelectual por parte do articulista pernambucano que foi se abrigar, em São Paulo, debaixo de um guarda-chuva com mais de 120 mil votos a fim de  se eleger deputado federal [Aqui em Pernambuco não se elegeria, usando mais um clichê, nem para síndico de prédio].

Mas onde estariam o engodo e a desonestidade intelectual desse ex-comunista, de “mente arejada” com ideias novas?

A leitura do parágrafo inicial do tal artigo nos conduz a uma intervenção analítica séria, sem o furor dos palanques e das cores partidárias, apontando para a preocupação de um homem público com os problemas do povo e a subentendida solidariedade com aqueles que perdem “vidas, famílias e sonhos” por causa das “chuvas fortes, [dos] deslizamentos e inundações”. Nada mais prazeroso de se ouvir. Sobretudo, se essas palavras vêm de um homem público que se mostra comprometido com as agruras do povo que ele diz representar.

Contudo, basta avançar na leitura para se descobrir a farsa discursiva ou o exercício masturbatório com belas palavras no exclusivo intuito de “levar no bico” [outro clichê] o leitor desavisado. A farsa se confirma nas linhas seguintes do artigo, pois elas focam o problema das chuvas, dos deslizamentos e das inundações, a partir de um manifesto recorte geográfico: a região serrana do Rio de Janeiro. Enquanto, no texto, a palavra “Rio” [de Janeiro] aparece três vezes – como a permear o eixo temático a que se apega Roberto Freire -, a palavra “São Paulo”  parece não existir.

São Paulo? Nem pensar! Esse estado da federação não entra na análise “isenta” do articulista. É como se, no estado mais rico do país, não tivessem ocorrido chuvas, deslizamentos e  inundações.

A “incúria [desleixo, negligência] dos diversos níveis de poder público”, segundo Freire, parece atingir, apenas e tão somente, os governantes do Rio de Janeiro e o governo federal [diga-se Lula e, agora, Dilma Rousseff].

Os governantes do PSDB e côngeneres [DEM/PPS] em São Paulo [estado que o agora deputado federal Roberto Freire representa] passam ao largo da possibilidade de serem “punidos criminalmente por sua incúria”. A dinastia tucana se blinda, no arranjo discursivo do presidente do PPS, da falta de zelo com a coisa pública que acomete os governantes de outros estados. Talvez, essa blindagem tenha sua razão de ser. Afinal de contas, receber R$ 12 mil como um fantasma da Empresa Municipal de Urbanismo [EMURB] e da SP-Turismo [3] é motivo de sobra para ser grato a quem promoveu tal “boquinha” [clichê, de novo…]. É preciso dizer quem?

Felizmente existe a Blogosfera independente e combativa para desmistificar discursos como o do deputado federal Roberto Freire. Felizmente existe a Blogosfera que acredita não ser São Pedro o causador do caos em São Paulo, quando as chuvas vêm.

Ademais, aguarda-se que o deputado federal Roberto Freire – ao propor que a nova legislatura convoque uma CPI a fim de investigar as tragédias ocasionadas pelas chuvas, inundações  e pelos deslizamentos – não se esqueça de que São Paulo  é parte da federação, com um governo eleito democraticamente há muito tempo. Que os governantes de Sampa sejam chamados a dar explicações por sua incúria.

Ao Serra, meus agradecimentos pelas indicações de leitura [4]. Leituras proveitosas. Sobretudo, quando, por meio de uma abordagem vertical, enxergamos a desfaçatez de certos homens públicos. Homens públicos que, por malabarismos argumentativos, tentam impingir na testa do povo a condição de inepto e, assim, trazê-lo sob o jugo do cabresto.

Retratos na parede para o caso de Roberto Freire não se lembrar de que a incúria pode estar em São Paulo, também:

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A tragédia anunciada

Por Roberto Freire*

Há alguns anos várias catástrofes naturais vêm atingindo brasileiros das mais variadas regiões, ocasionando perdas de vidas, de famílias e de sonhos, tendo como motivo comum chuvas fortes, inundações e deslizamentos. Como um padrão sinistramente repetitivo.

Sabemos agora que os necessários investimentos que poderiam minimizar tais tragédias simplesmente não foram feitos.

Segundo o site Contas Abertas, o governo federal deixou de investir, entre 2004 e 2010, mais de R$ 1,8 bilhão em obras de prevenção de danos provocado pelo clima. Esse é o valor do orçamento autorizado para o programa de “prevenção e preparação para desastres” e o que foi, de fato, realizado.

A tragédia que acontece na região serrana do Rio é fruto da incúria dos diversos níveis de poder público, agravada pela incompetência do governo federal em definir um efetivo programa de prevenção que livre as pessoas de nossas cidades das áreas de risco em que vivem, com estrutura de serviços de engenharia e realocação de populações das áreas de preservação de mananciais e encostas.

A violência da catástrofe do Rio resulta do descaso com que o Estado trata a ocupação do solo. Situação agravada nesses últimos oito anos por um governo de faz-de-conta, cuja única preocupação foi ocupar diariamente os palanques reais e virtuais para fazer graça de sua própria incompetência.

Resultado, os gastos no socorro às vítimas dos desastres são quase oito vezes maiores do que aqueles aplicados na prevenção a desastres naturais. Segundo o Contas Abertas, a verba desembolsada na rubrica “resposta aos desastres e reconstrução”, entre 2004 e 2010, chegou a R$ 4,8 bilhões.

Ou seja, de cada R$ 10 gastos com as chuvas, R$ 9 foram para remediar os danos e só R$ 1 para prevenir. Não por acaso o governo brasileiro, em documento assinado pela secretária Nacional de Defesa Civil, admitiu à Organização das Nações Unidas (ONU), em novembro do ano passado, que grande parte do sistema de defesa civil vive um “despreparo” e que não tem condições sequer de verificar a eficiência de muitos dos serviços existentes.

Como fica patente, na descoordenação que estamos assistindo dos vários agentes envolvidos no socorro às vítimas do Rio.

Uma questão deve ser colocada desde já: de quem é a culpa pelas mortes e pelos prejuízos? Defendo que o Ministério Público, que tem o dever constitucional de proteger a cidadania, investigue e acione a Justiça para punir os culpados e ressarcir os danos sofridos.

Afora isso, está na hora de o Parlamento começar a nova legislatura convocando uma CPI para investigar a fundo por que tais tragédias, que em países de democracia avançada e governos competentes, tais danos são mínimos, e em nosso país, o número de mortos e valor dos prejuízos causados não param de crescer.

Quando governantes e administradores forem punidos criminalmente por sua incúria e o Estado for obrigado a ressarcir os prejuízos, estaremos dando um passo importante no resgate da cidadania, e não mais viveremos uma tediosa crônica do esquecimento a que são relegadas essas tragédias.

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*Roberto Freire é presidente do PPS [Fonte: Brasil Econômico]

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[1] Sobre o sr. Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, clique aqui.
[2] Sobre o sr. Guilherme Fiuza, clique aqui e aqui.
[3] Sobre este fato, leia aqui.
[4] Para ler as outras duas indicações de leitura do Serra, clique aqui e aqui.

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