‘Sistema Planet’ de satélites que governo quer contratar ‘não existe’, alerta ex-diretor do Inpe

Ibama estuda fechar negócio com empresa norte-americana que é 'vaporware gerado por empáfia interplanetária', alerta cientista Gilberto Camara

Cientista Gilberto Camara. Imagem: IEA/USP

Jornal GGN – “Apelo a todos os jornalistas que cobrem o meio ambiente. Por favor, parem de errar. Não existe um ‘sistema Planet’, apenas imagens soltas que uns e outros querem comprar para maquiar sua pseudo-modernidade”, alerta Gilberto Camara, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e atualmente membro do Group on Earth Observations (GEO), ou Grupo de Observação da Terra.

Em junho, o jornal Folha de S.Paulo revelou que executivos da empresa americana “Planet”, representada no Brasil pela “Santiago & Cintra Consultoria”, se encontraram com o ministro Ricardo Sales ao menos duas vezes neste ano.

Finalmente, no mês passado, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) divulgou um edital de chamamento público para prospectar eventuais fornecedores de serviços de monitoramento de solo via satélite, estabelecendo regras de dados que somente a “Planet” seria capaz de atender: alertas diários e com cobertura mínima de 3 metros por áreas.

Por meio da sua conta no Twitter, Gilberto Camara explicou que essas especificações não colaboram, necessariamente, para salvaguardar as reservas ambientais no país.

“Um sistema monitoramento ambiental com imagens requer, para começar, uma descrição do que se quer medir e como serão feitas as observações. Quantas classes serão informadas? Floresta nativa? Degradação leve? Degradação por incêndios rasos? Quais os tipos de queimadas?”, pontua.

Leia também:  Dallagnol estaria "sensibilizado" com a proposta para deixar a Lava Jato

“Depois de definido o objetivo, é preciso criar o protocolo de interpretação, que relaciona o que se vê na imagem com o que se quer medir. Isso aqui é corte raso ou só uma queimada descontrolada? Esse protocolo tem de ser validado com muitas idas ao campo”, prosseguiu.

“Depois de muito trabalho de comparar as interpretações de imagens com a realidade, então podemos medir a validade estatística dos resultados. Qual a proporção de erros, acertos e omissões? É preciso saber se o sistema é confiável”, explicou ainda.

Segundo reportagens do G1 e do O Globo, o “sistema Planet” já foi testado gratuitamente no Pará no período de um ano, entre 2017 e 2018. Mas o contrato não foi renovado porque o estado concluiu que o serviço oferecido pelo Inpe, gratuito, já atendia as demandas para o monitoramento de florestas e de modo mais eficiente.

Os jornais apuraram ainda que o custo do plano mais básico do serviço de monitoramento da empresa norte-americana é de 1 a 2 dólares por quilômetro quadrado. No edital do Ibama, a exigência é de cobertura 1 milhão de quilômetros quadrados, com um custo anual estimado para a contratação do novo sistema de monitoramento de um R$ 7 milhões.

A proposta de contratação de um novo sistema de satélite suscitou também críticas de especialistas em sensoriamento remoto do Brasil, reunidos pela Academia Brasileira de Ciências do Rio de Janeiro e entrevistados pelo jornal O Globo.

Eles apontam, primeiro, que o país não precisa de um novo sistema de monitoramento na Amazônia, uma vez que o Inpe já realiza esse serviço de graça e com eficiência.

Leia também:  TJ absolve ex-presidente do Metrô condenado na primeira instância por improbidade nas obras da linha Lilás

Sobre a oferta do Planet de obter dados diários com resolução espacial de até três metros quadrados, eles rebateram que isso é pouco, considerando o alto nível de desmatamento na Amazônia e, ainda, que os dados da empresa americana levam muito tempo para serem interpretados, apesar de a captação ser diária.

“Para se ter uma ideia da demora em analisar o gigantesco volume de dados gerados pelo Planet, para que imagens de alta resolução espacial de uma área de 18 mil hectares seja analisada, é necessário um mês de cálculos de interpretação. Inútil na prática do dia a dia da fiscalização”, disseram os cientistas ao jornal.

Eles acrescentando ainda que os dados da companhia estrangeira não são abertos à sociedade, diferente das informações do Inpe, algo que ameaça à soberania nacional e aumentaria a dependência à uma empresa privada e não brasileira.

Segundo observações feitas ao G1 por Marcos Reis Rosa, coordenador técnico do projeto Mapbiomas, que usa dados pela Planet, a companhia americana utiliza mais de 120 microssatélites espalhados na órbita da Terra, do tamanho de uma caixa de sapato. Gilberto Camara questiona essa estrutura, reafirmando que a Planet, de fato, não existe.

“O tal ‘sistema Planet’ não existe. No jargão do vale do Silício, é ‘vapourware’. O que há de concreto é a intenção de comprar imagens sem saber como e porquê usá-las. Fazer um sistema é trabalho que exige seriedade, algo em falta hoje”, pondera.

Leia também:  Fluxos de Renda Real e Valores Atribuídos a Capital Fictício, por Fernando Nogueira da Costa

Vaporware é como são chamados softwares ou hardware anunciados por um desenvolvedor muito antes do seu lançamento, mas que nunca chegam a entrar em produção.

MPF abre inquérito para investigar edital

Após o lançamento do edital do Ibama, o Ministério Público Federal do Pará abriu um inquérito para apurar as razões do órgão para contratar os serviços.

Em ofício para responder a questionamentos iniciais do MPF, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim disse que “embora o Deter [sistema do Inpe] tenha se constituído no passado em uma exímia ferramenta de gestão da fiscalização ambiental, […] atualmente os agentes dos ilícitos ambientais já se adaptaram à tecnologia”.

O documento do Ibama ainda faz elogios ao sistema oferecido pela Planet: “São inegáveis a maior velocidade de detecção dos polígonos e a maior precisão das imagens obtidas”, pontuou.

O Inpe também enviou ao MPF um ofício dizendo que não foi consultado ou informado sobre o chamamento público lançado pelo Ibama para contratar uma nova empresa de monitoramento por satélites.

O GGN prepara uma série de vídeos sobre a interferência dos EUA na Lava Jato. Quer se aliar a nós nesse projeto? Acesse www.catarse.me/LavaJatoLadoB

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

  1. Negócios, negócios, negócios…
    A democracia supõe que governar é pensar e agir em nome do povo, pelo povo e para o povo.
    Houve um presidente (W.Luis) que dizia que “governar é abrir estradas”.
    Presidentes como FHC, Temer e Bozo governam em nome de negócios, por negócios e para negócios.
    Cada vez mais particulares e estrangeiros.
    Até que reste apenas um grande deserto de riquezas e montanhas de lixo, lama e gente miserável.
    Que nunca conseguiu ser uma nação soberana e desenvolvida, como seria sua evidente vocação.
    Cujo nome ainda será BraZil.

    • emerson, não sei quem seja o emer seu pai, mas, com certeza isso nada tem a ver com mamatas — no plural — já que antes do PT havia o PSDB e PMDB e PP — juntos cobriam todo o espectro de filhasdaputice que acontecia no país — como TODO O SANTO MUNDO SABE — SÓ VOCÊ QUE É CEGUINHO E NÃO VÊ. Logo quem chupa (o verbo é chupar com CH sua anta) quem chupa é você !!! Aproveita e goza, seu otário.

      2
      2
  2. É o que eu chamo de sistema focado, burro, familiar, unidimensional…
    sistema que tem vista apurada no que foi programado, mas cego a tudo aquilo que não foi previsto pela programação

    Se considerarmos a demora na interpretação dos dados, pior ainda, porque que ficaremos sabendo cada vez mais de cada vez menos florestas. É o tal cansar-se de ter certeza de que a floresta está sendo destruída e ficar satisfeito apenas por ter certeza

    o mesmo que jogar dinheiro fora ou na conta dos amigos das queimadas

  3. Olavo não é nenhum gênio, apenas diz supostamente de forma convincente aquilo que uma parcela significativa da sociedade pensa e quer ouvir. Isto serve para provar que os indivíduos de todas as camadas sociais também são reacionários.A esquerda dificilmente mudará tal mentalidade ideológica que é supra partidária.

  4. Fumaça, e não é a esquadrilha

    Alem das queimadas tem muita fumaça sendo exposta, não as que queimam, mas as que geram negocios, aliás muitos deles, até contratos já existem e assinados – publicos – a respeito do futuro monitoramento da Amazonia ; mas como não me comprometo com nada procurem por: VCUB1 – Constelação – Inpe – Visiona.
    É interessante.

  5. Bolsonaro confunde. Usa questões reais como o neocolonialismo ambiental e as contradições do WWF e Greenpeace para se vender patriota sendo que sua missão é VENDER o Brasil.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome