A história da canção Duerme Negrito

Uma das mais belas canções de ninar do folclore latino-americano, Duerme Negrito, nos é revelada a sua origem pelo maior compositor e cantor da música folclórica da América Latina, o genial Don Atahualpa Yupanqui, que adotou este nome em homenagem ao último Imperador Inca.

A revelação de Atahualpa Yupanqui

https://www.youtube.com/watch?v=0Jo5mBZZGqU#t=12 align:center]
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A HISTÓRIA DA CANÇÃO
Título
Duerme Negrito
Gênero
Acalanto ou canção de ninar. Música lírica, anônima, popular e folclórica (tradicional).
Autoria
Atahualpa Yupanqui (Héctor Roberto Chavero Aramburo), foi músico, compositor, cantor e violonista argentino, nacido em 31 de janeiro de 1908, em Pergamino, Buenos Aires, e falecido em 23 de maio de 1992, em Nimes, Gard, França. É considerado o mais importante cantor e autor de música folclórica argentina e latino-americana. Também foi considerado aquele quem resgatou do folclore popular Duerme Negrito, uma canção-símbolo da América do Sul.
Nota: Atahualpa Yupanqui afirmou ter ouvido esta canção sendo cantada por uma mulher negra, na região do Caribe, entre a fronteira da Venezuela com a Colômbia, onde ficou encantado, a aprendeu, e a recopilou tornando-se seu primeiro intérprete. Alguns atribuem a autoria da canção a Bola de Nieve (Ignacio Jacinto Villa Fernandez, músico, compositor, cantor e pianista cubano, nascido 11 de setembro de 1911 em Guanabacoa,  e falecido em  02 de outubro de 1971, na Cidade do México), tido como um dos maiores músicos cubanos. Outros dizem que pertence a Eliseo Grenet Sánchez, compositor, arranjador e pianista cubano, nascido 12 de junho de 1893, em Havana, e falecido em 04 de novembro de 1959, na mesma cidade, autor de várias obras populares da ilha caribenha.
Gravação Original
Lp 78 rpm single “Atahualpa Yupanqui”, lado A, Melodias e Danças Argentinas – 5002, Argentina, 1949 (?).

Letra
Duerme Negrito

Duerme, duerme negrito,
que tu mama está en el campo, negrito…

Duerme, duerme negrito,
que tu mama está en el campo, negrito…

Te va a traer codornices para ti,
te va a traer rica fruta para ti,
te va a traer carne de cerdo para ti.
te va a traer muchas cosas para ti.

Y si negro no se duerme,
viene diablo blanco
y ¡zas! le come la patita,
¡chacapumba, chacapún…!
apumba, chacapumba, chacapumba,
chacapún!

Duerme, duerme negrito,
que tu mama está en el campo, negrito…

Trabajando,
trabajando duramente, trabajando sí,
trabajando y no le pagan, trabajando sí,
trabajando y va tosiendo, trabajando sí,
trabajando y va de luto, trabajando sí,
pa’l negrito chiquitito, trabajando sí,
pa’l negrito chiquitito, trabajando sí,
va de luto sí, va tosiendo sí, duramente sí.

Duerme, duerme negrito,
que tu mama está en el campo, negrito.
Duerme, duerme negrito,
que tu mama está en el campo, negrito… negrito… negrito…

(Transcrição da recopilação de Atahualpa Yupanqui conforme sua interpretação no programa de Televisão acima, embora esta canção tenha sido registrada no ano de 1969 em Paris)

A confirmação de Mercedes Sosa

https://www.youtube.com/watch?v=brI6TFM0TrQ align:center]
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A CANÇÃO PERFEITA DE NINAR 
Por Gabo Ferro

“Duerme Negrito” é uma canção anônima que foi resgata por Atahualpa, como contou, na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. Teve versões infinitas: Zitarrosa, Viglietti, Victor Jara, Mercedes Sosa e tantos outros, mas acho que nenhuma versão é melhor ou pior do que a outra: essa música é tão boa que prevalece sobre seu intérprete. É simplesmente uma canção perfeita, uma canção de ninar, como o ato de dar os seios para uma criança. Cria uma atmosfera íntima e privada, quase secreto da mãe ou do pai com o filho, não precisamos de mais. Sua economia de recursos impressiona: não precisa de instrumentos, a ela se alcança com a voz, cantando baixinho, para criar um momento quase epifânico. Por sua vez, neste caso, a música tem um ritmo maior que o seu próprio ritmo, alcançado pelo uso de onomatopeias, como esse “¡zas!”, “chacapumba-chacapún”, recursos raros neste gênero, mas eles lhes dão uma âncora precisa: é uma canção que não poderia vir de outras partes do mundo. Continua AQUI
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ALGUMAS INTERPRETAÇÕES POPULARES


Fotos de cima p/baixo: Alfredo Zitarrosa, Víctor Jara & Grupo Quilapayún, Los Machucambos, Shlomo Idov e Emiglio Solé (folheto da partitura).  

Durante muito tempo a canção “Duerme Negrito” foi considerada como de autoria de Atahualpa Yupanqui, mas trata-se de uma canção anônima que ele resgatou, segundo o próprio narrou no já citado programa de Televisão, na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. Teve várias versões, e entre as interpretações mais populares se encontram as de Zitarrosa, Víctor Jara, Los Machucambos, Mercedes Sosa e tantos outros.

Alfredo Zitarrosa (Montevidéu, 10 de março de 1936 – Ibid, 17 de janeiro de 1989) foi um cantor, poeta, escritor e jornalista uruguaio, considerado um dos principais artistas da música popular de seu país e em toda a América Latina.

https://www.youtube.com/watch?v=P2Zs20yJ5O4 align:center]

Víctor Jara, um dos mais emblemáticos artistas do Chile, assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet, foi o responsável pela popularidade desta canção em seu país. Aqui ele a interpreta ao lado do Grupo Quilapayún, também chileno.

https://www.youtube.com/watch?v=UxT8VTOaNIY align:center]

Los Machucambos foi um trio formado em Paris, no Quartier Latin, em agosto de 1959 por um espanhol, Rafael Gayoso, da Costa Rica, Julia Cortés (neta do ex-presidente Leon Cortés Castro, nos anos 40, também da Costa Rica) e um peruano, Milton Zapata, substituído no final dos anos 60 por um italiano, Romano Zanotti.

https://www.youtube.com/watch?v=bkRrmPcZXmc align:center]

Shlomo Idov (originalmente Jedwab), nascido em Buenos Aires, em janeiro de 1951, é músico e compositor de grande sucesso em Israel, onde vive desde os 13 anos de idade.

https://www.youtube.com/watch?v=0Lg98iB2KMM align:center

Para esta canção, atualmente existem diferentes harmonizações para vozes mistas, que se tornaram um tema frequente no repertório para coral, não só nos países de língua espanhola, mas também em várias países do mundo. Nesta apresentação, escolhemos o arranjo para coro, a Capela de Emiglio Solé, com interpretação do maestro Jayme Amatnecks e a Camerata Ars Música.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=thFizkmede8 align:center
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DON ATAHUALPA YUPANQUI

Don Atahualpa Yupanqui, quando nasceu, em 1908, ele recebeu o nome de Héctor Roberto Chavero mas, ainda adolescente, decidiu que adotaria o nome do último Imperador Inca. Pajador, compositor, violonista, cantor e mito, se tornou um dos maiores nomes da música folclórica latino-americana. É autor de inúmeros clássicos da música criolla, como Los Hermanos (“Yo tengo tantos hermanos…”), Los Ejes De Mi Carreta (“Porque no engraso los ejes…”), e El Alazán (“Me galopaban en la sangre trescientos años de América, desde que don Diego Abad Chavero llegó para abatir quebrachos y algarrobos y hacer puertas y columnas para iglesias y capillas”), aqui selecionadas. 

[video:https://www.youtube.com/watch?v=rdxQBkWgv2c align:center

[video:https://www.youtube.com/watch?v=aIkMHhDaoDo#t=90 align:center

[video:https://www.youtube.com/watch?v=KtRYttkAH7A align:center

EL PAYADOR PERSEGUIDO é um longo poema autorreferencial de Atahualpa Yupanqui, que narra as vicissitudes de sua vida, de suas origens, as suas preocupações e diferentes situações que o levaram a viajar pelo país para escapar da fome, da perseguição e, finalmente, para encontrar-se consigo mesmo. Nesta narrativa, ele fala sobre a beleza do país, tanto pela paisagem que vai mudando à medida que ele andava pelas diversas províncias, como pela inteireza de seu povo. Assim, ele passa a descrever o arquétipo do criollo, o gaúcho, mostrando a extrema pobreza que estavam submersos. E frente desta pobreza, ele destaca a responsabilidade do cantor de ser honesto consigo mesmo e com a sua gente, como um tradutor desta situação, porque as canções da terra não são genuínas se somente descrevem a paisagem sem traduzir seus sofrimentos. O poema enfatiza o valor do silêncio como uma manifestação da solidão do homem do campo, que não permite que nada intente penetrar na sagrada zona de seu coração ou, através de golpes, descobrir seus pensamentos íntimos. Apenas se pode dialogar com a natureza, os animais e as pastagens. O resto é silêncio, tudo se cala e se suporta em silêncio.

[video:http://www.dailymotion.com/video/x2yebu9 align:center
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Consultas e traduções livres dos originais:
Achivador Virtual / Página 12 / Lalus Fecit – partituras para coro / Wikipédia Commons 
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7 comentários

  1. De Cuba veio outra belíssima

    De Cuba veio outra belíssima canção de ninar, “Drume Negrita”, de Ernesto Grenet, gravada por muita gente, inclusive por Caetano Veloso, em 1975, que fez versão em português.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=MMUspkOFTDI%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=gaPf9NHmumQ%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=oCYV86RF2j8%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=24ljfgd-F-M%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=3TaQQ3g_7_M%5D

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=BeazK40LdE4%5D

  2. Muito lindo!!!

    Parabéns, senhor Botelho!!!!

    A primeira vez que ouvi essa linda canção há 40 anos foi pelo grupo Tarancón, mas não sabia de Atahualpa e que grata surpresa descobrir a sua honestidade em revelar a compilação e a interpretação de Mercedes também é belíssima, estou nas núvens por seu gosto musical e demonstrar que diante de tanta sensibilidade com certeza os bárbaros são os invasores que vivem a destruir toda essa cultura que resiste bravamente graças a pessoas como você.

  3. Lindo Post, muito bem
    Lindo Post, muito bem retratada a cultura latino-americana pouco reconhecida entre os brasileiros, ouvi essa música por meu pai na voz de Mercedes Sosa e hoje canto para minhas filhas que dormem tranquilas. Estou muito satisfeito em conhecer melhor uma canção que está sendo, e continuará sendo passada por gerações.

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