A pressa de Gabriel, por Antonio Rodrigues do Nascimento

A notícia de sua morte por complicações respiratórias causou um baque surdo em nosso peito. Nunca podíamos imaginar que o destino fosse tão cruel com o Gabriel e conosco.

A pressa de Gabriel

por Antonio Rodrigues do Nascimento

”Go fast. Die young. Live forever.”

“As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

(João Guimarães Rosa)

Tinha muita pressa o jovem Gabriel Rodrigues dos Santos (*27/10/2001 ⎯ +10/06/2020).

Foi minha filha, companheira de luta do Gabriel numa intensa temporada de movimento estudantil secundarista, que nos deu a notícia de sua morte. Não tivemos como evitar a recordação das circunstâncias inesquecíveis de nosso primeiro encontro, bastante representativas da sua curta e fulgurante existência entre nós.

Nos conhecemos na noite de 03/05/2016, quando tomei conhecimento de que minha filha, juntamente com dezenas de outros estudantes secundaristas, encontrava-se na ocupação do plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo reivindicando imediata instalação da “CPI da Merenda”. Corremos à ALESP, eu e minha companheira, para nos inteirarmos melhor dos acontecimentos e, quem sabe, tentar assegurar a integridade física dos estudantes, além de apoiá-los nas exigências de justiça e de educação pública, gratuita e de qualidade para todos.

Foi naquela noite dia, junto ao portão principal da ALESP, que conhecemos o Gabriel, então um menino de 14 anos que aparentava ter ainda menos idade. Ele aproximou-se de nós enquanto obtínhamos informações com assessores dos deputados estaduais Carlos Gianazzi (PSOL) e Teonilio Barba (PT) e, daí por diante, nos vimos e conversamos diariamente até a desocupação da ALESP, já que ele ficou permanentemente acampado com seus companheiros no entorno da Assembleia enquanto durou a ocupação.

A primeira impressão que nos ficou foi sua curiosidade do menino Gabriel. Ele nos perguntava a todo momento o que pensávamos sobre várias questões. Bem verdade, nossas primeiras conversas foram verdadeiros interrogatórios, o Gabriel tinha pressa de saber. Conversávamos sobre o processo de impeachment da Dilma, a proposta de uma constituinte, partidos, candidatos, mandatos etc.

Terminada a ocupação, nos encontrávamos frequentemente nas muitas manifestações que marcaram aquele infausto ano de 2016 (“não vai ter golpe” e “fora Temer”), nas quais estava sempre o Gabriel, qualquer que fosse a organização que “puxasse” o movimento antigolpista. Daí nossa segunda impressão: tal qual comentou o colega Arnóbio Rocha, tínhamos receio de que ele pudesse ser preso pela polícia (https://jornalggn.com.br/memoria/gabriel-presente-por-arnobio-rocha/)* e, ainda mais, temíamos a violência física dos fascistas (fardados ou não), dado o destemor e protagonismo do Gabriel em todas as manifestações de rua e sua constante exposição militante nas redes sociais.

Passamos a nos ver também em nossas andanças pelo Centro de SP, onde residimos e por onde sempre aparecia o Gabriel, empolgado nos últimos encontros com a ideia de sua pré-candidatura a vereador no município de São Paulo pelo PSOL.

A notícia de sua morte por complicações respiratórias causou um baque surdo em nosso peito. Nunca podíamos imaginar que o destino fosse tão cruel com o Gabriel e conosco.

A perda é irreparável, mas Gabriel caiu de pé, doando tudo aquilo que possuiu na sua curta passagem terrena: a juventude e vitalidade na luta contra as forças da opressão e a serviço da igualdade.

O Gabriel teve pressa de encantar-se.

Antonio Rodrigues do Nascimento

* “Gabriel, Presente!”, in GGN – O Jornal de Todos os Brasis. Disponível em: https://jornalggn.com.br/memoria/gabriel-presente-por-arnobio-rocha/. Acesso em: 12/06/2020.

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