Adelzon Alves, o amigo da madrugada, por Marquinho Carvalho

Marquinho e Adelzon

Adelzon Alves, o amigo da madrugada, por Marquinho Carvalho

Conheci” Adelzon Alves, certamente, em meados dos anos setenta. Confesso que posso precisar a data, porém, notívago desde criança, adormecia quase todas as noites com o fantástico rádio Philips do papai com quatro pilhas grandes ligado no “amigo da madrugada”, bordão histórico de Adelzon que atravessou cinco décadas e ainda hoje pode ser ouvido na Rádio Nacional, em seu programa apresentado, evidentemente, nas madrugadas.

O fato de adormecer com o rádio ligado motivava uma reprimenda do meu pai nas manhãs quando ia me despertar para a escola. Sempre digo pros meus amigos que eu sonhava com um “timer” para programar o desligamento do rádio muito antes dele ser inventado.

É certo que no início daquelas madrugadas da minha infância, nos confins do interior goiano, foi Adelzon que me apresentou de fato a grandiosidade do universo do samba e da fantástica música brasileira.

Mas não poderia deixar de mencionar a importância da Rádio Difusora de Jataí, a única da minha cidade naqueles tempos. Por incrível que possa parecer nos dias de hoje, nela também era possível ouvir boa música, inclusive sambas. Portanto, quando descobri o programa do meu locutor favorito, eu já fora tocado pela extrema beleza e diversidade da música brasileira.

Creio que preciso reconhecer também que a TV Globo a época produzia muitos programas musicais de excelente qualidade, além das aberturas das novelas e as suas próprias trilhas sonoras, que eram maravilhosas. Aqui cabe um agradecimento especial ao violonista e produtor Walter Branco, responsável por aquele trabalho espetacular.

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Imaginem a Banda Black Rio numa abertura de uma novela global nos dias de hoje. Impossível!!! Pois esta banda espetacular teve a belíssima música instrumental (reparem bem, INSTRUMENTAL) “Maria Fumaça” na abertura da novela Locomotivas de 1977. Outros tempos!!

Tempos em que Adelzon Alves, o amigo da madrugada, reinava na Rádio Globo com seu programa de meia-noite e meia às três da madruga. Com umdetalhe impressionante: o programa era apresentado num auditório. Sim, artistas e público prestigiavam o programa presencialmente no auditório da Rádio Globo.

Pois bem, ontem fui ao lançamento da biografia “Noca da Portela e de todos os sambas”, escrita pelo meu grande amigo Marcelo Braz, que aconteceu no teatro da UERJ. Fiz questão de vir prestigiar este evento importantíssimo para nossa história cultural. Inclusive, em tempos de governos golpistas, tive que encarar vinte horas de ônibus entre Goiânia e Rio de Janeiro, afinal, nós da classe trabalhadora não podemos mais viajar de avião.

Durante o evento vivi muitas emoções. Noca completava 86 anos na noite de ontem cheio de disposição. Lá estavam também muitos bambas, dentre eles Aluísio Machado e Monarco. Porém, ouvi do apresentador do evento, dentre tanta gente boa do samba, o nome de Adelzon Alves. Fiquei extremamente empolgado com a possibilidade de dar um abraço naquele que é considerado um dos maiores patrimônios da nossa cultura popular.

Terminado o belíssimo show do Noca e iniciado o ritual das dedicatórias nos livros feitas por Marcelo e Noca, fiquei em busca do Adelzon. Até que o encontrei. Foi sensacional!!

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Ele, extremamente simples e de uma humildade absurda, conversou comigo por mais de meia hora. Falamos de música, cultura popular, rádio, sua carreira de apresentador e produtor de discos consagrados, geopolítica (juro) e de cães. Ele comentou dos seus dez vira-latas em Pedra de Guaratiba, onde vive, e eu dos meus cinco, também vira-latas. Tantos os dele comos os meus adotados na rua.

Como se não bastasse a emoção de conhecê-lo e poder conversar um pouco, ainda recebi o convite para ir ao seu programa na Rádio Nacional ontem mesmo. Não fui porque estava acompanhando meu amigo Marcelo e sairíamos para comemorar a conclusão deste trabalho fundamental.

Mas afirmo que hoje lá estarei sem falta. Caso queiram prestigiar o velho mestre do rádio brasileiro, sintonizem Rádio Nacional AM 1.130 a partir da meia-noite e ouvirão Adelzon Alves, o amigo da madrugada, sempre na ativa e seguindo firme os mesmos princípios que nortearam sua carreira. Tocar o melhor da música brasileira.

Até lá!!!

Já ia me esquecendo. Nassif, ele te enviou um abraço!!!

 

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4 comentários

  1. Nesses tempos em que o rádio

    Nesses tempos em que o rádio anda cada vez mais desprestigiado e abandonado às pregações neopentecostais, gente como Adelzon Alves é ainda mais imprescindível.

  2. Viagem

    Marquinho Carvalho nos levou à uma viagem no tempo. No tempo em que as radios faziam lindos programas e tocavam a diversidade da musica brasileira, em que as novelas eram bonitas e tinham trilhas elaboradas, até com arranjos do maestro Guerra Peixe…  Saudades do Brasil…

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