Destinos extremos de Simone Veil, por Daniel Afonso da Silva

Destinos extremos de Simone Veil

por Daniel Afonso da Silva

2 de abril de 1974. De novo o estupor recobre a França. Os franceses ainda não haviam superado o vazio deixado pela morte do general De Gaulle tampouco confiavam ter totalmente compreendido os efeitos deletérios dos protestos de maio de 1968. Custavam a tudo apreender. Mas tiveram. Sim: o presidente Georges Pompidou vinha também de morrer.

O jogo de sucessão ascende imperativo. Mesmo que abertos e imensos os traumas e as cicatrizes. Com chances de vitória, François Mitterrand, Jacques Chaban-Delmas e Valéry Giscard d’Estaing adentraram o páreo eleitoral. A disputa fora rude. A sociedade estava dividida. Suas fraturas sociais eram evidentes. Os baby boomers eram todos insatisfeitos. O sonho europeu de união e prosperidade começava a fraquejar. Os anos gloriosos já eram passados. O desemprego se impunha. A economia, como nunca, competia com a cultura e com a política. Os políticos resistiam. Mas a financeirização dos sentidos e a despolitização das autoridades ia virando onipresente.

As etapas do pleito vieram. Valéry Giscard d’Estaing foi ao segundo turno com François Mitterrand. E venceu. Certa continuidade, porquanto, se mantinha. Giscard d’Estaing se queria a quintessência do general De Gaulle. Para Matignon, com a função de primeiro-ministro, ele convocou Jacques Chirac. Outro seguidor do general. Ao primeiro-ministro Jacques Chirac caberia indicar, escolher e coordenar ministros. E assim se fez.

Os ventos da época sugeriam renovação. Renovação que o presidente Giscard encarnava em parte. Primeiro pela jovialidade. Fora eleito presidente com 48 anos. Depois pelo ar de modernidade. Esses preceitos de novo foram subscritos aos ministeriáveis. E nessa métrica surge a indicação de madame Veil para o Ministério da Saúde.

Até então Simone Veil atendia por madame Veil. Mas não tardaria integrar seu nome, Simone, ao sobrenome de seu marido, Antoine Veil, e a afirmar a história de sua vida à história de seu país, a França, de seu continente, a Europa, e de século, o dos extremos.

Antes de virar madame Veil – aliás, bem antes – ela atendia por Simone. Vez e outra, por Simone Jacob.

Simone Jacob era filha caçula do casal André e Yvonne Jacob. Ele arquiteto de prestígio e ex-combatente da Primeira Guerra Mundial. Ela mãe-mulher e mulher-mãe, assemelhada em beleza à musa Greta Garbo e internalizada no estilo das mulheres de seu tempo. Eles viviam em Nice. Simone nasceu em Nice. Era o quarto filho dos Jacob. O ano era 1927.

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Os Jacob eram judeus. Judeus laicos. Judeus não praticantes. Judeus conscientes de serem judeus. Judeus sabedores da fúria de seus perseguidores. Judeus impactados pelas ignomínias do affaire Dreyfus, que ainda crepitava nos espíritos.

1940 fora a capitulação do marechal Pétain. Vichy era o centro de comando de Hitler na França. Nice seguia livre. Mas mudanças sensíveis dão início em 1942. Nesse ano, os aliados ocupam o norte da África e a drôle de guerre vai encontra o espaço niçois. Primeiro com tropas italianas. Depois com vingadores alemães. A Gestapo chegaria de fato em setembro de 1943. Seu comandante seria Aloïs Brunner – agente nazista, afamado em Viena como gestor do medo e eternizado, adiante, em Drancy, como entorpecido entusiasta do mal.

30 de março de 1944 era um dia particularmente venturoso para Simone Jacob. Ela vinha de concluir as provas de acesso ao baccalauréat. Ela seguia confiante de seu sucesso. Ela acreditava em seu destino. Tinha sonhos.  Era alegre. Vivia feliz. E por isso comemorava com colegas em situação comum.

As ruas de Nice indicavam conforto familiar. A cidade era pequena. 30.000 habitantes. Nem todos conhecidos entre si. Mas os Jacob eram gente de valor. Percebidos por sua força. Por sua vigor. Por sua determinação. Simone Jacob não passava sem se fazer notar. Era bela. Era jovem. Era uma promessa. Era um sucesso. E o foi. No início, de modo trágico. E sua tragédia começaria nesse dia. 30 de março de 1944.

Congraçando-se com colegas e amigos pela sua Nice natal, ela é atrapada pelos homens de Hitler e conduzida ao hotel Excelsior. Logradouro da Gestapo na circunscrição. Suas preocupações vão ao encontro de seus parentes. Pais e irmãos. Mas no hotel Excelsior, ela encontra sua mãe. A Sra. Jacob havia sido apanhada horas antes. Madalaine e Denise, suas irmãs chegariam sem tardar horas depois. Essa presença gestava certo alento. Mas não uma solução. Era uma ilusão. Seu pai André e seu irmão Jean, ela não reveria jamais. Enviados aos Bálcãs, eles seriam exterminados pela sanha anti-sionista de alemães e acólitos. Destino não diferente teriam sua mãe e irmãs em Birkenau-Auschwitz.

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Simone, sua mãe e suas irmãs chegaram ao inferno terreno de Birkenau-Auschwitz no dia 15 de abril de 1944. Nesse dia, Simone virou Sarah. Dias depois, ela virou um número: 78651. 78651, Sarah e Simone viram a morte, a humilhação, a desumanização de milhares de pessoas. Milhares de judeus. Que morreram simplesmente por serem judeus. Simone sobreviveu. Foi o que restou dos Jacob. Só o firmamento explica o seu sucesso. Mas nem o firmamento foi capaz de nela sarar as chagas de ter sido Sarah. De ter sido 78651. De ter singrado pelas labaredas da fome, dos maus-tratos, do despudor. De ter vivenciado o terror em face. De ter sido “acarinhada” pelo Sr. Mengele. De ter visto a morte dos seus. De ter vivido a sua própria morte sua.

Simone Jacob a tudo sobreviveu. E não tardou a voltar a viver. Mas “On ne sort pas de la Shoah avec le sourire aux lèvres” [Não se sai da Shoah com sorriso nos lábios].[1] Ela retornou do inferno em 1945. Sem ilusão. Sem alegria. Sem emoção. Sem nostalgia. Sem sonhos. Sem destinos. Sem sorriso nos lábios.

A chaga da deportação é insuperável.

Entre 1945 e 1946, ela retomou seus estudos. Ingressou na Sciences Po-Paris. Formou-se advogada. Casou-se com Antoine Veil. Depois iniciou carreira pública na Administração Penitenciária, onde ficou até 1964. E, a partir de 1970, virou Secretária Geral do Conselho Superior da Magistratura. Nesse entremeio conheceu de Marie-France Garaud, conselheira de altíssima confiança do agora primeiro-ministro Jacques Chirac. E foi de certo Marie-France Garaud quem propusera seu nome como ministeriável. O primeiro-ministro gostou da ideia. O presidente também. Simone Veil assumiu o Ministério da Saúde. Vivia-se o ano de 1974.

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O tom modernizante da presidência Giscard d’Estaing aferia a discussão de temas tabu. Um deles era o aborto. O ministro de interior, Michel Poniatowski, cotejara essa realidade e revelara números alarmantes. Era imensa a mortandade por abortos clandestinos. Élysée e Matignon ficaram sensíveis. Um debate público foi lançado. Um projeto de lei, arquitetado. Simone Veil virou a responsável. A lei propunha a descriminalização do aborto. O tema era – e segue – impopular. Ninguém sai incólume de suas controvérsias. Deputados e senadores franceses aprovaram a lei. Simone Veil passou a se confundir com esse feito. Seu protagonismo foi incontestável. Não sem violência. Não sem exaltações. Católicos, protestantes, judeus, ateus tomaram partido e manifestaram seu entendimento. Simone Veil foi atacada e injuriada por todos. Muita vez por ser mulher. Muita vez por ser judia. Muita vez por ter sobrevivido ao holocausto. Muita vez simplesmente por respirar e existir. Mas a convicção de Simone Veil seguiu inquebrantável.

Quatro anos depois, em 1979, ela seria eleita deputada europeia e a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu. Na presidência Mitterrand, ela seria ministra de assuntos sociais do governo de Edouard Balladur. Na presidência de Jacques Chirac, ela seria escolhida para compor o Conselho Constitucional. Na presidência de Nicolas Sarkozy, ela seria tornada imortal da Académie française na cadeira de Racine. Na presidência de François Hollande, ela seria um dos protagonistas do “mariage pour tous”, casamento homoafetivo. Na presidência de Emmanuel Macron, ela acaba de receber a mais alta distinção nacional: seus restos mortais descansarão no Panthéon.

Simone Veil morreu no último dia 30 de junho de 2017.


[1] Jean d’ORMESSON em « Réponse au discours de réception de Mme Simone Veil », http://www.academie-francaise.fr/reponse-au-discours-de-reception-de-mme-simone-veil

 

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1 comentário

  1. Caro Daniel…

    No meio deste artigo trato justamente do exemplo politico de Simone Veil. Abs

    GLOBO E MORO VÃO ELEGER RODRIGO MAIA PRESIDENTE? E TEMER? RUIM SEMPRE PODE PIORAR! (PARTE 1)

    Por Romulus

    Parte (1)

    – Brasil: sucessão de golpes e contragolpes. “Do mal”, mas também “do bem” (!)

    – Segundo turno (literalmente? rs) dos infernos: “Fora, Temer” vs. “Fica, Temer”

    – Notem: a alternativa (?!) é… Rodrigo Maia!

    – Binarismo “do bem”: Globo a favor? Sou contra!

    – Churchill e Simone Veil: aliança ~tática~ até com o diabo, se Hitler invadisse o inferno

    – Parênteses – Siome Veil faz o feminismo avançar até na morte!

     

    Parte (2)

    Item (A): a “rodada” do “jogo” tomada no “atacado”

    – Marco Aurélio Mello e Delfim Netto

    – Núcleo duro debate: a marcha da História política no Brasil: golpes e contra-golpes

    Item (B): a “rodada” tomada no “varejo”

    – Os Juristocratas se autodefinem: Carlos Fernando, Dallagnol e Moro. Sem pudores

    – O vai ou racha do acordão: o HC de Palocci no STF

    – Armas de dissuasão para alvos distintos: “o fantasma de Lula Presidente” vs. “Parlamentarismo já” vs. “intervenção militar”

    – Nas mãos hábeis de peemedebismo, a combinação desse arsenal nuclear incentiva o acordão.

    – O drama dos blogueiros de esquerda: antes “perdidinhos” (?), agora alguns começam a “se encontrar”

    – Mas os políticos ~profissionais~ da esquerda continuam com o… ~amadorismo~.

    – Natural ou (bem) cultivado?

    – Cassandras continuarão gritando e arrancando seus cabelos, mas…

    – O contra-ataque juristocrático e o “lock-in” jurídico: deixar um fait accompli para os seus sucessores

    – A temeridade política de agir como se “toda a direita e todos os neoliberais fossem iguais”

    – Globo e Dallagnol confirmam, revoltados: Lula ~está~ contemplado no acordão!

    – ~Está~: fotografia do momento…

    – E no filme? Lula ainda restará, no final?

    Item (C): golpes do futuro

    – O “lock-in” via Tratado internacional

    – A farsa ~e~ a tragédia da operação “Macron/ En Marche!” brasileiros

    – A blindagem do STF contra um novo Presidente de esquerda

     

    Valha-nos…

    (ao gosto do freguês)

    – … Deus/ Espíritos de Luz/ “Design inteligente”/ “Energias ‘do bem’ ~não~ antropomórficas”/ “Universo”/ caos aleatório randômico…

    – Tá valendo qualquer apelo!

     

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