Ismael Ivo, por Walnice Nogueira Galvão

TV Cultura produziu Ismael Vivo, documentário que transmite a munificência da presença física: um homem corpulento, pretíssimo, com olhos e boca e mãos desmesurados, num corpo de suma flexibilidade e graça.

Alex Ribeiro

Ismael Ivo

por Walnice Nogueira Galvão

Mais um que a covid levou: Ismael Ivo, aos 66 anos.

O grande bailarino e coreógrafo foi o artista brasileiro de dança clássica mais conhecido no exterior. Antes dele, a conterrânea Marcia Haydée seria a prima ballerina  do Ballet de Sttutgart,  em pas-de-deux com estrelas como Rudolf Nureiev e Mikhail Baryshnikov: veja documentário Marcia Haydée – Uma vida pela dança (2019). A performance de Ismael Ivo com ela em Tristão e Isolda, apogeu da dança de paixão-e-morte, deu o que falar, explorando com efeito de choque o contraste entre o negror dele e a pele dela, alvíssima.

Encampando a perda de todos nós, a TV Cultura produziu Ismael Vivo, documentário que transmite a munificência da presença física: um homem corpulento, pretíssimo, com olhos e boca e mãos desmesurados, num corpo de suma flexibilidade e graça.

Vemos ali os paradoxos de uma carreira que por 33 anos se desenvolveu quase toda fora do país, só há pouco obtendo aqui reconhecimento. Entre os fãs e instituições  que o apoiaram estão o Sesc, o Theatro Municipal de São Paulo, a TV Cultura, o Balé da Cidade de São Paulo, que dirigiu desde 2017. Fez furor sua montagem da Sagração da primavera, de Stravinsky. E ele aproveitou para falar de racismo numa Roda Viva de 2018.

Entre as proezas no exterior estão o posto de diretor de dança da Bienal de Veneza, a direção do Teatro Nacional Alemão em Weimar e o festival ImpulsTanz em Viena, que fundou em 1984 e comandou até agora.

Foi “descoberto” pelo grande bailarino e coreógrafo Alvin Ailey, chefe de companhia,   numa de suas vindas ao Brasil. Como se sabe, a cidade de Nova York assumiu a liderança do balé moderno, a partir da afluência de exilados russos que iriam fecundar  as artes. O mais reputado deles é Balanchine, que revolucionou o balé clássico e, por 30 anos à frente do New York City Ballet, criou cerca de 100 novas coreografias, até hoje reencenadas mundo afora.

Daí saíram os balés propriamente modernos, que romperam totalmente com o balé clássico, “de ponta”, com Martha Graham como principal figura, mestra dos que surgiram depois e levaram o legado avante.

Por volta dos anos 40 surgiu o primeiro balé negro, idealizado por Katherine Dunham, rebento da escola de Martha Graham. A fundadora do novo estilo presidiu  ao advento do balé moderno negro e neoafricano, especializando-se em música negra do Caribe e pesquisando com frequência no Haiti, particularmente rico nessa área. Antropóloga e militante, escreveu livros, criou escolas e orientou a formação de discípulos.  

Depois, na mesma linha da negritude, surgiria Alvin Ailey, muito inventivo, que faria  turnês no mundo todo, vindo mais de uma vez a nosso país, quando os aficionados de balé puderam apreciá-lo pessoalmente. Sua arte hauriu fundo nas raízes africanas e povoou os palcos com ritmos e gestos nunca dantes vistos. A mais famosa das coreografias que assinou, infalível até hoje nos espetáculos ao redor do planeta, é Revelations, de 1968. Vemos ali a crônica da diáspora nos Estados Unidos, começando pela escravidão e passando em revista a luta pela emancipação, a aquisição da liberdade, os protocolos de trabalho e as práticas das festas,  a relação com o sagrado e com os ancestrais, as batalhas pelos direitos civis  que não cessaram até hoje. A trilha sonora do espetáculo tira partido da musicalidade negra norteamericana, valorizando os spirituals  que nasceram do cativeiro e foram se transformando na música religiosa dos cantos corais nas igrejas, no gospel e no soul, sem esquecer essa extraordinária contribuição para a cultura mundial que é o jazz. No caso de Alvin Ailey, assim como também de Katherine Dunham antes dele, a difusão de sua arte vem acompanhada de um forte senso de militância.

Foi ele, como vimos, quem descobriu Ismael Ivo, numa de suas vindas ao Brasil, e o levou embora para dançar no Alvin Ailey American Dance Theater, de onde a carreira dele saltaria para o mundo. Assim  nosso bailarino ficaria por 33 anos circulando pelo planeta, ocupando postos altíssimos na arte, para só regressar aos pagos nos últimos tempos.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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