Jorge Serpa, o lobista histórico, por Andre Araujo

Jorge Serpa, o lobista histórico

por Andre Araujo 

O lendário doutor Jorge Serpa inaugurou a profissão de lobista no Brasil moderno. Personagem nos bastidores da História brasileira desde o fim dos anos 40, Jorge Serpa foi íntimo amigo do Presidente Juscelino, do qual tinha no rico arquivo 300 cartas; foi amigo do Presidente João Goulart, para quem escrevia discursos, inclusive o fatídico discurso do dia 13 de Março de 1963 na Central do Brasil. Depois, preso pelo Governo de 1964, se reinventou e tornou-se amigo dos generais e atuou nos bastidores do poder do regime militar. Nos governos da Nova República atuou intensamente desde o Governo Sarney chegando em plena forma no Governo FHC, indo a Brasilia sempre de taxi saindo do Rio, não andava de avião. Teve papel em alguns episódios importantes, inclusive do apoio decisivo do Brasil para conseguir a aprovação de um resgate do FMI à Argentina. Serpa influiu na nomeação de muitos Ministros, mas jamais contou e muito menos se gabou de exercer influência. Era obcecado pela reserva e discreção.

Mas Serpa teve outro papel intelectual de primeira linha. Amigo pessoal, um dos poucos, do jornalista Roberto Marinho, escreveu a maioria dos editoriais políticos do jornal O GLOBO. Passava os fins de semana com Roberto Marinho na casa de praia de Angra dos Reis onde traçavam os fios do vento político das organizações Globo. Era impressionante o número de personalidades brasileiras e internacionais que Serpa conhecia, sua agenda era em papel de embrulho dobrado que só ele entendia e, segundo ele, dava para engolir em caso de emergência. Almoçava toda 6ª feira no mesmo restaurante no centro do Rio com um grupo de amigos e comia sempre o mesmo prato, sem variar. 

A extraordinária capacidade de se adaptar aos regimes politicos vinha de sua bagagem intelectual. Serpa tinha uma casa vizinha à residência onde morava na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, só para abrigar seus livros de História e Filosofia. Era apaixonado por filosofia. Tinha também enorme arquivo de documentos importantes, discursos manuscritos e datilografados desde o Presidente Dutra – era casado com uma neta de Dutra – passando por Vargas, JK, Goulart, Castello, Costa e Silva, Medici e Figueiredo, mas chegou ao Governo Lula, com quem tinha ótimas ligações, José Dirceu frequentou sua casa.

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Partiu de Serpa a ideia de ligar a PETROBRAS a PDVSA, ele tinha ótimas ligações internacionais e conhecia a cúpula da petrolífera venezuelana. Foi de sua cabeça a construção de uma refinaria em sociedade da Petrobras com a PDVSA, a hoje refinaria Abreu e Lima em Recife, negócio acertado em Caracas e Washington, na mesa cativa da PDVSA no estrelado restaurante Citronelle na capital americana. E isso no começo do governo Chavez que ainda estava em lua de mel com o mundo e com os cofres abarrotados de dólares.

Serpa tinha paixão pelos bastidores do Poder, não ligava para dinheiro e apesar de insistentemente instado para escrever suas memórias, nunca aceitou a ideia. Seu arquivo de cartas e documentos daria um excepcional livro sobre o pano de fundo da História brasileira de Dutra até Lula.

Tive o imenso prazer de frequentar sua acolhedora casa por muitos anos e com ele entender muito da História brasileira na melhor fonte.

Falecido no ultimo dia 20, aos 96 anos, leva com ele parte da narrativa dos bastidores mais profundos da vida politica brasileira nas ultimas 7 décadas.

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5 comentários

  1. Um acervo que não merece desconsiderado

    A despeito de toda “revolução digital”, bons historiadores continuam a relevar a máxima de que nada substitui o manuseio da poeira e do pó das fontes primárias e o seu garimpo incessante. Graças a iniciativas de centros de primeira linha, temos no Brasil importantes locus de abrigo de riquíssimos materiais históricos – cartas, anotações, diários, depoimentos orais, etc -, que, em um segundo momento, tem servido para conformar e dar tônica a livros, teses, artigos de relevo para o acervo histórico e historiográfico brasileiro. Como exemplo desses centro de excelência, temos  CPDOC – da Fundação Getúlio Vargas https://cpdoc.fgv.br/ . Tenho minhas dúvidas, mas acredito que institutos privados como o Moreira Salles também dispõe e uma estrutura semelhantes.

    Certamente, o legado de materiais primários de Serpa mereceria toda uma atenção por parte de historiadores brasileiros Seria um grande disperdício abrir-se mão dessa materialidade, dada ao olhar aguçado de bastidores em que o personagem Serpa teve ao longo de importantes e decisivos momentos da história recente do país. 

     

     

  2. Um pouco mais do mesmo:

    entre outros casos, este cidadão esteve envolvido em títulos frios emitidos pela siderúrgica Mannesmann (hoje Valourrec)!

    Chegou a ser preso e algumas mãos de policiais “escorregaram”, segundo diversos relatos:

    https://glamurama.uol.com.br/saiba-quem-foi-jorge-serpa-maior-interlocutor-entre-roberto-marinho-e-os-politicos-poderosos/

    Mais aqui:

    http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_07&pagfis=66024&url=http://memoria.bn.br/docreader#

     

     

  3. Só sei que é assim!!!!

    Lobista e oportunista defendeu com afinco o andar de cima, epitáfio pouco lisonjeiro na lapide e na historia.

    Querem e defendem um mundo funcionado assim, que miséria humana!

     

  4. Lendo o livro da historiadora

    Lendo o livro da historiadora Marcia Camargos “Villa Kyrial: crônica da Belle Epoque paulistana” e a sua tese de pos-doutorado “Entre vanguarda e a tradição. Os artistas brasileiros na Europa (1912 – 1930)”, tem-se a imagem de um Pais sem preocupação em guardar, catalogar e divulgar sua historia, sua arquitetura e até suas obras de artes e artistas. Marcia relata de como os herdeiros do então advogado e homem de cultura, José de Freitas Valle, passado o enterro do pai, trataram de esvaziar a bela Villa Kyrial para vendê-la e colocaram fogo em seus papéis, suas correspondências… Como um Pais sem memoria, sem passado, pode ter futuro ? 

    Espero que o mesmo não se dê com o legado de Jorge Serpa e quem sabe teremos um livro com suas cartas, agendas, encontros, enfim, a historia do Pais em mais de cinco décadas. 

    • É verdade.

      Muito correto o seu ponto. Por vezes, muitos consideram essas “histórias de bastidores” como um material de segunda mão pelo fato de, na maioria dos casos, não ter o selo ou chancela de um scholar. É o mesmo desinteresse que literatos mais ortodoxos tinham sobre “sonetinhos” de Vinicius, até este ter a sua estatura resgatada por Antônio Candido

      Obrigado pela rememoração deste livro.

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