Memória: Jorga Atalla, a Copersucar e a OBAN

Atalla entrou e a primeira coisa que me disse foi estupenda, confirmando que minha intuição estava certa: – Patricio não f… patrício. Então que negócio é esse de dizer que eu assassino pessoas?

Quando Ernesto Geisel assumiu a presidência, em 1975, passou a impressão de que traria uma lufada de civilização ao regime militar, após os trágicos anos da Junta Militar e do governo Médici. Tinha como conselheiro o general Golbery, incensado por parte da imprensa como democrata,

Os livros do Elio Gaspari, fundamentais para entender o período, desfizeram o mito que o próprio Gaspari ajudou a criar na época. Na essência, Geisel talvez fosse menos preocupado com direitos humanos que o próprio Médici.
Em todo caso, quando assumiu a presidência, herdando uma inflação camuflada deixada por Delfim Neto – Ministro da Fazenda de Médici – abriu uma brecha na frente militar, permitindo algum espaço para o jornalismo criticar o período anterior.

O novo Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, e o novo presidente do Banco Central Paulo Lyra, entraram endurecendo, liquidaram alguns bancos (Halles, Independência Decred), quase provocaram uma crise bancária e depois recuaram um pouco.

Começando no jornalismo econômico, consegui emplacar minha primeira matéria especial com a denúncia dos escândalos financeiros da era Médici. No Estadão, quem se valeu do espaço aberto foi Antonio Machado, amigo e em início de uma brilhante carreira.

Na época, as matérias mais críticas que levantávamos acabavam publicadas (com pseudônimo) no jornal Movimento. Com o espaço recém-aberto, tentei convencer a Veja a dar uma matéria sobre Jorge Wolney Atalla, presidente da Copersucar. À frente da cooperativa, Atalla foi um desbravador, entrando no mercado norte-americano, adquirindo um fabricante de café. Enfim, um dos exemplos do Brasil Grande, cantado por Delfim Netto.

Na época, Atalla tinha bancado a escuderia de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1 e era considerado um dos principais financiadores da Operação Bandeirantes, a temível OBAN, núcleo da tortura no país.

Correspondente do The Guardian, o Bernardo Kucinsky conseguiu informações importantes sobre Atalla, trocamos figurinha e levei a proposta de matéria para o Emilio Matsumoto, que dividia a editoria de Economia com o Paulo Henrique Amorim.

Matsu consultou “a casa” – ou seja, Roberto Civita -, que deu luz verde

Saí a campo, recolhendo dados.

Dias depois, soube que Atalla tinha sido recebido pelo Roberto Civita. Fiquei preocupado. Mais ainda quando recebi um telefonema da secretária de Atalla, dizendo que ele queria conversar comigo. Ficou claro que chamara Atalla para negociar as verbas publicitárias da Copersucar.

Tendo algum contato com Paulo Belotti – o supertecnocrata, tido como homem de confiança de Geisel – telefonei para ele, atrás de alguma luz. Sua reação foi de temor de Atalla. Se o supertecnocrata temia Atalla, o que fazer?

Confesso que vi a viola em caco.

Na época, morava no mesmo prédio dos meus pais. Seu Oscar tinha sido derrubado por um derrame. Antes de sair para a reunião, conversei com dona Tereza, expliquei a situação, disse-lhe que não tinha ideia do teor da conversa. Mas, se eu não voltasse, que entrasse em contato com seu Aziz Nader.

O velho Aziz era o patriarca da colônia libanesa em São Paulo. O patriarca era o mediador dos conflitos da colônia. Aziz tinha sido padrinho de casamento de meu pai, e seu filho Fuad meu padrinho de crisma.

Cheguei à reunião com Atalla. Na sala, Ernani Donato, até algumas semanas antes relações públicas da Abril e que pulara para a Copersucar graças ao favor prestado, de dedar minha reportagem..

Antes de Atalla entrar na sala, Donato me contou os motivos da visita a Roberto Civita: acertar algumas capas de Veja. Contou-me para tirar qualquer veleidade que eu pudesse ter, a respeito do respaldo da Abril.

Atalla entrou e a primeira coisa que me disse foi estupenda, confirmando que minha intuição estava certa:

– Patricio não f… patrício. Então que negócio é esse de dizer que eu assassino pessoas?

Balbuciei algumas explicações, disse que as informações não eram minhas, mas do The Guardian, ele retrucou que era um jornal esquerdista.

Não me lembro de mais detalhes da conversa. Sei que saí dali bem inseguro, mas o caso não teve desdobramentos, a não ser no redirecionamento das campanhas publicitárias da Copersucar

Reencontrei Atalla muitos anos depois no Hotel Nacional, em Brasilia. Subimos no mesmo elevador, ele alquebrado, sem conseguir sequer levantar a cabeça. Reconheceu-me, cumprimentou-me e agradeceu menção que tinha feito, pouco antes, ao seu espírito empreendedor.

De fato, nos tempos do “milagre”, foi o empresário brasileiro que mais ousou, ainda que escudado na Copersucar. Quebrou com o crédito fácil que lhe foi aberto pelo Banco do Desenvolvimento do Paraná

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6 comentários

  1. A roubalheira aliada ao autoritarismo e ao terrorismo de estado, como sempre.
    Nada mais igual ao que vivenciamos atualmente.
    Pobre país de merrecas.

  2. E é só isso.
    Um texto com final inacabado igual nouvelle vaugue?

    Não.
    Quem ler as entrelinhas poderá entender boa parte da história do que chamam de jornalismo.
    E a suposta urbanidade entre os personagens é uma metáfora:

    Os verdadeiros heróis (e jornalistas?) estarão sempre mortos.
    A sobrevivência é, per si, um ato de imoralidade.
    O texto te explica Nassif como nenhuma (auto)biografia seria capaz.

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  3. Nassi, acabei não entendendo se o Jorge Atalla foi mesmo o grande financiador da OBAN.
    Até esse momento, eu achava que tinha sido o banqueiro Gastão Vidigal, do Banco Mercantil.

    • À exceção de José Mindlin e os Ermírio de Morais, todos os grandes empresários de SP, industriais, banqueiros, comerciantes, pecuaristas, etc…, até mesmo dono de curso de ensino, o João Carlos Di Gênio.

    • Renato: eu sabia diferente, invertido da sua afirmação. Dr. Atalla (assim era chamado à época) era homem de pensamento rápido e objetivo. Revolucionou no empresariado paulista. Se não me trai a memoria, também patrocinou o 1º Torneio Internacional de Tênis, no Ibirapuera, com a presença dos mais famosos atletas daquela época. Tinha visão ampla, mesmo antes do escritor ErnaniDonato entrar na Copersucar. Acho que Nassif nos deve o desdobramento deste artigo, cujus detalhe ele conhece como poucos e podem trazer luz a alguns fatos da DitaMole envolvendo a Operação OBAN e similares (não era uma desgraça isolada), seus partícipes e financiadores. Também uma visão panorâmica do empresariado da época.

  4. Não sofremos por aquilo que não vemos. O tempo apaga tudo. Eu moro a poucas quadras da delegacia da Rua Tutóia, que era a sede da OBAN. Foi lá naquele prédio banal, que tantos morreram e tantos mais foram torturados. Ali, Virgílio Gomes da Silva morreu destruído pelos agentes do Sérgio Fleury – segundo Elio Gaspari, ele morreu chutando seus torturadores e neles cuspindo.
    Passo sempre na porta, na calçada, e lá entrei duas vezes pra fazer burocráticos BOs. Aguardei minha vez de ser atendido, olhando as paredes e os corredores hoje limpos e silenciosos, sem sangue, e tentando ouvir as vozes do silêncio…

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