Naquela mesa está faltando ele, por Nirton Venancio

Além de grande compositor, Jacob do Bandolim foi um entusiasta, um obcecado pela preservação da memória brasileira, gravava shows e eventos ligados à música instrumental.

Jacob do Bandolim - MIS

Naquela mesa está faltando ele

por Nirton Venancio

Na tarde de 13 de agosto de 1969, uma quarta-feira ensolarada, o grande compositor Jacob do Bandolim passou horas na casa do mestre Pixinguinha, no bairro de Ramos, Rio de Janeiro.

Conversaram sobre a música como tecido em suas vidas, filosofaram sobre a vida como matéria e sonho em suas composições, e entre goles de café riram uns chorinhos na flauta, bandolim e cavaquinho. Planejaram gravar um novo disco, dando sequência ao “Pixinguinha 70”, lançado em 1968, que abre com o clássico “Carinhoso”.

Lá fora o país vivia outros choros sob o céu de chumbo do AI-5 do general Costa e Silva, que sofreu uma trombose e faleceu no final daquele mês. Uma junta militar destituiu o vice Pedro Aleixo do cargo e deu posse ao mais terrível dos ditadores, Garrastazu Médici. Outros piores choros se multiplicaram nos porões da repressão, abafados pelos festejos do Brasil tricampeão mundial de futebol no ano seguinte.

Jacob despediu-se de Pixinguinha e seguiu de volta para sua residência em Jacarepaguá, com as ruas cariocas se desfazendo do dia e encostando no anoitecer.

Em algum rádio, por onde Jacob passou, Wilson Simonal cantava lembrando que “morava num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”. O samba-soul, composto por Jorge Ben, fora lançado uma semana antes, e os militares se apossaram do tom ufanista da canção enviesando com a propaganda nacionalista.

No mesmo Rio de Janeiro que continuava lindo, Gilberto Gil exaltava um hino de despedida deixando aquele abraço pra moça da favela, pra todo mundo da Portela e pra torcida do Flamengo. Com o compacto “Aquele abraço” o baiano de barba e calça Lee partiria para o exílio em Londres, dormir em sleeping bag e sonhar com a Bahia que lhe dera régua e compasso.

Jacob do Bandolim chegou em casa e já era noite. Parou um pouco na varanda, cansado. Rodava em sua cabeça aqueles dois volumes do disco tão bonito onde tocou acompanhando Elizeth Cardoso, Zimbo Trio e Época de Ouro, gravados ao vivo no show no Teatro João Caetano, em fevereiro do ano anterior. “Ponteio” de Edu Lobo e Capinam, “Consolação”, de Baden e Vinicius, “É luxo só”, de Ary Barroso, “Canção do amor demais”, de Tom e Vinicius, “Mulata assanhada”, de Ataulfo Alves, “Feitio de oração”, de Noel Rosa, e tantas outras pérolas de um Brasil musical abençoado por Deus, que dava aquele abraço divino em todo povo brasileiro para resistir aos tempos sombrios que pioravam.

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O mestre Jacob da varanda entrou em casa cambaleando, sentiu-se mal logo na sala. Sua esposa Adylia correu e o acudiu. O marido faleceu em seus braços. Um infarto fulminante silenciou o bandolim de Jacob. Tinha 51 anos.

Além de grande compositor, Jacob foi um entusiasta, um obcecado pela preservação da memória brasileira, gravava shows e eventos ligados à música instrumental. Deixou uma vasta coleção de discos, que cuidava com esmero em sua casa.

Em 2002, o produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho, conseguiu, depois de muito trabalho, criar o Instituto Jacob do Bandolim, onde estão, felizmente, preservados e digitalizados quase 6000 gravações de áudio, mais de 1500 documentos pessoais, e sua coleção de vinil.

Na foto, Jacob com seu bandolim número 1, 1938, hoje incorporado ao Acervo do MIS.

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