Um pequeno gigante nos deixa deixando um rastro de exemplo de vida, por Rogério Maestri

Recebi a notificação de queda de um pequeno gigante frente a Covid: o Professor Eurico Trindade de Andrade Neves

Um pequeno gigante nos deixa deixando um rastro de exemplo de vida

por Rogério Maestri

Recebi a notificação de queda de um pequeno gigante frente a Covid: o Professor Eurico Trindade de Andrade Neves, tão pequeno em tamanho que para seus milhares de ex-alunos e amigos era conhecido carinhosamente como Professor Pingo d’Água (não seria redundante dizer que ele era professor de hidráulica). Ele era pequeno em tamanho, mas um gigante, naquilo que define o que o separava dos humanos comuns: o caráter, o respeito o carinho a todos e uma vida impecável sem manchas.

O prof. Eurico da UFRGS junto com o Prof. Azevedo Neto da USP foram os pioneiros em escrever livros de hidráulica em língua portuguesa e devido essa ingrata e pouca reconhecida tarefa, eram chamados para participarem de bancas de todos os graus na academia desde Mestrado até livre docência, ou seja, os dois além de amigos definiam quem tinha condições de ocupar os postos máximos no meio acadêmico em praticamente todas as escolas de engenharia que existiam no passado.

Como a profissão do magistério superior era considerada uma espécie de sacerdócio, o governo federal nem se preocupava com a sua remuneração, porque na época se pensava que religiosos trabalhavam só por vocação. Ele ocupou diversos cargos públicos trabalhando como engenheiro, chefe de setor e chegando ao cargo de secretário de estado. No governo do também saudoso Leonel de Moura Brizola foi indicado a Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul, onde exerceu a presidência ocupando esse cargo até sua aposentadoria. É importante dizer que o Engenheiro Brizola assinou sua nomeação próximo ao fim do seu governo, e seu sucessor de oposição não titubeou um minuto em confirmar a sua posse.

Como o professor Eurico nasceu na cidade de Rio Grande e não na Capital, devido as muitas contribuições que fez a capital, em 07.04.1988 recebeu por proposta das Bancadas do PMDB, PDS, PCB e PC do B o título de Cidadão Porto alegrense, não preciso dizer que a votação pela concessão do título foi por unanimidade numa Câmara de Vereadores que tem dificuldade de ser unânime até para dar nome de ruas e avenidas ou mesmo negou o título a outros postulantes por pequenos desvios na suas vidas.

Ele era o exemplo de Republicanismo, a divisão entre o público e privado era límpida como as águas saídas das diversas estações de tratamento de água que ele dimensionou. Sua visão clara do conceito pode ser percebida através de um fato que ouvi de sua Esposa Helena, mais como uma anedota do que reclamação. Como presidente do tribunal de contas um carro oficial vinha lhe buscar pela manhã e, mesmo que o trajeto fosse exatamente o mesmo que Helena, ela deveria ir de Taxi. Aos risos ela me contou que num deferimento todo especial, somente uma vez quando caia uma tromba d’água, daquelas que guarda-chuva não servem para nada, o Prof. Eurico, sem que desviasse um metro do trajeto oficial, permitiu que ela viajasse junto ao seu esposo por poucos quilômetros até um local próximo ao tribunal.

O professor Eurico era uma daquelas figuras intocáveis em todos os postos que ele atuou, desde cargos executivos no Governo Leonel Brizola, na presidência do conselho de curadores da UFRGS e principalmente no mais importante para ele, dentro de suas sagradas aulas de hidráulica para os milhares alunos que ele formou (os milhares não é figura de linguagem). Tinha uma paciência imensa, para um aluno ser reprovado em sua disciplina tinha que fazer pelo menos umas quatro ou mais recuperações, que o professor ficava até altas horas da noite corrigindo-as para dar tempo de o aluno fazer mais uma recuperação.

Nas várias visitas das quais tive o imenso prazer de fazer à casa do professor para ouvi-lo, – e oportunisticamente receber de presente livros de hidráulica -, quando me referia a um de seus ex-alunos que já era um engenheiro formado, o gigante Eurico com sua memória fantástica em poucos minutos emitia uma opinião não só sobre o desempenho acadêmico de um fulano de tal formado por ele lá por volta ou de 1948 ou de 1980, mas também por características mais notáveis de seus ex-alunos. Sempre vinham palavras que mostravam que alunos não eram números, mas sim pessoas que ele observava com zelo e carinho.

Quando depois de monitor de Hidráulica do professor Eurico, me tornei um colega (de uma dimensão muito menor do que o Mestre). Disputava descaradamente o posto de ex-aluno mais querido com o Professor Eudes Antidis, até o dia que ele reconheceu a sua derrota. Este posto de suma importância, para mim, mais valeu do que qualquer condecoração oficial.

Por seu caráter, por sua devoção a causa pública, pelo seu amor e compreensão aos seus alunos – sem necessário dizer a sua atenção e cuidado a família -, um gigante saiu de cena, porém a sua grandeza somente quem o conheceu consegue quantificá-la. E aqui deixo a minha pequena homenagem, que não consegue nem descrever com palavras suficientes a estatura desse homem.

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