Usina de esperanças, por Jorge Sanglard

Símbolo maior do pioneirismo industrial de Juiz de Fora na virada do século XIX para o século XX, a antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas foi a primeira indústria têxtil movida a energia elétrica da América do Sul

Passeata “Mascarenhas, meu amor” em Juiz de Fora - Foto Heitor Magaldi

Usina de esperanças

por Jorge Sanglard*

Ícone da industrialização mineira e brasileira, a pioneira fábrica Bernardo Mascarenhas teve suas antigas e abandonadas instalações transformadas, há 32 anos, em 31 de maio de 1987, num amplo centro cultural em Juiz de Fora. O momento crucial dessa conquista foi a realização de uma passeata, há 36 anos, reivindicando a retomada do marco do pioneirismo industrial brasileiro como uma fábrica de cultura. Ao lançar um feixe de luz na produção artística de Minas Gerais, como uma usina de esperanças, a velha fábrica têxtil abriu um novo caminho para a arte e a cultura. Símbolo maior do pioneirismo industrial de Juiz de Fora na virada do século XIX para o século XX, a antiga Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas foi a primeira indústria têxtil movida a energia elétrica da América do Sul e projetou Juiz de Fora como cidade pioneira na utilização da energia elétrica também no sul da América, sendo chamada de Manchester Mineira.

Bernardo Mascarenhas e seu sócio, Francisco Batista de Oliveira, em 22 de agosto de 1889, davam início ao funcionamento, ainda experimentalmente, da Usina Hidrelétrica de Marmelos, oficialmente inaugurada em 5 de setembro de 1889, como primeira usina hidrelétrica da América do Sul, possibilitando a implantação da iluminação pública em Juiz de Fora e gerando energia elétrica para a CTBM. O objetivo inicial da Companhia Mineira de Eletricidade era promover a iluminação pública e particular da cidade durante a noite e gerar força motriz para o funcionamento da CTBM e de outras fábricas durante o dia.

Depois do apogeu industrial na Zona da Mata mineira, a região sofreu com a estagnação econômica e a fábrica, ocupando uma área de mais de 10 mil metros quadrados no coração da cidade, foi perdendo espaço para as novas tecnologias até ser abandonada e ter uma parte interna de sua estrutura destruída. Símbolo da resistência, sua fachada e amplos salões permaneciam desafiando o tempo e clamando proteção. Até que o conjunto arquitetônico, por pressão da comunidade cultural e mudanças no poder público municipal, foi tombado pelo patrimônio histórico do município, em 1983, e o prédio da fábrica têxtil Bernardo Mascarenhas, pertencente desde 1979, por decisão judicial, ao Estado de Minas Gerais, Receita Federal e ao antigo Iapas, passou a ser reivindicado por amplos setores artísticos de Juiz de Fora que, mobilizados em torno do movimento “Mascarenhas, meu amor”, articularam um manifesto contendo milhares de assinaturas e realizaram, em 30 de julho de 1983, uma passeata cultural reunindo expoentes das artes em Minas Gerais e no Brasil.

Rubem Fonseca, Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti, Carlos Bracher, Fani Bracher, Nívea Bracher, Décio Bracher, Dnar Rocha, Rui Merheb, Jorge Arbach, Renato Stehling, Rachel Jardim, João Guimarães Vieira (Guima), Roberto Vieira, Arlindo Daibert, César Brandão, Fernando Pita, Walter Sebastião, Martha Sirimarco, Luiz Ruffato, José Santos, Fernando Fiorese, Kim Ribeiro, Henrique Simões, Guilherme Bernardes, entre muitos outros, marcaram presença na histórica passeata e defenderam a transformação da antiga indústria têxtil numa autêntica fábrica de arte, servindo de canal para que a cultura pudesse ser determinada por quem a faz.

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O poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que, em 1956, serviu o Exército como soldado na Subsistência, do outro lado da rua, declarou explicitamente todo seu sentimento pela campanha “Mascarenhas, meu amor”: “Nós que ali passávamos quando crianças e que a pensávamos eterna, estávamos, de repente, sendo convocados para a sua reconstrução, ou melhor, reinvenção. Um grande mutirão puxado por batalhadores locais logrou derrotar todos os empecilhos, e hoje lá está a Mascarenhas. Seus teares são outros. Seus operários são outros. Seus produtos são outros. A arte e a cultura são tão essenciais, e, por sinal, mais duráveis que o que antes ali se produzia. Eu, como se tivesse ainda um invisível fuzil, um imponderável capacete, do lado de cá a vigio amorosamente. Mascarenhas, uma usina de esperanças”.

O encerramento total das atividades da fábrica ocorreu em 14 de janeiro de 1984, mas a partir da mobilização de julho de 1983, jornalistas, artistas plásticos, escritores, atores, músicos, fotógrafos, professores, estudantes e amplos setores da comunidade juizforana ganharam as ruas, ampliando a articulação da campanha “Mascarenhas, meu amor”, e conseguiram sensibilizar o poder público para o resgate da alma da velha fábrica e transformá-la num amplo centro cultural. Exemplo concreto de uma luta anônima e grandiosa, porque impessoal e comunitária, o movimento “Mascarenhas, meu amor” conquistou uma significativa vitória e demonstrou a força da mobilização da comunidade na defesa de seu patrimônio histórico, artístico e cultural. Inaugurado em 31 de maio de 1987, há 32 anos, o então Espaço Mascarenhas recuperou arquitetonicamente o prédio, mantendo as características essenciais da construção centenária, e abriu novas perspectivas para o movimento artístico mineiro.

As primeiras obras de restauração da velha fábrica foram iniciadas pela Prefeitura, em 1985, transformando num complexo de cultura, lazer e comércio o conjunto arquitetônico, que é o marco mais expressivo do pioneirismo industrial de Juiz de Fora no final do século XIX. A partir de 1987, a velha fábrica passou a tecer a nova história da cidade e de Minas e uma nova reforma reordenou o espaço interno do renomeado Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, em 19 de janeiro de 2000, e a Prefeitura e a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – Funalfa reafirmariam o compromisso assumido em 1987 de transformar a velha fábrica numa usina de cultura. Prefeito nas duas ocasiões, Tarcísio Delgado destacou a importância da cidade restaurar um patrimônio tão valioso para a memória. Nos primeiros anos de atividade como núcleo de artes, entre encontros e desencontros, a antiga indústria têxtil pioneira passou a abrigar as mais diversas manifestações artísticas, mas não conseguiu expressar em sua plenitude os anseios dos produtores culturais e artistas juiz-foranos, que sempre reivindicaram investimentos, participação efetiva na gestão e condições adequadas para o desenvolvimento do potencial cultural da cidade.

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Ao efetivar, a restauração do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas e definir, com a participação dos setores artísticos, as diretrizes gerais para uma ocupação democrática, a partir de 2000, a Funalfa contribuiu para recuperar um pouco da essência do movimento que possibilitou à cidade conquistar as instalações da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e vislumbrar um dinâmico núcleo do fazer cultural. No entanto, sempre respeitando e preservando os aspectos originais da construção centenária e, ao mesmo tempo, dotando o espaço da infra-estrutura necessária para abrigar a intensa produção cultural juiz-forana, foram construídos seis ateliês: gravura e serigrafia, desenho, cerâmica, fotografia, pintura e multimeios. A Videoteca João Carriço ganhou um local adequado, com mais conforto, e ainda foram criadas três modernas galerias, homenageando três referenciais das artes plásticas de Minas: Arlindo Daibert, Celina Bracher e Heitor de Alencar. Um auditório com 40 lugares e duas salas para aulas e workshops foram instaladas, além da instalação da Sala de Encenação Flávio Márcio para abrigar manifestações de teatro, dança e música.

Em 2012, a administração municipal de Custódio Mattos realizou outra reforma nas instalações do CCBM, recuperando parte do telhado e de vigas de madeira da sustentação.

Mas o investimento realizado ao longo desses 32 anos nunca foi suficiente para tornar o centro cultural autônomo e dinâmico, como sempre reivindicou o setor artístico. O princípio básico que norteou todo o processo de resgate do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas como uma fábrica de arte e cultura é a defesa da democratização do espaço artístico e a luta pela efetiva participação dos setores culturais na consolidação de um núcleo de arte compromissado com os interesses da comunidade. Com força, fé e união, os artistas e produtores culturais juiz-foranos vêm conseguindo fazer do sonho de revitalizar a antiga fábrica, nas últimas duas décadas, um centro impulsionador da criatividade e do pioneirismo que marca a cultura elaborada em Juiz de Fora ao longo dos últimos 169  anos.

Bernardo Mascarenhas, um visionário

Nascido há 172 anos, na Fazenda São Sebastião, em Paraopeba,  Bernardo Mascarenhas (30/05/1847 – 09/10/1899) encarnou o espírito empreendedor dos pioneiros, que impulsionaram a industrialização de Juiz de Fora, desenvolvendo ousados projetos tecnológicos às vésperas da virada do século XIX para o século XX. Atraído pelas possibilidades oferecidas pela cidade, em 1887, o empresário chegou de Curvelo para iniciar a construção da Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas e criar, em 7 de janeiro de 1888, a Companhia Mineira de Eletricidade. Em 14 de maio de 1888, Bernardo Mascarenhas instalava a Companhia Têxtil Bernardo Mascarenhas com 64 teares ingleses da marca George Hogson e máquinas norte-americanas de preparação de fio fabricadas por Robert Hall & Sons. A produção diária de tecidos chegou a atingir a marca de 2 mil metros.

A Usina Hidrelétrica de Marmelos foi oficialmente inaugurada em 5 de setembro de 1889 transformando-se na primeira usina hidrelétrica da América do Sul, propiciando a implantação da iluminação pública em Juiz de Fora e gerando energia elétrica para a fábrica têxtil. Bernardo Mascarenhas optou por implantar em Juiz de Fora o sistema Westinghouse, que transmitia a energia em forma de corrente alternada, apresentando custos mais baixos, na época, e que facilitava a transmissão das linhas.

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A ampliação das instalações da fábrica, que inicialmente produzia com fios ingleses zefires e brins de algodão e linho, foi sendo progressivamente efetuada. O crescimento da fábrica levou ao aumento do número de teares, à montagem de uma tinturaria e de uma oficina mecânica e à instalação de um motor elétrico monofásico de 30 Hp Westhinghouse, o primeiro motor elétrico para fins industriais do país, inaugurado em 27 de agosto de 1898. Foi ainda instalada uma fiação, dando fim ao problema de abastecimento de fios, e ainda ocorreu o aperfeiçoamento dos tecidos a partir da instalação de máquinas de acabamento, tecelagem de flanelas, colchas e cobertores.

Nesse período, as instalações foram ampliadas de acordo com projeto do arquiteto e engenheiro L. Sue e a fábrica passou a ter a fachada que ainda hoje ostenta como marco da industrialização de Juiz de Fora. Depois da morte de Bernardo Mascarenhas, em 9 de outubro de 1899, aos 52 anos, seu genro Agenor Barbosa assumiu a gerência e deu continuidade ao projeto de L. Sue, realizando novas ampliações e modificações estruturais. Na década de 1920, todo o projeto arquitetônico estava concluído inclusive com a instalação de uma malharia, que possibilitou a conquista total do mercado de têxteis.

Com o resgate do conjunto arquitetônico da antiga fábrica e sua transformação num dinâmico núcleo de cultura, com oficinas de arte, galerias, videoteca e sala de encenação, a cidade prestou um tributo à memória dos pioneiros que, a exemplo de Bernardo Mascarenhas, impulsionaram a industrialização e o crescimento de Juiz de Fora e de Minas Gerais.

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*Jorge Sanglard é jornalista e pesquisador. Escreve em jornais de Portugal e do Brasil.

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1 comentário

  1. Explêndida essa epopéia de Bernardo Mascarenhas; e muito valiosa a iniciativa dos artistas em resgatar as antigas instalações em benefício da arte nessa cidade de tradições culturais e artísticas tão importantes, mas infelizmente burocratas sem o mesmo espírito não tem correspondido à altura.
    Por exemplo, 0s ateliês de arte estão sub utilizados, e inclusive o ateliê de gravura, com preciosa prensa, foi transformado em depósito, apesar de existirem artistas que se ofereceram para dinamiza-lo sem custos para a instituição.

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