A pornografia e o jornalismo da grande imprensa, por Tiago de Castilho Soares

A pornografia e o jornalismo da grande imprensa

por Tiago de Castilho Soares

Se a pornografia é entediante, como afirmou Pasolini, o jornalismo da grande imprensa é muito entediante. Tanto na pornografia convencional quanto nesse jornalismo à la globo, as narrativas são previsíveis, o roteiro conhecido e nada muda a não ser os atores.

A pornografia e o jornalismo não expressam exatamente como a realidade acontece, eles aproximam, mas distorcem. O que vemos e ouvimos é, aqui e ali, no pornô ou num radialismo da CBN, por exemplo, o que vemos e ouvimos é a realidade na casa de espelhos. Na pornografia, embora revelando os corpos e seus órgãos, o que vemos não é bem a realidade verossímil: os homens estão com o pênis maior que a média, as mulheres são todas modelos e jovens, os desempenhos são sempre impecáveis. No jornalismo, embora revelando os fatos e seus segredos, o que vemos não é bem a realidade verossímil: as conclusões são enunciadas em alto volume enquanto as premissas e suas relações permanecem inaudíveis, os jornalistas sempre isentos, como juízes-deuses, são impecáveis e impiedosos.

O jornalismo e a pornografia aprisionam, são tão mais normativos quanto a moral e o direito, pois estão camuflados com a bandeira da liberdade. A pornografia, defendendo a liberdade sexual, impõe para milhões de pessoas qual é o modo certo de ter prazer (como, quando, onde e com quem devemos ter prazer). O jornalismo, defendendo a liberdade de expressão, impõe para milhões de pessoas qual é o modo certo de saber sobre a realidade e avaliar a política (como, quando, onde e contra quem devemos nos impor). Num e noutro os clichês, a ordem das práticas e a correta reação das sensações atuam como camisa de força.

A pornografia e o jornalismo dialogam com as fantasias das pessoas: as pessoas se identificam com os corpos e as ideias da pornografia e do jornalismo. O público masculino da pornografia tradicional se identifica, ao ponto de gozar, com o pênis alheio, o big pênis do ator pornô. Um grande público, majoritário mesmo, se identifica a ponto de gozar com os preconceitos e juízos dos âncoras do jornalismo predominantemente policial da grande imprensa. Quantos orgasmos não têm produzido as imagens dos cassetetes dos policiais chocados contra os corpos de manifestantes. Quanta volúpia sexual não causam os corpos perfurados e dilacerados por balas, exibidos e justificados no jornalismo policial? Só a pornografia mais sádica, que privilegia o órgão ante o corpo e o corpo ante a pessoa, se compara ao o prazer perverso do público da grande imprensa. A fantasia ganha forma e as transmissões assumem um caráter orgástico: a velocidade, a cadência, os tons de voz. A fantasia ganha forma e se impõe uma moral mais repressiva, um sexo mais violento.

O auditório está ativo na pornografia e no jornalismo. Há de se rever toda a crítica que demoniza a grande imprensa ou a pornografia e relega para um segundo plano o público. Há sempre uma identificação acentuada, o público encarna as práticas e os discursos, há um partidarismo exaltado pelos personagens, sejam atores pornôs ou os jornalistas juízes.

O jornalismo e a pornografia são dois gêneros da efêmera e trivial mídia que atua cotidianamente sobre nossas vidas. O efêmero, o rotineiro, a imagem e som que se esvai, para dar lugar a outro, idêntico, repetido, é diferente apenas para servir de nova embalagem para o consumo.

Os atores pornôs e os jornalistas exercem os seus papéis por dinheiro e também por prazer. Colocam em serviço seus corpos e suas línguas, são dirigidos, estão sob a luz do estúdio. A língua pode ser usada para dar prazer a um homem, a uma mulher ou a um grupo de homens: a adulação e a prostituição são duas faces do poder.

Um moralismo tacanho poderia rechaçar essa pornografia convencional e esse jornalismo da grande imprensa. Mas tal reação serviria apenas para impor um outro poder. Bom se outras fantasias, sexuais e políticas, pudessem ganhar voz e romper com a hegemonia de um poder apenas! Há muito a esquerda não tem, como hoje, explorado essas outras fantasias não hegemônicas e produzido um jornalismo que dá tesão e causa prazer, e tal como na pornografia, o desafio é radicalizar a democracia para ampliar o leque de sensibilidades, prazeres e vozes.

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3 Comentários

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AleaJactaEst

- 2017-06-06 21:50:06

As semelhanças foram

As semelhanças foram destacadas, mas há uma diferença que torna o atual estado do jornalismo brasileiro pior do que a pornografia. Aquele que vê pornografia sabe se tratar de uma ficção, de ser um produto criado para atender a satisfação de um consumidor alvo. Quem se informa pelo nosso jornalismo hegemônico toma como verdade o que se vê e escuta, portanto já não é feito nenhuma distinção sobre o que é versão e fato, interpretação e realidade. Nenhuma pornografia causou repercussões tão degradantes a uma nação quanto o jornalismo da mídia brasileira. Os cidadãos tem o direito de ver pornografia como bem quiserem, o que cabe a suas vidas privadas não me concerne. Muito mais preocupante é essa criação de factoides para promover interesses políticos empresariais sob o verniz de jornalismo honesto. É uma ofensa a pornografia compara-la a manipulação descarada e criminosa feita pela nossa imprensa.

trovinho

- 2017-06-06 16:31:41

O Fantástico é tóxico: É FANTÓXICO!

O escapismo traficado em “bocas” midiáticas teve o potencial de produzir cracolândias expandiveis pelos três poderes da república. O assédio sobre as instituições do estado continua: no Fantástico do domingo de 04/06, um comissário burguês doutrinador de política, disfarçado de jornalista isento, esclareceu sobre as mazelas da corrupção, colocando seus números estarrecedores e os partidos do “mal”- PT, PMDB e PP- com cortes descontextualizados para a Dilma e o Lula, mas nada sobre o PSDB, ou o Dem; a matéria jornalística alucinante do “Fantóxico” mostrou  agentes da PF caminhando como abre-alas e comboiando a câmera da Globo que fazia o papel de olhos do telespectador inseguro (dando a ilusão de gozar com o pau alheio, como fazia o Ali Kamel nos anos 80, homônimo em quase tudo do atual diretor de jornalismo da Globo) e aos demais telespectadores com fantasias de serem policiais ao perambularem numa terra arrasada pelo “projeto de poder lulo-petista”, alimentando o histerismo anti-PT dos coxinhas; no outro bloco, a apresentação da nova minissérie, protagonizada por uma juíza – a atriz Glória Pires estava bem parecida com a Carmem Lúcia - , acenando para os moralistas identificados com a casta judicial exibicionista, num drama sobre o  julgamento de infidelidades conjugais que a própria juíza praticava; a prévia criou  uma “torcida” para que a juíza (eles mesmos, os coxinhas) venha a adequar-se ao pragmatismo agora mais que necessário, haja vista que a JBS rasgou a fantasia dos “morolistas”; também poderia ser um recado exigindo e legitimando prevaricações das cúpulas das burocracias de estado, alertando que seriam facilmente alcançáveis por algum dossiê ao terem que julgar e investigar os queridinhos da mídia, como os prováveis crimes da Lava Jato e dos supostos prevaricadores do STF, silente ante o golpe.

Tiago de Castilho Soares

- 2017-06-05 21:31:38

A versão em áudio desse texto

A versão em áudio desse texto foi publicada em: https://soundcloud.com/desceomachado

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