A família já foi arma letal na política

A história de ontem a hipocrisia de hoje.

Mais eficaz do que as denúncias do Ministério Público e as investigações da Polícia Federal, é quando um membro da família de um político resolve tratar seus desafetos em público.

“Tenho muitas coisas para falar, muitas coisas que a gente guardou por anos, anos, pra defender o nome dela e a posição dela. Então ela pode me xingar, ela pode gritar, espernear, falar o que quiser, mentir sobre meu nome, eu não me importo. Não tenho medo e não vou descer ao nível dela, porque se ela não tem educação, os meus pais me ensinaram muito bem. Meus pais me ensinaram muito bem. Sou muito bem educado e vou bater de frente da forma que eu conseguir, da forma que eu achar interessante e educada. (…) Vocês vão conhecer mais da minha priminha”!

“Vou te processar por essa postagem, acho melhor você rever essa postura, deixa de ser cretino, seu moleque”, essa mensagem partiu da primeira dama Michelle Bolsonaro, dirigida ao seu primo Eduardo D’Castro, autor do texto acima, que tem um canal no Youtube e ameaçou revelar ingratidões da ‘criatura’ (como ele trata a prima Michelle).

As delações do doleiro dos doleiros, Dario Messer, não terá a força de uma revelação familiar de peso, como foi a entrevista de Pedro Collor à revista Veja em 1992, que resultou na queda de seu irmão, o ex-presidente Fernando Collor.

Essa briga começou em torno do lançamento de um novo jornal, que concorreria com a Gazeta de Alagoas, das organizações Arnon de Mello, da família Collor. Pedro Collor revelou que Paulo Cesar Farias, o PC Farias, seria o testa-de-ferro do seu irmão em uma empresa de comunicação, que teria o jornal e mais de dez emissoras de rádio.

Na entrevista Pedro levantou suspeitas sobre o crescimento patrimonial de Collor no Brasil e no exterior, além de vantagens no esquema das loterias.

Antes, em 1989, faltando dez dias para o encerramento do horário eleitoral do segundo turno da eleição presidencial, o candidato Collor negociou depoimento da ex-namorada de Lula, Mirian Cordeiro, para que ela revelasse que Lula pediu que abortasse.

O boato de que o depoimento iria ao ar estremeceu o comitê Petista.  Mirian apareceu na última semana do horário eleitoral, no programa do candidato Fernando Collor e disse, em gravação, que Lula a abandonou grávida. A revelação foi bombástica. Lula sentiu o golpe.

Em 2000, Nicéa Pitta, ex-esposa do então prefeito de São Paulo Celso Pitta, o acusou de corromper vereadores, denunciou pressão de Antonio Carlos Magalhães para receber dívidas da OAS e revelou o podre da política malufista em São Paulo, que ficou conhecido como “o escândalo dos precatórios”.

O primo de Michelle pode estar blefando, querendo mídia e seguidores, mas denúncias de parentes costumavam ser letais na época da hipocrisia e da falsa moral. Nos dias atuais ser hipócrita é virtude, questão de vaidade, de status, isso explica a qualidade dos eleitores do atual presidente.

Ricardo Mezavila, é escritor e Pós-Graduado em Ciência Política

 

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