Coronavírus: dados brasileiros contrastam com os do resto do mundo, por Gustavo Gollo

Reportagem de capa do Globo de hoje revela que os dados referentes às infecções por coronavírus no Brasil vêm, nos últimos dias, adquirindo contornos próprios, diferentes dos apresentados no restante do mundo.

A manchete da notícia informa que um quarto das mortes no país está ocorrendo fora dos grupos de risco, em indivíduos abaixo dos 60 anos que não apresentam comorbidades prévias.

Assim, de acordo com os dados brasileiros mais recentes, o alvo do vírus, em nossas terras, vem transbordando do grupo de risco original, generalizando as mortes causadas pela doença que agora se disseminariam por outras faixas.

Os especialistas consultados pelo jornal aventam uma lista de fatores endógenos – próprios da infecção –, que, em princípio, poderiam levar a uma alteração no perfil dos infectados, especulando, por exemplo, de maneira mais tipicamente hollywoodiana que médica, sobre a possibilidade de os brasileiros estarem enfrentando um patógeno mutante mais agressivo para os grupos fora de risco do que o visto em outros países. Ao mesmo tempo, o jornal omite hipótese muito mais provável – certamente referida pelos especialistas consultados –, de que os dados estejam ganhando feições tendenciosas, com o propósito umas vezes deliberado, outras subconsciente, de confrontar o argumento que sustenta a proposta de isolamento seletivo – apenas dos indivíduos vulneráveis, pertencentes aos grupos de risco.

A constatação revela a fragilidade dos dados e mostra o quão facilmente eles podem ser distorcidos por desejos, crenças e demais vicissitudes que os distanciam fortemente da imagem idealizada de dados neutros e indubitáveis. Também abala a confiabilidade dos dados no país.

Elucubro, ainda, sobre a oportunidade de se considerar o retorno do tabagismo entre os fatores de risco para a doença.

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