Coronavírus e o poder chinês

Por Luiz Alberto Marques Vieira Filho* 

A pandemia do coronavírus tem mostrado ao mundo a enorme capacidade de mobilização social e produtiva da China. Enquanto potências ocidentais, como por exemplo os EUA, deixam patentes sua desorganização e fragilidades de suas políticas públicas, os chineses não só foram muito eficientes em debelar a pandemia, como também se tornaram únicos em sua capacidade de promover ajuda internacional em equipamentos, materiais e insumos médicos.

O avanço do poderio chinês já era evidente desde o início deste século. Assim, a China se aproxima de voltar ao patamar de maior potência mundial que ocupou por quase 2 milênios, mas que perdeu o passo a partir de 1750, sobretudo no pós Guerra do Ópio e o Tratado de Nanquim em 1842, que desmantelou a lógica milenar de estabilidade econômica e política.

No entanto, os economistas conservadores têm errado fragorosamente sua interpretação sobre o “milagre chinês”, cujo próprio termo já expressa a ausência de explicações consistentes, ao enfatizar excessivamente o papel do investimento direto estrangeiro e desconsiderando toda a dinâmica interna chinesa. Os analistas ocidentais têm errado suas previsões sobre a sustentabilidade política e econômica do processo de ascensão da China, oscilando entre o retorno da planificação econômica ou o colapso do atual regime. Para Aglietta e Bai (2013), existe uma incompreensão da natureza das reformas promovidas pelos chineses, não se inserindo numa lógica de equilíbrio econômico ótimo, como é comum entre analistas ocidentais. Ao contrário, as reformas chinesas seriam um processo evolucionário de suas estruturas econômicas e instituições políticas. Faltam considerações a respeito da milenar preocupação chinesa com estabilidade política interna, o papel de sua meritocrática burocracia e a lógica de relação entre o poder central, o local e as famílias, bem como esses aspectos se articulam institucionalmente com as empresas. 

A partir da Dinastia Qin (221 – 206 a.c), o poder político na China foi unificado, enquanto a partir da Dinastia Han (202 a.c – 220 d.c.) estabeleceu-se uma estrutura política centralizada, mas ao mesmo tempo flexível para decisões cotidianas em âmbito local. Nesse sentido, a filosofia confucionista teve papel fundamental ao propor a solidariedade como chave para a construção de sociedades estáveis, partindo das relações mais próximas e indo progressivamente para as demais pessoas, o que reforçou a força patriarcal na sociedade chinesa e o papel das famílias. Além disso, a figura do imperador representava, de forma análoga, a figura do pai, mas com o papel de intermediação entre a sociedade secular e as vontades divinas, sendo o responsável pelas boas safras e climas, mas também pelas secas e enchentes. O confucionismo também foi útil para a construção de uma sociedade meritocrática na composição de uma vasta e eficiente burocracia imperial, permitindo que pessoas das mais diversas origens ascendessem socialmente, o que reforçava a aceitação do regime. Os imperadores chineses também eram zelosos em não permitir a concentração de riqueza e poder regional, no que a ausência de política de herança para o primogênito e os limites e o baixo status social dos mercadores também exerceram papel importante, enquanto a preocupação do Imperador e da burocracia com o bem-estar dos agricultores era essencial para dissuadir movimentos reivindicatórios e desestabilizadores. A preocupação com estabilidade interna era fundamental para as dinastias chinesas, uma vez que não havia povos próximos com capacidade de ameaçá-los.

Uma questão fundamental na história chinesa é a chamada “grande divergência” (1850-1950), quando a produtividade e padrões de vida do ocidente descolaram dos resultados orientais.

Considera-se que a China entrou em uma armadilha econômica, com padrões satisfatórios de vida e produtividade no campo, mas que não geravam um excedente de mão de obra capaz de sustentar um processo de industrialização. Ademais, ainda na Dinastia Ming (1368-1644) a China desistiu de suas longas navegações diante dos riscos da pirataria ocidental e do caráter muito mais “soft power” do que mercantil de sua navegação de longo curso. Esse caráter não mercantil da navegação de longo curso chinesas ao mesmo tempo que permitiam uma relação pacífica com outros povos, também impedia a formação de uma burguesia mercantil que pudesse rivalizar com o poder central.

No entanto, a relação com o ocidente e sua política colonial foi deletéria para a China, que passou ver suas moedas de prata exauridas pelo comércio desigual com a Inglaterra, sobretudo nas importações de ópio e exportações do chá. Adicionalmente, a necessidade de financiar guerras como a do ópio (1839-1842 e 1856-1860) e as reparações de guerra acabaram exigindo a elevação de impostos, o que aumentou as revoltas no campo, exigindo ainda mais recursos, o que levou a China a um círculo vicioso de guerras externas exaurindo fiscalmente o estado, que elevava impostos e ampliava as guerras internas, que por sua vez, precisavam exigir ainda mais impostos. O resultado foi o enfraquecimento do poder imperial e instabilidade política.

     A revolução comunista de 1949 logrou unificar o poder central, ao mesmo tempo que a coletivização dos campos, a despeito dos graves episódios de fome, permitiu uma mudança na lógica milenar de sua agricultura de base familiar e de micropropriedades, que eram inaptas para a modernização tecnológica proposta pela tecnologia capitalista e que foi útil para a modernização agrícola após as reformas de 1978, enquanto implantou e profissionalizou uma importante indústria pesada. Mao lutou a vida inteira contra o confucionismo e a lógica capitalista, mas suas reformas permitiram a formação das bases de exatamente o contrário, o reestabelecimento do confucionismo na burocracia e o fortalecimento do capitalismo chinês.  

A China após as reformas de 1978 

A partir de 1978 a China realizou uma série de reformas visando o aumento de sua base produtiva e, conforme sua história milenar, a estabilidade política. O pragmatismo é a marca dessas reformas, ajustando-se a cada realidade e voltando atrás, caso necessário. Nesse processo, os brutais investimentos das empresas estatais, se antecipando à demanda e a criando internamente, ao mesmo tempo que absorvia tecnologias estrangeiras, foi fundamental.

Economistas ocidentais tendem a exagerar o papel dos investimentos estrangeiros, mas que raramente ultrapassaram 10% do total de inversões produtivas. Perter Nolan (2014), entretanto, com um argumento mais sofisticado apontava corretamente a preponderância de empresas estrangeiras nos setores mais avançados tecnologicamente.

Para Burlamaqui, o enorme sucesso do modelo chinês encarna as concepções schumpeterianas de socialização do investimento, ao controlar as finanças; ser o empreendedor-chefe na ciência, inovação e nas decisões cruciais de investimento; e ser o gerente da destruição criativa. A ultrapassagem econômica da China seria fruto de ter constituído um estado empreendedor, envolvendo todos os aspectos apontados por Schumpeter na atividade econômica. A trajetória chinesa sugere a formação de um estado empreendedor, na concepção schumpeteriana, sob três elementos centrais: i) o sistema bancário de tipo schumpeteriano, ii) envolvimento direto do estado em transformações estruturais e sua agenda de implementação e iii) um alto grau de socialização do investimento, que permite a efetivação de um gerenciamento da destruição criativa e a restrição ao capital especulativo.

Nesse sentido, a socialização do investimento das empresas estatais e bancos públicos foi fundamental no processo de desenvolvimento da China. Medeiros (2006) mostra que até 2002 o investimento das estatais jamais ficou abaixo de 40% do total de investimentos na China, chegando a 54,1% em 1998. Ainda em 2017, 36,9% dos investimentos totais da China ainda eram realizados por suas empresas estatais, enquanto os investimentos com fundos externos chegavam a apenas 3,4% do total.

O sistema financeiro chinês se aproximaria da concepção de Hilferding de Capitalismo Financeiro, sendo dominado por bancos de investimentos com relações estreitas com o comércio e a indústria, e voltado para o financiamento do desenvolvimento. O sistema bancário e de credito da China é assentado em 4 grandes bancos públicos e estatais, chamados de Big Four, que atualmente são os maiores bancos do mundo em ativos totais. Esse sistema foi gestado na reforma bancária dos anos 90, que instituiu bancos para políticas públicas setoriais para financiar a agricultura, comércio exterior e infraestrutura doméstica, aliviando os bancos comerciais dos empréstimos direcionados das políticas públicas. O sistema é regulado pelo Banco Popular da China (PBOC), que é o banco central chinês, e três comissões regulatórias para bancos, títulos e seguros, um arcabouço típico de países ocidentais. O fato é que tal arcabouço tem evitado que a China sofresse dos aspectos mais deletérios da financeirização, como o de movimentos desestabilizadores no mercado de derivativo. No entanto, o player fundamental financeiro é o China Development Bank (CDB), que tem sido essencial na internacionalização do capital chinês e no suporte das províncias no movimento de urbanização. As proporções do CDB também são chinesas com US$ 2,4 trilhões em ativos, o que deixa os provincianos economistas brasileiros pasmos.

O CDB financiou enormes aquisições de ativos no exterior, garantindo o suprimento de insumos e de energia, ao mesmo tempo que garantiu mercado para a exportação de bens de capital da China. Um exemplo próximo é a estatal State Grid, empresa responsável pela construção das linhas de transmissão de Belo Monte e que adquiriu em 2017 o controle da CPFL Energia.

O estado empreendedor chinês ganha impulso com 12º Plano Quinquenal, que escolheu “7 indústrias mágicas”: i) tecnologias poupadoras em energia, ii) nova geração de tecnologia da informação, iii) biotecnologia, iv) indústrias de alta qualidade, v) novas energias, vi) novos materiais e vii) veículos de energias limpas. O fato é que desde então empresas como a Huawei, Haier e Lenovo tem se destacado no mercado mundial, enquanto a Nova Rota da Seda abre perspectivas de investimentos em equipamentos de transportes sofisticados, o que tem enfraquecido a tese defendida por Peter Nolan.

Além disso, a China empreende um enorme esforço em ciência e tecnologia, ampliando brutalmente os investimentos na área (crescimento de 17% ao ano entre 2000 e 2017), se aproximando dos patamares investidos pelos países da OCDE em porcentagem do PIB. Os investimentos chineses em P&D, ajustados pela paridade do poder de compra, chegaram a US$ 496 bilhões em 2017, valores próximos aos realizados pelos Estados Unidos (US$ 549 bi), mas maiores do que aqueles investidos por toda a União Europeia (US$ 460 bi). Assim, os investimentos da China em P&D já representam 23% do total mundial.  A principal característica desse volume de investimento chinês é a grande concentração em desenvolvimento e em ciência aplicada, enquanto o total em ciência básica é proporcionalmente baixo.

A despeito do sucesso, a China possui grandes desafios no horizonte. Os custos do trabalho crescem rapidamente, enquanto a complementaridade tecnológica com os EUA tem se transformado em disputa, o que fica mais claro quando temos em perspectiva as disputas pelo 5G e a guerra comercial travada pelos dois países. Além disso, os americanos ainda dominam a maioria das tecnologias relevantes. A solução tem sido ampliar as escalas e os investimentos em tecnologia e desenvolvimento, o que, por sua vez, torna ainda mais acirrada as disputas com os países centrais.

Nesse contexto, é importante termos em mente as oportunidades abertas pela crise do coronavírus, aproveitando que seu principal concorrente é governado pelo pato manco Donald Trump. Há algum tempo a posição egocêntrica dos Estados Unidos tem trazido incertezas aos seus principais aliados sobre a conveniência dessa relação, jogando por terra o “soft power” americano construído ao longo de todo o pós-guerra. A oportunidade da cooperação internacional proporcionada pelo coronavírus e o vácuo gerado pela posição americana tem proporcionado oportunidades únicas aos chineses, que jamais as desperdiçaram ao longo dos seus 2 milênios de história.  

*Luiz Alberto Marques Vieira Filho é economista (USP), mestre e doutorando em economia (UNICAMP). 

Referências

 

AGLIETTA, M. e BAI, G. China’s Development: Capitalism and Empire. London: Routledge, 2012

BURLAMARQUI, L. (2017). Schumpeter goes to China: entrepreneurial state, socialization of investment and creative destruction management, Texto para Discussão, UERJ. 

MEDEIROS, Carlos A. “A China como um duplo polo na economia mundial e a recentralização da economia asiática”, Revista de Economia Política, vol. 26, n. 3, julho/setembro de 2006, p. 381‐400.

NOLAN, Peter. (2014) Globalisation and Industrial Policy: The Case of China, Volume 37, Issue 6, June 2014. 

SCHUMPETER, J.A. 1942. Capitalism, Socialism and Democracy. NY Routledge.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora