Dogma e razão

A linguagem é uma ferramenta extraordinária, capaz de produzir narrativas descritivas e ficções maravilhosas, entre outros tantos usos que conhecemos desde que ouvimos cantigas de ninar.

Uma das características que torna a linguagem uma ferramenta tão admirável decorre da possibilidade de uso dela sobre si mesma, ação que pode ser executada de inúmeras maneiras, uma das quais consiste na correção daquilo que é dito, o que pode propiciar o autoaperfeiçoamento.

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Corrigir costuma ser uma ação antipática, frequentemente um ato grosseiro, quase sempre desagradável. Isso acontece, em grande parte, porque vivemos em uma sociedade que impõe hierarquias, que estabelece que uns se sobreponham a outros. Em tal contexto, “corrigir” significa estabelecer supremacia, colocar-se acima do outro, e “correções” correspondem fundamentalmente a imposições – é assim porque eu quero, e sou eu quem manda! – sendo esse o “fundamento” de muitas “correções”. A expressão “corretivo” é usada como sinônimo de punição.

Vivêssemos em uma sociedade colaborativa onde se prezasse a igualdade e se cultuasse a colaboração como forma de crescimento de indivíduos e da sociedade, e as correções seriam encaradas como formas de aprendizado, sendo recebidas com satisfação.

Nesses 2 contextos, as correções são percebidas de maneiras marcadamente diversas. No contexto hierárquico de estabelecimento de superioridades, devem-se “corrigir” os inferiores com o intuito de sublinhar a inferioridade daqueles, fazendo com que as “correções” correspondam fundamentalmente a ênfases na ordem hierárquica efetuadas com o intuito de fortalecê-la; “corrigir”, em tal contexto, significa, fundamentalmente, estabelecer quem manda e ressaltar esse fato. Tal contexto não permite a correção de um superior por parte de um inferior, “insulto” que corresponderia a uma tentativa de subversão e inversão hierárquica. Note não ter havido, nesse caso, referência a conhecimento, razão, ou qualquer estofo que revelasse o papel educativo de uma verdadeira correção, mas apenas o estabelecimento de uma ordem. O único conhecimento relevante em tal caso, aliás, é esse, o da determinação da superioridade daquele que corrige sobre o que é corrigido. O propósito da “correção”, em tal contexto, portanto, consiste em enfatizar hierarquias.

Já no contexto colaborativo a correção é usada como meio de aprimoramento, como instrumento de aprendizado e ocorre quando uma pessoa possui determinado conhecimento e o repassa a outra que evidenciou não possuí-lo. Nesse caso, a correção tem papel educativo, e sua finalidade é o aprendizado, a aquisição de conhecimento. Assim, em contextos colaborativos, as correções resultam no acúmulo de conhecimento.

Note que um dos contextos referidos acima favorece o aprendizado, enquanto a outro o relega a plano secundário, abaixo da questão mais relevante de demarcação da hierarquia.

Dogmas e razões

Contextos hierárquicos impõem o dogmatismo, o estabelecimento de “verdades” impostas meramente pela hierarquia, com intuito fundamental de demarcá-la e acentuá-la: – “é assim porque eu disse que era, e sou eu quem manda”! Tal contexto não permite debates, exceto com o propósito de estabelecer novas hierarquias, ou reverter as previamente estabelecidas. Em tal meio, cultuam-se os dogmas e o linguajar vazio. As afirmações impostas pelos superiores constituem dogmas, e não podem ser alteradas sem uma respectiva modificação na hierarquia. Dogmas não necessitam de fundamento outro que não sua admissão pelos superiores hierárquicos. Dogmas não se justificam.

A palavra “psitacismo” – que alude aos psitacídeos, periquitos e papagaios –, designa com enorme propriedade o palavrório vazio, sem qualquer sentido, pronunciado em caráter ritualístico durante as conversas entre pares, em meios hierárquicos, com o propósito de selar a equidade entre os falantes.

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A racionalidade, por outro lado, pede sempre a justificativa das afirmações e crenças. Em um debate racional, cabe sempre pedir que o interlocutor apresente as razões que o tenham levado a fazer qualquer afirmação, a justificativa de sua crença. Crenças infundadas, naturalmente, recebem menos aceitação que outras, sendo as justificações as causas das anuências, de maneira geral.

Tais prerrogativas tornam o debate racional uma fonte de aprendizado na qual debatedores e ouvintes podem apreciar proposições contrárias e medi-las sob o peso das justificativas que fundamentam cada uma delas, admitindo as que se considerem mais bem fundamentadas, juntamente às razões que as tornam mais dignas de credibilidade que as outras.

Desse modo, o debate racional propicia o aprimoramento de ideias antigas, a recepção de novas, e a eventual troca de algumas delas, fatores que concorrem, todos eles, para a aquisição de conhecimento. Assim sendo, não cabe estranhar a diferença de conhecimentos apresentada entre os que convivem em cada um desses meios.

Dogmatismo e justificação

As breves razões apresentadas acima me parecem suficientes para garantir a aprovação geral ao que foi escrito acima, o que poderia constituir realização venerável! Ao ler tais palavras, creio que até os mais dogmáticos anuirão – darão sua plena concordância a elas –, mas apontando os que deles discordam como dogmáticos, não assumindo, eles próprios, tal pecha. Ocorre que a ignorância apresenta-se frequentemente em forma ativa e ardilosa, não como mera lacuna decorrente da falta de conhecimentos.

Um ardil frequente utilizado por dogmáticos consiste, simplesmente, em esvaziar um debate, transformando-o em um palavreado sobre nada. Penso existir uma solução bastante simples para abreviar abomináveis discussões vazias desse tipo. O achado consiste, tão somente, em pedir do interlocutor as razões que justifiquem suas crenças: Sim?, mas, por que você acha isso? O que o faz acreditar que tal coisa seja assim? Que razões, ou fatos, o levam a crer nisso? A solicitação das razões que justifiquem as opiniões apresentadas exporá o vazio de opiniões injustificadas.

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Não chega a ser desilusão supor que tal ação, quando posta em prática em meios dogmáticos será rechaçada como atitude inconveniente, misantrópica – hábitos recalcitrantes não se esvairão assim, sem mais, e a defesa do dogmatismo ocorrerá de forma dogmática.

Uma forte esperança, no entanto, me anima.

Existem meios nos quais a razão é reconhecida e levada em consideração. Supõem-se que em tais meios devam disseminar o raciocínio e a razão, e que a prevalência de dogmatismos em tais meios seja exposta e firmemente contestada. Departamentos de ciências, nas universidades, têm a obrigação, creio, de defender a razão e extinguir dogmatismos. Claro está, desde logo, que todos concordarão com isso, ainda que uma parcela considerável dos professores de tais departamentos se arvore dogmaticamente de defensora da razão enquanto propugna seus dogmas à maneira de inquisidores medievais.

A exposição de tais atos será obtida, repito, exigindo-se as razões que justifiquem as crenças defendidas.

Uma observação adicional faz-se ainda necessária. Com um mínimo de habilidade – se tal palavra cabe para descrever tal fato – pode-se criar palavreado vazio, frases que não dizem absolutamente nada, e correspondem apenas a sons, como se pronunciados por papagaios.

Descobre-se se um determinado discurso é vazio, perguntando-se que diferenças há entre aceitar aquilo que é proposto e admitir o contrário do que está sendo dito. Se alguma afirmação está sendo feita – não se tratando, portanto, de linguajar vazio –, haverá consequências entre admitir o que está sendo afirmado, e não admiti-lo. Tal diferença deve, também, ser explicitada.

Penso que o esclarecimento do que sejam os dogmatismos, e sua extinção, serão acontecimentos dignos de aclamação.

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Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta

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