Durante os protestos de Floyd, a indústria da mídia reconhece uma longa história de colaboração com a segurança pública

Dennis Franz e Jimmy Smits em “NYPD Blue” © Mitchell Gerber/Corbis/VCG via Getty Images

THE CONVERSATION

Por Carol A. Stabile

Em recente entrevista, foi perguntado ao Procurador Geral de Minnesota Keith Ellison porque é tão difícil instaurar processos contra policiais.

“Apenas pense em todos os programas policiais que você já assistiu na sua vida”, ele respondeu. ” Somos totalmente abarrotados com essa mensagem cultural de que essas pessoas irão fazer a coisa certa”.

Enquanto duas dessas séries, “Cops” e “Live PD”, que recentemente foram canceladas, os americanos estão há muito tempo inundados num mar de dramas policiais. Em séries como “Hill Street Blues,” “Gangbusters,” “The Untouchables,” “Dragnet,” “NYPD Blue” e “Law and Order,” a audiência vê o mundo sob a perspectiva da segurança pública, em que policiais alternadamente heroicos e sitiados lutam uma série de guerras contra o crime.

Isso não aconteceu acidentalmente

Como uma historiadora de mídia, estudei de que forma, iniciando na década de 30, as agencias de segurança pública trabalhavam bem próximos dos produtores da mídia a fim de reabilitar a sua imagem. Muito desses programas foram sucesso junto aos telespectadores, e essa relação simbiótica gerou numerosas colaborações que continuariam a criar uma visão unilateral da lei e da ordem, com as vozes dos que estão sob a vigilância policial sem serem ouvidas. 

A máquina de Relações Públicas do FBI

Para o diretor do FBI J. Edgar Hoover, a polícia desempenhou um papel primordial: de proteger um “americanismo vigoroso, inteligente e da forma antiga”, que estava ameaçado pelo qual ele via como uma exigência irracional pelos direitos e liberdades civis.

Hoover quis que seus agentes refletissem a sua visão de “americanismo”, ele contratou agentes com o objetivo de saber se eles se ajustavam ao modelo que ele considerava um “bom espécime físico”: branco, cristão e alto. Eles não poderiam apresentar “defeitos físicos”, como calvície e problemas de visão, nem podiam ter sotaques “estrangeiros”.

Nos anos 30, Hoover também montou um braço de relações públicas no interior da agência chamado de Divisão de Registros de Crime. Na época, a imagem da polícia precisava muito de reabilitação, graças às comissões de crime federal de alto nível que documentou a violência generalizada, repressão e corrupção nos departamentos policiais.

Hoover percebeu que a mídia poderia servir como um perfeito para disseminar a sua concepção de segurança pública e reparar a posição da polícia com o público.

A Divisão de Registros de Crime cultivou relações com os proprietários, produtores e jornalistas “cordiais” da mídia que iriam assegurar de forma confiável as opiniões do FBI. Em 1935, o FBI formou uma parceria com a Warner Brothers no filme ” ‘G’ Men “. Em seguida uma série de rádio “G-Men”, feita em colaboração com o produtor Philips H. Lord e revisada por J. Edgar Hoover, “que conferiu todas as declarações” e fez “sugestões valiosas”, de acordo com os créditos da série.

Um ano mais tarde, o FBI trabalhou com Lord novamente na série de radio “Gang Busters”, cujo os créditos da abertura se vangloriavam da cooperação do programa com a polícia e dos departamentos federais de segurança pública por todo os Estados Unidos, seu status como “o único programa nacional que traz a você histórias autenticas de casos policiais”.

Apesar de Hoover e Lord terem conflitos explícitos com os detalhes – Hoover queria enfatizar a ciência do policiamento e o profissionalismo da segurança pública, enquanto que Lord queria mais drama – o foco na polícia como protagonistas foi amplamente inquestionável.

Colaborações do FBI continuaram nos anos 70, com as series de longa duração “This is Your FBI” (1945 – 1953) e “The FBI” (1965 – 1974). Como “G-Men” e “Gang Busters”, esses programas foram baseados nos casos solucionados pela polícia e tiraram o máximo proveito do seu realismo tirado das manchetes.

Outros escritores e produtores procuraram colaborações semelhantes com a segurança pública. A icônica série “Dragnet”, por exemplo, foi escrita com a aprovação do chefe de polícia de Los Angeles William H Parker, que comandava o LAPD durante os Distúrbios de Watts em 1965.

William H. Parker © AP Photo/Walter Zeboski

Retaliação Reacionária

O FBI não apenas colaborou na produção da mídia. Minha pesquisa na lista negra da televisão, uma campanha difamatória para silenciar os progressistas anti-racistas na indústria da mídia, revela como a agencia frequentemente retaliava os seus críticos.

Quando o jornalista John Crosby criticou o FBI durante uma transmissão de televisão em 1952, Hoover rabiscou uma nota no registro do incidente. ” Isso é uma alegação ultrajante. Nós devemos apreender isso. O que nossos arquivos revelam em Crosby?

Pouco depois, Crosby foi denunciado na revista da American Legion como alguém que supostamente apoiou atores e artistas comunistas.

Quando o advogado e funcionário do governo Max Lowenthal estava completando um livro crítico ao FBI em 1950, o Bureau montou escuta em seu telefone e plantou histórias tão depreciativas que poucas cópias foram vendidas, encerrando a carreira na administração pública de Lowenthal. O Bureau também conseguiu que ao menos um escritor do “This is Your FBI” fosse despedido simplesmente porque acreditava-se que a sua esposa não era suficientemente uma “cidadã americana leal”. Worse sempre foi visitado por artistas negros, jornalistas e ativistas, que eram sujeitos a uma intensa espionagem, vigilância e abuso policial ainda maior.

Os esforços da segurança pública para controlar a sua imagem através da produção e repressão ajudou a criar dramas policiais que raramente questionava o seu viés já sedimentado. Enquanto isso, a escassez de diversidade nas salas dos escritores reforçava essa formula.

É claro, algumas notáveis exceções ofuscaram o brilho do drama policial, incluindo “The Wire” e “The Corner” de David Simon, a recente minissérie “When They See Us” de Ava DuVernay. Esses dramas invertem o ponto de vista da polícia tradicional, pedindo aos espectadores que enxerguem a polícia pelos olhos daqueles que frequentemente são mais punidos e sofrem mais com as ações policiais.

O tempo do drama policial acabou?

De tempos em tempos, os americanos tem se conscientizados da unilateralidade dessas representações da mídia da conduta policial. Em 1968, por exemplo, a Comissão Kerner explorou as causas das revoltas nas comunidades negras. Seu relatório observou que, no interior dessas comunidades, havia desde muito tempo uma consciência de que ” a imprensa se deliciava com o mundo dos brancos olhando para fora dele, se é que havia, com os olhos dos homens brancos e perspectiva branca.

Mudar essa perspectiva requer mais que reconhecer o papel que os dramas policiais desempenharam como propaganda para a segurança publica. Significa contar com o legado das histórias que acobertam a violência e a má conduta policial, na qual afeta desproporcionalmente as pessoas de cor.

“Nós queremos ver mais”, Rashad Robinson, o diretor executivo da organização de defesa dos direitos civis Color of Change, disse ao The New York Times depois do cancelamento de “Cops”. “Esses reality shows policiais que glorificam a polícia mas nunca irão mostrar que o nível profundo da violência policial não é realidade, são braços de relações públicas da segurança pública. Segurança pública não necessita de relações públicas. Eles precisam prestar contas.”

 

https://theconversation.com/during-floyd-protests-media-industry-reckons-with-long-history-of-collaboration-with-law-enforcement-140221

 

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