O golpe é possível, mas trará mais problemas as próprias forças armadas do que soluções.

O atual ocupante da cadeira da presidência da República é um legítimo representante do chamado “sindicalismo nas forças armadas”, esse papel é demonstrado pelo apoio das tropas de baixo escalão tanto nas polícias militares como nas forças armadas. Este sindicalismo serviria, para quem olha de fora na estrutura militar (polícias e forças armadas), como uma base perfeita para um autogolpe transformando-se de presidente a ditador, entretanto esse processo não é de forma nenhuma um mínimo desejável por qualquer Estado Maior de qualquer força armada no mundo.

Para entender as contradições existentes nesse processo com a estrutura de poder das forças armadas, vamos relatar como foram os golpes dados na Itália fascista e na Alemanha nazista, e se fizermos uma interpretação baseada na reação das duas forças militares daqueles países entenderemos o porquê.

Na Itália quem leva Mussolini ao poder são os camisas negras, entretanto esses camisas negras eram um arremedo de poder militar frente ao poderoso exército italiano da época, sem contar com uma das mais fortes armadas de todo o mundo nos anos 20 e 30 do século passado. Por outro lado, quem levou ao poder o líder nazista foram os camisas marrons ( SA, Sturmabteilung), ou seja, o exército alemão (Reichswehr) era tão fraco que nem era chamado de exército, mas sim de Defesa do Império, elas eram limitadas em número (115 000) homens somando forças terrestres e marítimas isto tudo por imposição do Tratado de Versailles. Enquanto as forças armadas alemãs eram reduzidas, as SA chegaram em 1933 a terem um efetivo de aproximadamente 2.000.000 de homens totalmente organizados e com uma hierarquia semelhante a um exército convencional e armadas com fuzis e até caminhões para transportá-las.

Apesar do treinamento da Reichwehr ser extremamente rigoroso, formando um exército sem soldados, pois os seus soldados tinham treinamento de suboficiais a proporção entre a Reichwehr e a SA era de 1:20, ou seja, mesmo essa última não tendo um grau de treinamento tão aprimorado do que as tropas convencionais os oficiais dessas últimas não aceitavam uma tropa que não estivesse sobre o seu controle.

Mesmo antes da tomada do poder, tanto Mussolini como Hitler negociaram com o poder central, no caso da Itália o Rei e no caso da Alemanha o presidente Marechal Hindenburg a incorporação de parte dos camisas negras italianos e no caso da Alemanha a eliminação física de todo o comando das Sturmabteilung, incluindo o mais fiel e amigo pessoal de Hitler, Ernest Röhm, esta ação foi feita em 30 de junho de 1934, na ação denominada A Noite das Facas Longas (dá para imaginar como a maioria dos 200 executados foi feita).

Mas o mais interessante é que Hitler para manter o seu poder sobre o exército organizou já em 1925 a SS (Schutzstaffel), que no início era uma mera guarda pessoal do ditador e passando o tempo foi militarizada com armamento pesado e foi um instrumento de controle e de execução membros descontentes do alto comando do exército convencional alemão, inclusive a chamada Raposa do Deserto, a lendária figura do general Rommel, que muitos atribuem uma morte por um avião aliado, foi morto tempos após a tentativa de assassinato de Hitler feito pela própria Wehrmacht.

O que vemos aqui com os exemplos históricos, que dois suboficiais que viraram líderes fascistas, tiveram que sacrificar os comandos das suas tropas que os levaram ao poder e colocaram o resto sobre o controle do exército convencional, porém somente Hitler que o exército foi colocado sob juramento ao seu comando, o Führereid ou Führer Oath e não juramento a Alemanha. Mussolini, que durante toda a guerra o exército italiano tinha como comando central o Rei Vittorio Emanuele III, antes de terminar a guerra o exército passou para o lado dos aliados.

Então vejamos a situação brasileira, as nossas forças armadas são numerosas e tem armamentos pesados, porém o grau de treinamento de seus praças em geral, salvo em forças especiais, deixa muito a desejar, enquanto as polícias militares estão em permanente ação que da forma que eles agem mais parece forças militares do que polícias, ou seja, todo e qualquer militar que uma tropa sem experiência real em relação a outras que tem ação todo o tempo faz uma enorme diferença.

Poderíamos também ver outros agravantes nessa disputa, o Guru do atual ocupante da cadeira da presidência trata com total desrespeito os Generais inclusive chamando de nomes nada publicáveis, mesmo assim ele consegue algo que outros, inclusive generais não conseguem, mandar o seu discípulo enfiar algo em um lugar meio indevido e este ainda aceita o seu pedido. O segundo problema é a probabilidade da sucessão ser feita por um dos filhos do ocupante da cadeira, tem quatro pretendentes e isso pode significar décadas de poder.

O grande dilema do alto comando é aceitar uma situação extremamente instável e perigosa em que as forças armadas possam ser reduzidas a uma mera guarda de fronteiras, colocando-as inclusive em confrontos com outros países vizinhos.

Além de tudo isso tem o problema principal, o econômico, pois a disparidade salarial entre os comandos das polícias militares e a tropa é enorme, não pensem que os policiais militares colocarão suas cabeças a prêmio aderindo a um golpe de estado se não tiverem uma garantia de recompensa monetária da sua intervenção.

Porém como o governo federal não está abrindo a mão para ninguém, só para alguns militares reformados ou na ativa de alta patente, não acredito que ordens serão cumpridas a 100% para um golpe contra ao Estado sem uma pauta de negociações prévia que o Governo Federal não terá dinheiro para cumprir, pois teria que satisfazer todas as corporações de todos os estados, uma quantidade de dinheiro que com a crise que se avizinha e que vai aprofundar ainda mais o problema econômico não poderá ser cumprida.

Essas reivindicações causarão insubordinação nas corporações de polícias militares que empoderadas com o golpe sairão reforçadas, isto causa quebra na hierarquia militar e não podemos esquecer que em 1964 algo que uniu comandos militares golpistas foram os movimentos de reivindicação dos cabos e sargentos, isto colocou todo o comando tanto das forças armadas como das polícias militares estaduais rigidamente sobre o comando do estado maior de cada unidade da Federação com o exército chefiando.

O protagonismo dos cabos e sargentos irritou extremamente o comando, para se ter noção dessa irritação podemos ver que os primeiros a serem punidos não foram os civis, mas sim os militares de baixa patente.

Chamo a atenção que em 1964 7.500 membros das Forças Armadas e bombeiros foram presos e torturados logo após o primeiro de abril, não estou dizendo que os soldados tanto do exército como das polícias militares serão cooptados pela esquerda, o que estou dizendo que há uma clivagem absoluta entre as patentes mais baixas e as mais altas, logo elas nunca pensam igual, pois o fortalecimento de um grupo é o enfraquecimento de outro.

O que estou chamando atenção é que um autogolpe do Bolsonaro só é viável se ele contar com apoio maciço dos oficiais superiores das forças armadas e não colocar as polícias militares no golpe, pois se ele as empoderar num intervalo entre seis meses a dois anos haverá grandes convulsões e lutas internas entre esses dois grupos, que só poderão ser neutralizados pela retirada de poder das polícias militares.

O cenário é complicado para pretensos pró autogolpe, pois posteriormente a disputa de poder será imensa.

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