O homem que sorria para o horizonte, uma autobiografia intelectual, por Gustavo Gollo

Capítulo I: O pequeno

– Vamos brincar de pique-bandeira.
– Eu não sei.
– A gente tem que pegar a bandeira deles e trazer pro nosso campo, quem trouxer a bandeira do outro ganha. A bandeira é aquele ramo.

Os maiores eram as estrelas do jogo e olhávamos para eles com admiração. Os grandes de um time marcavam os do outro, impedindo que adentrassem o campo e roubassem sua bandeira, enquanto tentavam fazer o mesmo com a bandeira adversária. Ninguém dava bola para os menores, meros coadjuvantes, incapazes de se contraporem aos grandes, funcionando mais como expectadores que como verdadeiros participantes do jogo.

– Eu peguei.
– Que é isso?
– A bandeira, eu peguei.
– Não pode pegar a bandeira, tem que deixar ela lá no lugar.
– É a bandeira deles.
– Hm?
– Ele disse que pegou a bandeira.
– Cadê sua bandeira?
– Ih, a bandeira sumiu, cadê a bandeira?
– Aqui.
– É a bandeira! Ganhamos, ganhamos!

– Como você pegou a bandeira?, você é dos pequenos.
– Eu fiquei de costas e fui andando pra trás, ninguém foi atrás de mim. Aí eu peguei a bandeira e vim andando, quando cheguei perto do nosso campo eu corri.

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– Chegou notícia da escola: se você já souber escrever vai pular um ano, tem que fazer todo o cabeçalho.

Absurdamente, a notícia era alegre, significava alguma espécie de deferência por parte da escola ao selecionar os melhores alunos para completar a turma seguinte, quase vazia. Significava também passar um longuíssimo e tedioso tempo copiando o tal cabeçalho, em uma das raríssimas exigências de disciplina cobradas em toda a vida escolar do jovem, que teria preferido declinar da honra e glória despropositadas e desistir da tarefa, em vista da dificuldade imposta que, de um modo ou outro, acabou superada.

Pode-se perceber nesse roubo da infância o mesmo método de inculcação de alegrias enganosas decorrentes de honrarias tolas em troca de sofrimento e esforço que perpassam as vidas dos cidadãos comuns, e os valores que nos são impostos.

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Não demorou muitos anos para que o processo se repetisse.

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Primeiro dia de aula no novo colégio

– Recapitulando: qual o perímetro da figura?

– (braço erguido) O que é perínetro?

– PERÍMETRO! Gritou a mestra, – é PERÍMETRO. Você não sabe calcular o perímetro?

– Não – respondeu, minimizado, o pequeno.

– De que escola você veio?

A explicação deixava escapar, ou apresentava com orgulho, a informação de que o menino havia pulado um ano, induzindo na professora a obrigação de informá-lo que ele deveria estar na turma anterior, a terceira série, e não na quarta, onde estava. Mesmo assim ensinou-lhe a calcular o perímetro, perguntando-lhe, em seguida, qual o perímetro de determinada figura, cuja resposta o menino havia obtido com sucesso.

Tendo recapitulado a matéria do ano anterior, supostamente já dominada por todos os petizes, a professora tratou de iniciar novo e temerário ensinamento: o cálculo da área de uma figura! Terminado o empreendimento com a execução de um exemplo, pediu a professora que os pequenos calculassem a área de um certo quadrado. Tendo dado um tempo para que os jovens se desincumbissem da tarefa, a mestra voltou-se para o pequeno pedindo-lhe a resposta que, para sua surpresa e satisfação foi-lhe corretamente apresentada. (Em vista disso, a professora desdisse toda a preleção inicial ao asseverar, posteriormente, que o menino estava realmente na turma correta). Havia nessa turma um jovem, um pouco mais velho, que se desincumbia das perguntas de matemática apenas olhando para o quadro, sem utilizar lápis nem papel, ação que causava admiração nos colegas e satisfação à professora.

O final do ano chegou com uma novidade, a transferência da família do pequeno para a capital recém-criada. Seria necessária uma preparação para a prova de ingresso na nova escola, muitíssimo concorrida. A preparação consistiu em umas aulas particulares de português e matemática. Foi durante esses poucos encontros que o professor descobriu e estimulou certos dotes matemáticos do jovem, revelando-lhe a capacidade de, a exemplo do colega da turma anterior, efetuar os cálculos e chegar às respostas dos problemas matemáticos sem o uso de anotações, procedimento que, para muitos, se assemelhava a magia, ou adivinhação. Naquele tempo, podia-se fazer com que as pessoas se persignassem em vista do cândido procedimento de desvendar respostas sem o auxílio de apontamentos.

Não foi surpresa que o jovem conseguisse uma das disputadíssimas vagas na escola, considerada a mais exigente da cidade – motivo, para os alunos, do mesmo orgulho estúpido advindo de honrarias vãs criadas para escravizá-los.

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Último ano na escola: novo professor

A saída do professor de matemática rigoroso que revelara os dotes do petiz conduziu a uma sucessão de professores incapazes de se firmar na função, até que um jovem negro e esperto conseguiu seduzir as turmas da escola e manter o cargo em meio a dribles sucessivos.

Suspeito que as provas de matemática sejam o grande terror em quase todas as escolas (refiro-me ao “terror” acadêmico que no Brasil costuma ser suplantado por situações corriqueiras, de fato, aterrorizantes). A iminência das provas de matemática podia ser deduzida pelo nervosismo dos alunos e ampla movimentação por parte de quase todos, com o intuito de alcançar posicionamentos adequados e estratégias gerais para a batalha.

Prova de matemática

O professor distribui a prova, uma a uma, ao passar pela carteira de cada aluno. Ao retornar a seu posto, na frente da sala, é cruzado pelo aluno em disparada, raquete de ping-pong em punho:

– O que é isso?
– É a prova, responde o jovem, já da porta.
– E o que são esses números?
– As respostas – disse o jovem, disparando em seguida.

O jovem havia entregado a prova em segundos, sem a apresentação dos cálculos, mas com as respostas deles decorrentes.

O professor era esperto suficiente para não encrencar com os alunos, angariando a simpatia de todos, especialmente dos que chamavam atenção por “bons” motivos. A prática de oferecer pontos extras na nota a quem chegasse primeiro à resposta dos problemas propostos por ele, durante as aulas, agradava francamente ao jovem, que os colecionava amplamente, garantindo com isso sua simpatia.

Prova seguinte

O professor termina distribuição da prova e ao retornar a seu posto encontra o aluno, segurando a prova em branco, surpreso.
– Que isso?
– É a prova.
– Mas, o que é [nome] ? A pergunta se referia ao tema da prova, desconhecido pelo aluno.
– Isso é a matéria da prova, você não estudou a matéria?
– Não, pensei que ia ser frações.
– Frações!? Perguntou o professor, perplexo.
– É, a Christiane me disse que ia cair frações.
– O que é [nome] ? Repetiu o aluno.
– Isso é você quem tem que me dizer, [nome] é a matéria da prova.
O jovem pegou sua raquete, deixou a prova em branco sobre a mesa do professor e deixou a sala em correria, para a perplexidade do mestre.

Christiane era a melhor aluna da turma, tinha recém-chegado de outro estado e já havia visto a matéria que então apenas recapitulava.

Aula de matemática seguinte

– (Professor) Deixa eu aproveitar que vocês estão juntos… que aconteceu na prova?
– Ela me falou que ia cair frações, então eu não sabia a matéria.
– Que aconteceu? Perguntou a menina.
– Ele entregou a prova em branco.
– Rarara, ele acreditou… tirou zero? Perguntou a menina em franco deboche.
– O que é que está acontecendo aqui?
– Antes da prova, eu sempre ensino a matéria pra ele, na prova anterior ele tirou nota maior que a minha e ficou me gozando, dessa vez eu disse que ia cair frações e ele acreditou, rararara.
– Mas rapaz, como é que você dá uma dessas?, a menina te ensina a matéria e você faz gozação com ela?

Esperto, o professor deu bela lição, induzindo no jovem um sentimento de gratidão para com a moça, feito conseguido de maneira simpática, sem a esperada carraspana normalmente atrelada aos ensinamentos dirigidos ao jovem.

Tendo percebido o enternecimento do jovem, e a correspondente mudança de atitude da amiga, disse o professor.
– Mas agora eu fiquei curioso, como é que vocês fazem?
– Quando tem prova de matemática, a gente chega do recreio e está a maior confusão, todo mundo ajeitando as cadeiras. Aí eu vejo que tem prova, e ela me ensina a matéria.
– Hm?, como é isso?, faz aí pra eu ver.
– Assim, isso aqui é tal coisa… isso tal outra… (ensinando).
– E pra que serve isso?
– Pra fazer tal coisa…
– Aaahhh… aaahhh… e tal coisa é isso outro?
– É.
– Aaaahh, aaah… e tal é tal?
– É.
– Aaahh… então tá.
– É assim. Disse ela ao professor.
– E depois disso você faz a prova?
– É.
– Quero ver, faz essa aqui.
O jovem pegou o papel, leu a primeira pergunta, pensou uns segundos, e respondeu dizendo um número, repetindo o processo sucessivamente até responder, uma a uma, cada uma das questões, após breve reflexão.

A menina mostrava sua descoberta orgulhosamente, como o faria com um cãozinho adestrado por ela, enquanto o professor acompanhava o desenrolar da cena com perplexidade.

– Hm, então é assim que você estuda? Perguntou o professor.
– É, matemática é assim; respondeu o jovem com naturalidade.

Depois da prova seguinte…

– Christiane, você errou uma pergunta.
– É, eu não sei isso.
– Mas ele acertou, quem ensinou isso pra ele?
– Ele inventa.

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