Pandemônio: a segunda onda, por Gustavo Gollo

A tabela acima está ordenada pela quantidade de óbitos por habitantes.

O país com a maior quantidade de óbitos por covid-19 por habitante é São Marino, uma pequena nação com 30.000 habitantes encravada na Itália.

À primeira vista, o recorde funesto de uma população cujo poder aquisitivo
encontra-se entre os maiores do mundo surpreende.

Essas são as curvas de casos (gráfico superior) e de mortes (gráfico inferior) em São Marino.

Certa peculiaridade chama a atenção nesses gráficos. Exceto uma das 42 mortes atribuídas a covid-19 em São Marino ocorreram até 26 de abril, quando 538 casos haviam sido notificados. Considerando-se que as mortes decorrentes da doença tenham ocorrido pelo menos duas semanas após a notificação do contágio, conclui-se que 41 desses óbitos decorreram das 356 notificações efetuadas até 14 dias antes, em 12 de abril, enquanto as 366 notificações subsequentes ocasionaram apenas um óbito.

Andorra é outro pequeno país rico da Europa. Apesar disso, tem a quarta mortandade por milhão de habitantes.

Cinquenta e uma das 53 mortes atribuídas a covid-19 em Andorra ocorreram até 16 de maio, quando 761, quase metade dos 1438 já haviam sido notificados. Depois desse dia, a letalidade por lá parece ter sido reduzida por um fator maior que 20!

Gráfico de casos (superior) e de mortes (inferior) em Andorra

Os gráficos de casos (superior) e mortes (inferior) na Espanha são muito ilustrativos. O de casos apresenta duas corcovas quase simétricas bem marcadas, enquanto o gráfico de mortes revela uma única corcova sombreando a do gráfico de casos, acima dela. O esboço de uma segunda corcova de mortes pode ser notado apenas se buscado atentamente.

A Espanha tem a quinta maior quantidade de óbitos por habitante.

A Bélgica, outro país rico, é o terceiro no ranking macabro de mortes por milhão de habitantes.

Ambos os gráficos, de casos e mortes, assemelham-se aos de Espanha, embora a segunda corcova de casos seja menos marcada, e a de óbitos um pouco mais acentuada que a espanhola.

Todos os gráficos acima corroboram a mesma constatação e apresentam o mesmo enigma: ao contrário de ameaças repetidas alarmantemente, nos 4 países, a segunda onda foi muito menos letal que a primeira. O que terá atenuado a letalidade do vírus?

De imediato, a constatação esclarece um outro enigma que tem surpreendido a comunidade científica: por que países pobres da África têm apresentado letalidades muitíssimo inferiores à de países muito mais ricos, como os citados acima?

A mortalidade por habitante chega a ser mil vezes superior em São Marino à de vários países de África em decorrência da queda da letalidade da pandemia. Os países acima, recordistas de óbitos, foram assolados pela pandemia na primeira onda, tendo tido altíssima letalidade, logo de início.

Na África, a pandemia demorou a se impor, chegando simultaneamente à segunda onda Europeia, e tão tênue quanto ela. Foi, assim, devido à muito maior letalidade da primeira onda que países ricos tomaram a frente na quantidade de óbitos por habitantes.

Mas, o que terá atenuado o vírus?

Decisões

Quando lemos noticiários ou analisamos tabelas, assumimos que os dados apresentados sejam reais; em geral, não temos outra escolha.

No mundo real, no entanto, quando estamos diretamente ligados aos fatos, obrigados a tomarmos, nós, as decisões, encontramo-nos, frequentemente imersos em dúvidas.

Tentemos imaginar os médicos lidando com uma doença desconhecida que os jornais alardeiam irá assolar o planeta causando, talvez, centenas de milhões de vítimas.

Enquanto as notícias assombrosas fazem parte da população perder o ar, médicos em UTIs têm que diagnosticar uma doença até então inexistente e, eventualmente, decidir se foi ela a causa de determinada morte.

Como decidir? Parece sábio agir de forma precavida, pressupondo o pior. Em meio a dúvidas naturais decorrentes do desconhecimento sobre a doença emergente, mais vale pecar pelo excesso, dirá o precavido.

Não, nesse caso.

Precauções excessivas geraram um hiper dimensionamento das mortes, inflando as notificações de óbitos da primeira onda, fazendo crer que o vírus tivesse uma letalidade muito superior à real.

Tendo baixado a poeira, mais seguros, durante a segunda onda, quando já tinham adquirido intimidade com a doença, só então conhecida, os médicos puderam decidir de maneira mais natural, atribuindo outras causas às mortes, como sempre haviam feito antes.

A letalidade da segunda onda, por essa razão, caiu drasticamente, na Europa, sem deixar o grosso rastro de mortes alardeado pelos alarmistas.

Balançaram tanto o barco, que ele quase virou.

A ficha está demorando a cair na América do Sul.

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