SERÁ QUE VAMOS TER LUTA ANTES DO VOTO?

Uma característica determinante na internet é a enorme volatilidade dos conteúdos, pela velocidade com que fluem as informações. Assim, conteúdos importantes e esclarecedores sobre a situação política do país muitas vezes passam batido. Exemplo disso são dois artigos publicados há poucos dias, por Luis Felipe Miguel e Paulo Nogueira Batista Jr. (1) Artigos complementares que, em poucas palavras, sintetizam nosso momento atual e valem a pena ser comentados.

 Miguel aponta o fato de que, além das bizarrices do sistema eleitoral americano, foram contados cerca de 70 milhões de votos, quase a metade dos eleitores, “para um candidato à reeleição que, ao longo de seu mandato, provou, para além de qualquer dúvida, ser despreparado, instável, desonesto, caricato, agressivo e genocida.” Lembra ainda, para nosso desgosto, que essa patologia não é exclusiva dos americanos.

O autor argumenta, com propriedade, que “as novas tecnologias da comunicação destruíram as condições de sobrevivência da democracia limitada que imperou no Ocidente nas últimas décadas. Era um modelo baseado na ideia de que a participação política mínima de um eleitorado dispondo de informação política mínima seria capaz, ainda assim, de gerar resultados minimamente razoáveis.” E que os “novos fluxos de informação – na verdade, de desinformação – desorganizam isso. Ressentimento, ódio e teorias de conspiração se tornam os insumos para escolhas políticas cada vez mais descoladas de qualquer referência à realidade.”

Segundo Miguel, a democracia terá que se aprofundar, com mais educação política e mais possibilidades de participação e de informação de qualidade. Aí, “O problema, claro, é que essa democracia aprofundada coloca em risco a reprodução das formas de dominação social”, o que é contrário ao interesse dos donos do poder.

Batista Jr. lembra incialmente o desalento da situação atual, mas aponta que ocorrem fatos muito positivos: “Os bolivianos passaram pela sua provação de forma admirável e botaram a sua corja de golpistas para correr. E não foi, diga-se, apenas pelo voto, mas com muita luta, sangue e lágrimas. Os chilenos, por sua vez, derrotaram de forma fragorosa a Constituição herdada da ditadura de Pinochet, aprovando por avassaladora maioria que se escreva uma nova Carta Magna, condizente com as aspirações do povo. De novo, não foi apenas pelo voto, mas com luta, sangue, lágrimas.”

Buscando no filme Bacurau as imagens tanto da subserviência de nossas elites quanto da resistência popular, Batista Jr. emenda de primeira: “O brasileiro, sempre propenso à conciliação, a acertos parciais, a soluções negociadas, terá dificuldade de tirar as lições da experiência dos vizinhos e da nossa? Os nossos golpistas domésticos não ficam atrás dos bolivianos e chilenos. A corja que se instalou no Brasil desde 2016 dificilmente será ejetada do poder de forma pacífica, por um processo democrático normal – até porque eles já se encarregaram de suprimir, de várias maneiras, a normalidade democrática.”

E completa, citando a ajuda dos americanos, não reelegendo Donald Trump, que a “vitória de Joe Biden seria a terceira boa notícia que colheríamos do exterior no final deste desgraçado ano de 2020“. Lembra, entretanto, que “boas notícias no exterior não nos salvarão“. E que será preciso, como no filme Bacurau, que os “sertanejos” usem suas armas para derrotar seus inimigos.

“Não aconteceu. Ainda. Terá de acontecer, em algum momento, antes cedo do que tarde, para livrar-nos de toda essa cambada de ignorantes, vigaristas e criminosos que se instalou no poder central. E que de lá não sairão em simples obediência à “vontade popular expressa nas urnas”. A eleição será, na melhor das hipóteses, como na Bolívia e no Chile, o desfecho ou a coroação de uma sucessão de conflitos e embates. Não será por meio de discursos, notas de repúdio ou deliberações parlamentares que as grandes questões do nosso tempo serão resolvidas.”

Esse é o nó da questão, que nossas lideranças e todo o campo democrático insistem em não dar a devida atenção, como se vivêssemos no mais perfeito regime democrático. Como ressalta Batista Jr.: “a liberdade e os direitos só subsistem quando amparados pela força.”

(1)  https://tijolaco.net/nogueira-batista-jr-tem-de-haver-luta-antes-do-voto/
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/pesquisas-erraram-feio-nos-eua-mas-nao-perdi-a-esperanca-de-ver-belzebu-perder-por-luis-felipe-miguel/

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