…sobre o filme “Um Homem Bom”, Deltan Dallagnol e os procuradores da Lava Jato…

…sobre o filme “Um Homem Bom”, Deltan Dallagnol e os procuradores da Lava Jato…
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No dia 30 de agosto, a BBC News Brasil publicou uma entrevista feita com o procurador chefe da Lava Jato, Deltan Dallagnol. Vários trechos me remeteram ao excelente filme do diretor brasileiro Vicente Amorim, lançado em 2008 e, em minha opinião subestimado por crítica e público. Daí nasceu esse artigo: pela facilidade com que Deltan e os procuradores da Lava Jato tentam se escusar de seus erros, perversões, crimes e desumanidades, inclusive defendendo a si mesmos como “pessoas boas” ou “uma pessoa super humana”, como Deltan se refere ao procurador Januário Paludo, por ter adotado “…umas três, quatro crianças que não tinham um futuro e acolheu na família dele.”
Paludo foi o procurador que na conversa havida entre os procuradores quanto ao direito de Lula de ir ao enterro de Vavá, seu irmão falecido, declarou que “o safado só queria passear e o Welter com pena.”

Essas e outras declarações, algumas em tom jocoso e perverso chocaram a parcela da sociedade não contaminada pelo ódio e nojo a Lula e ao PT.

Mas qual a lição que podemos extrair como pessoas humanas, como sociedade civilizada, das respostas de Deltan na entrevista à BBC News? É aí que entra o resumo e a essência do filme dirigido pelo Vicente Amorim.
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“Um Homem Bom” trata das reações íntimas, psíquicas e éticas de um homem comum diante das escolhas que tem que fazer ao se defrontar com as mudanças na sociedade nazista alemã, é esse seu tempo e espaço de viver.
O professor universitário John Halder (interpretado pelo ator Viggo Mortensen, em brilhante desempenho) tem uma vida pacata, até ser “cooptado” pelo nazismo, por ter escrito um livro no passado (um romance) onde defende a eutanásia. De autoengano em autoengano e sempre usando para si mesmo artifícios mentais para se justificar, Halder aceita escrever um outro livro – aogra um ensaio – que fizesse a sociedade alemã aceitar a ideologia da eutanásia “pelo bem da humanidade” – a justificativa que lhe é oferecida, por assim dizer…
Nada é tácito, nada é dito às claras, apenas sutilezas apontam para o horror que está pela “simpatia” de Hitler pelo romance de John Halder – a possibilidade da morte legalizada dos muito doentes e deficientes do próprio povo alemão. Oculto o horror, a ideia do ensaio é apresentada como “uma coisa boa e de fundo humanitário”.
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Aos poucos, um mundo de glamour, poder, dinheiro é apresentado ao professor, que não percebe as concessões e perdas de si mesmo, seus valores e princípios de vida, que é obrigado a realizar quase que “de um modo banal” – Hannah Arendt poderia ter sido a autora do livro que originou o filme – assim como o MAL, o processo de desconstrução e desumanização das pessoas pode ser de uma BANALIDADE quase inacreditável. Normalmente não enxergam a TOTALIDADE dos processos em que se engajaram, a perversidade do resultado final.
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Na última cena, um John Halder tornado oficial da SS se depara com um campo de concentração, nele, judeus sendo mortos, na fila de prisioneiros que acaba de chegar, seu amigo de infância, Maurice. É o “homem bom” corrompido pela ideologia, o fanatismo, o glamour, o narcisismo de pertencer a “uma classe superior”, o obscurantismo total da alma. O que pode ser mais trágico, mais perverso…?
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Voltando à entrevista reveladora de Deltan Dellagnol à BBC, e vou poupar os leitores de colocar vários trechos da mesma (aqui, o link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49450570), o que vemos é um desfiar contínuo, patético, um autoengano infinito, de quem tenta através de FALÁCIAS, sofismas, justificar o injustificável! É o “típico homem bom” falando bem de si mesmo, seus colegas procuradores, seu herói, o ex juiz Sérgio Moro, e a operação que o celebrizou e lhe trouxe um bom dinheiro, além da fama. Vazamentos sigilosos pelas mãos de procuradores? Não houve! Vazamentos feitos para pressionar presos ou investigados a fazer delações premiadas? Absolutamente normal e legítimo! Vale a pena conferir a capacidade que tem o ser humano de se desculpar de modo esfarrapado por erroa éticos graves e até crimes cometidos “em nome do combate à corrupção”…

Destaco apenas o trecho que mais “mexeu comigo”, por me lembrar imediatamente do filme que resumi acima.

“BBC News Brasil – Sobre o caso que saiu, houve uma falta de cuidado, uma falta de humanidade na opinião do senhor?” (pergunta sobre as conversas dos procuradores a respeito das mortes de dona Marisa, Vavá e Arthur e as reações de Lula)

“Dallagnol – Não posso falar especificamente com conversas específicas que nem sei se aconteceram. Se ficar tratando disso, vai reforçar uma mensagem que considero injusta que foi trazida sobre essas pessoas. O que eu posso falar com a maior tranquilidade é sobre as pessoas que estavam ali. Posso falar que Januário é uma pessoa super humana. Que adotou já umas três, quatro crianças que não tinham um futuro e acolheu na família dele. E aí essa pessoa está sendo vilanizada. Você acha isso justo? Você tomar uma pessoa que já adotou três a quatro crianças que estavam em situação de abandono, que não tinham família, que acolheu no lar dele, uma pessoa extremamente sensível, uma pessoa humana e você retira uma frase em contexto familiar, em contexto de família, que você sente até irresponsável para vilanizar essa pessoa, dizer que essa pessoa não tem coração, que essa pessoa é desumana?

Olha, isso é de uma superficialidade, sabe? De uma maldade? Quando você recebe um pedaço de informação, você olha só aquilo e às vezes você tem que avaliar o mundo pelo que você que recebeu. Mas de novo, vamos ao Januário Paludo. Digamos que ele tenha feito aquelas afirmações, aquilo lá, várias pessoas dizem “que cara frio”, “sem coração” etc. Aí você olha o resto da vida dele e vê que ele adotou três, quatro crianças, sem que ele precisasse fazer isso, nas quais ele está investindo não só a vida, mas recursos. Acolheu em uma família e está investindo a vida, o tempo dele nisso. Uma pessoa que investiu anos aqui na Lava Jato. Veja como as informações são trazidas fora de contexto, são trazidas dentro de um contexto para vilanizar.”
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Soa como John Halder e seus autoenganos ao abraçar a ideologia nazista, SEM PERCEBER O QUE FAZIA A SI MESMO… (é esse um dos “terrores” do filme, a “banalização da (in)consciência”, bloqueada pela falta da verdade, a perda subliminar dos princípios civilizatórios do existir…). Ou o que fazia à democracia, à sociedade, ao país. Deltan, Januário e os procuradores, essas “pessoas super humanas, entende?”
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Jerusa Viecili, uma das procuradoras, teve um “vislumbre” dos erros terríveis cometidos. Com ressalvas que queiram fazer ao seu “pedido de desculpas a Lula”, faço questão absoluta de registrar – e respeitar! – seu gesto, até porque, ÚNICO, a demonstrar um pouco de consciência, no meio de toda a podridão que significa essa operação, a Lava Jato…
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Prezado Deltan, prezado Januário, demais procuradores da Lava Jato:
A “super humanidade” ou “bondade” ou “piedoso cristianismo” ou “boníssimas intenções de suas almas” em suas vidas pessoais ou mesmo no exercício do cargo público que os senhores ocupam JAMAIS PODERÁ SERVIR COMO ÁLIBI MORAL PARA SUAS EXISTÊNCIAS, como uma espécie de “prova a priori” de que sejam imunes a erros, equívocos e até mesmo o cometimento de CRIMES. Dallagnol escolheu o pior caminho para a defesa dele mesmo e dos senhores. É no final do processo que se vê se um caminho foi “bom” ou “ruim”, se trouxe afinal o bem ou o mal para uma sociedade, uma nação, um país…
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O que os senhores nos trouxeram “de bom”, agora que a Lava Jato chega ao seu fim?

Uma “dobradinha” com a mídia que criou um ambiente de ódio, nojo e fanatismo contra Lula, Dilma e o PT.
A deposição de uma presidente honesta sem crime de responsabilidade cometido.
A quebra de praticamente todos os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição e avalizados por um Supremo Tribunal acovardado e cúmplice de todo o horror.
O uso de chantagem e tortura contra réus através de vazamentos selecionados a dedo e prisões provisórias tornadas eternas – até o réu sucumbir e cair de joelhos diante dos senhores. (como foi essa aprendizagem no caminho do sadismo?!?)
A obsessão em perseguir e massacrar Lula, visto pelos senhores como “O SATANÁS” do país, e jamais com o olhar ISENTO E PURO DE INTENÇÕES PRÉVIAS, obrigação moral básica de um procurador.
A criação de uma peça de ficção em torno do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, onde o máximo que podem alegar ou provar é a tentativa de empreiteiros agradecidos ao presidente que maior crescimento econômico trouxe ao nosso país, de agradá-lo, um, tentando lhe vender uma cobertura que ele não quis, outro, fazendo reformas em um sítio que o presidente frequentava, numa despesa que equivaleria a menos que um real para qualquer um de nós, proporcionalmente. NINGUÉM TENTA SUBORNAR UM PRESIDENTE OU PAGAR-LHE UM SUBORNO POR ATOS DO PASSADO, COM UMA REFORMA DE PEQUENA MONTA, SEM LUXO ALGUM, EM UM SÍTIO ABSOLUTAMENTE COMUM QUE SEQUER LHE PERTENCIA… E os senhores sabem disso, como sabe a mídia e os “odiadores de Lula”…. – Foi a soma fétida de seus preconceitos, sua celebridade vinda com a Lava jato, o estarem subordinados paulatinamente à agenda política e aos próprios nojos pessoais de Sérgio Moro, além do ambiente social doentio que “exigia” a cabeça de Lula como “a cereja do bolo”, que fez com que, à semelhança de John Halder, aos poucos os senhores vestissem de vez os personagens “heroicos” de “justiceiros” e comemorassem a prisão e até o silêncio forçado de um homem INOCENTE.
O que, senhores procuradores, temos que lhes agradecer…?
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Chegará logo o “fim do caminho”, o ponto final dessa trágica história chamada “Lava jato”, e seu GOLPE DE ESTADO, seu ódio, seu fascismo, a destruição da política como PONTE CIVILIZADA entre as forças sociais, afinal, “o BEM” estava com os senhores procuradores e Sérgio Moro, não é mesmo? “A volta do PT” tinha que ser evitada a qualquer custo, a qualquer preço…
Pois bem, “homens e mulheres bons” da Lava jato, o preço que pagamos é esse. Um país destroçado, banhado em ódios e fraturas sociais.
Um país onde a Amazônia arde, ao fome aumenta, as riquezas são entregues, um demente preside e milícias de toda a forma controlam aos poucos nosso presente, nosso futuro…
Um país onde toda uma cadeia de indústrias pesadas, de gás e petróleo, além das empreiteiras, foi DESTRUÍDA pela “bondade” de seus atos inconsequentes e irresponsáveis.

MILHÕES DE BRASILEIROS DEVEM AOS SENHORES SEU ESTADO DE DEPRESSÃO, DESEMPREGO, MISÉRIA E DESESPERANÇA!
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Assistam ao filme citado. É uma metáfora perfeita do que os espera logo ali na frente. A cena final, a estupefação perplexa, desesperada, de um homem comum que se permitiu engolir pelo MAL, mesmo sendo “um homem bom”.
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Houvesse honestidade verdadeira nos senhores, pediriam desculpas à nação brasileira por seus excessos, erros e equívocos cometidos.
E não se escusariam mais em nome de suas “boas intenções”…

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