CNN promove ‘barriga’ jornalística na corrida maluca pela vacina, por Wilson Ferreira

Há uma lógica intrínseca à grande mídia que acaba criando situações tão constrangedoras como essa: o duplo vínculo Alarme/Tranquilização e o chamado “Efeito Heisenberg” do jornalismo corporativo.

CNN promove ‘barriga’ jornalística na corrida maluca pela vacina

por Wilson Ferreira

“Olha aí! Vai partir o avião da esperança! Tô quase chorando… vamos bater uma salva de palmas! Clap! Clap! Clap! Imagem histórica…”. Essa cena de causar vergonha alheia tomou conta do “CNN 360” (14/01) no momento em que víamos imagens do Airbus da Azul decolando de Viracopos para, supostamente, ir buscar dois milhões de doses da vacina na Índia. Jornalismo torna-se propaganda para, depois, virar numa barriga jornalística. Desde o início do ano já se sabia que a Índia iria barrar a exportação da vacina AstraZeneca. Por que, então a CNN embarcou na corrida maluca de Pazuello pela vacina em meio ao caos da crise do oxigênio em Manaus? Para além das suspeitas da CNN Brasil fazer parceira de Bolsonaro (em janeiro de 2019, os sócios da então futura rede televisiva no Brasil tiveram um encontro fora da agenda com Bolsonaro para apresentar o projeto de criação do canal), há uma lógica intrínseca à grande mídia que acaba criando situações tão constrangedoras como essa: o duplo vínculo Alarme/Tranquilização e o chamado “Efeito Heisenberg” do jornalismo corporativo.

No jornalismo impresso, o momento mais constrangedor, daqueles de causar vergonha alheia pela dimensão da “barriga” (gíria jornalística para designar uma grave bobeada de um jornalista que pensa estar publicando um “furo” quando não passa de engano ou má fé do próprio repórter),é fácil de lembrar: a notícia do “Boimate” publicado pela Veja em 1983 dando conta que cientistas uma animal resultante da mistura genética de boi com tomate – na verdade baseada em uma “pegadinha” da revista New Scientist para comemorar a semana da mentira.

Mas certamente uma das barrigadas mais constrangedoras no telejornalismo, pelo menos recente, foi protagonizado nessa última quinta-feira (14/01) no programa “CNN 360”, apresentado por Daniela Lima e a ex-Globo Gloria Vanique.

A tarde era tensa, com as notícias que vinham de Manaus com o colapso na saúde: sem oxigênio, pacientes com Covid-19 morriam em UTIs e enfermarias lotadas. Obrigando os próprias familiares a trazerem cilindros de oxigênio, se tivessem a sorte de terem recursos financeiros ou de acharem oxigênio no mercado.

E mais: UTIs na cidade do Rio de Janeiro já tinham 90% da ocupação. Ao vivo, o analista de política Iuri Pitta complementava que o aumento de casos irá antecipar a revisão da quarentena em São Paulo, mas… corta!… “segura aí, fica com a gente!”, exclamou Daniela Lima… “Olha aí! Vai partir o avião da esperança!”, exalta enquanto são mostradas imagens de um avião Airbus da Azul movendo-se na pista do Aeroporto de Viracopos. Adesivado “Vacinação – Brasil imunizado – Somos uma só nação”.

“O avião que está indo para Recife, e amanhã parte pra Índia. O quê que ele está indo buscar? Dois milhões de doses da vacina de Oxford… pega aí Gloria que eu tô quase chorando…”. E a certamente atônita Gloria Vanique segurou a apresentação e continuou: “teve um pequeno atraso, vai primeiro para Recife e depois, aí sim, vai para a Índia”.

“Assistindo ao vivo e a cores!”, recupera-se a emocionada Daniela, repetindo a informação. Depois de falar em “torcer com emoção com joelhos no chão”, imagens do Airbus da Azul decolando: “Olha lá! Lá vai ele!… é o voo da esperança”, exaltava Gloria Vanique, embarcando junto na comoção da companheira de apresentação.

Nesse momento, Daniela Lima joga tudo pelos ares (desculpe o trocadilho…): “Eu já não tenho nenhum apego por protocolos… imagem histórica… vou jogar minha parceira nessa furada comigo… vamos bater uma salva de palmas? Vai, vamo lá!.. Clap! Clap! Clap!… Vai que vai!… um dia muito difícil…” – para quem gosta de vergonha alheia, veja o vídeo ao final dessa postagem a partir de 1:08:00.

Ela tinha razão: acabou jogando a parceira numa furada que foi muito além do que quebrar os protocolos de estúdio – o avião da esperança que deveria buscar as duas milhões de doses na Índia não levantou voo no dia seguinte. A Índia negou o embarque, fazendo em cima da hora mudar os planos do Airbus. De voo da esperança virou o voo da crise: levar às pressas cilindros de oxigênio para Manaus.

Efeito Heisenberg

O que é inacreditável é que já se sabia que essa canoa já estava fazendo água: desde o dia 3 de janeiro já era corrente que a Índia iria barrar da exportação da vacina AstraZeneca, como declarou naquele dia o CEO do Instituto Serum, Adar Poonwalla. O instituto foi contratado para produzir 1 bilhão de doses do imunizante para países em desenvolvimento.

Sob pressão política para iniciar sua própria campanha de vacinação, Poonwalla acrescentou que só poderia fornecer as vacinas ao governo da Índia naquele momento.  Portanto, o acesso às vacinas do Instituto Serum para o Brasil só deverá começar em março e abril.

E mais. No dia seguinte à barrigada de emoções ao vivo, a CNN reportou que o próprio avião adesivado da Azul teria atrapalhado a negociação das vacinas:

A Índia relatou a autoridades brasileiras estar receosa com o impacto na opinião pública indiana sobre a remessa das 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca para o Brasil, tendo em vista que eles estão iniciando a campanha de vacinação por lá. (…) Pediram discrição do governo brasileiro nessa negociação. Mas isso não aconteceu. O governo brasileiro, ao contrário, comemorava o aval da Índia (…) A avaliação de autoridades federais é de que houve uma precipitação no processo, que acabou atrapalhando as negociações. (…) Nesta sexta-feira (15), técnicos das três pastas se reuniram no Palácio do Planalto para tentar buscar uma saída – clique aqui.

Ao que parece, o Instituto até queria “quebrar o galho” do Ministério da Saúde brasileiro. Desde que tudo fosse na surdina. Mas, convenhamos, um Airbus com 64 metros de comprimento, adesivado com o programa de vacinação do Brasil, dificilmente passaria desapercebido. Tudo deveria ser discreto, mas a joga de marketing do ansioso general Pazuello pôs tudo a perder.

E ainda com a contribuição de um fantástico “Efeito Heinsenberg” da própria CNN – “Efeito Heisenberg”, fenômeno midiático resultante da onipresença das mídias no qual o jornalismo não relata acontecimentos, mas o impacto da cobertura nos acontecimentos: relata apenas o esforço que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia – sobre esse conceito clique aqui.

Se desde o início do ano já era conhecida a declaração do CEO do Instituto Serum, por que Daniela Lima, levando junto a “caloura” Gloria Vanique, mandou às favas a objetividade jornalística, sem, pelo menos, ter relatado os fatos com um pé atrás?

Alarme/Tranquilização

Para além das suspeitas da CNN Brasil ser, por assim dizer, condescendente com o Governo Bolsonaro (em janeiro de 2019, os sócios da então futura rede televisiva no Brasil tiveram um encontro fora da agenda com Bolsonaro para apresentar o projeto de criação do canal), há uma lógica draconiana no jornalismo corporativo que acaba criando situações tão constrangedoras como essa: o duplo vínculo Alarme/Tranquilização.

Dentro do contínuo midiático, o Jornalismo tem uma função bem particular: o modo Alarme (o “jornalismo de guerra” quando é detectada o risco de alguma crise sistêmica) e o modo de autorregulação sistêmica para manter o equilíbrio e a normalidade do cotidiano de telespectadores, leitores ou ouvintes.

Depois do alarme sobre a proximidade do caos, o script do jornalismo tem que necessariamente tranquilizar ou dar alguma esperança para o espectador. Afinal, ele tem que ficar motivado para acordar no dia seguinte achando que vale à pena trabalhar, procurar emprego ou “empreender”.

Por exemplo, repare, caro leitor, como o bordão “a boa notícia é que…” invade as locuções de repórteres e apresentadores. Quando é necessário forçosamente dar uma “má notícia”, o jornalista parece que está quase pedindo desculpas – entre tenso e constrangido.

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