Com trajetória de resistência e contra-hegemonia, TeleSur completa 15 anos

Em 15 anos, a emissora assumiu o papel de dar voz aos povos originários e de narrar a história latino-americana desde a perspectiva descolonialista

Divulgação

Jornal GGN – Criada como uma alternativa comunicacional à grande imprensa hegemônica na região, por iniciativa de Fidel Castro e Hugo Chávez, a rede de televisão multi-estatal TeleSur, com sede na Venezuela, completa 15 anos nesta sexta, 24 de julho, data escolhida para ser lançada por ser também o aniversário de Simón Bolivar.

Surgindo com o objetivo de dar voz aos povos originários e de narrar a história latino-americana desde a perspectiva descolonialista – fora da visão eurocentrista ou americanocentrista, a rede de televisão venezuelana, cubana e nicaraguense foi alvo de diversas represálias desde que foi criada, até os dias atuais, quando ainda sofre fortes pressões.

“A TeleSur vem se levantando diante dos cercos que pretendem nos asfixiar. Enfrentamos múltiplas tentativas das direitas latino-americanas e dos governos dos Estados Unidos de tomar o canal ou de estigmatizar nosso trabalho. E o fazem porque não nos parecemos aos meios tradicionais. Somos um canal público que conseguiu se consolidar e chegar a todo o mundo”, assim narrou uma das fundadoras da TeleSur, Aissa García, ao GGN.

“Acreditamos em uma América Latina forte, com poderosas raízes culturais e grandes propósitos de integração. Nosso modelo de comunicação está ligado aos nossos povos, à emancipação, à luta contra as imposições hegemonistas internacionais”, acrescentou a cubana-mexicana Aissa, que além de fundadora, é diretora no México e Estados Unidos e apresentadora de alguns programas do canal, como o Vidas.

Não à toa, o lema do meio televisivo, que desde a iniciativa de Hugo Chávez, na Venezuela, contou com o apoio de Fidel Castro, em Cuba, assim como posteriormente da Argentina e Bolívia, é “Nosso Norte é o Sul”, buscando oferecer uma alternativa de informação para a América Latina e Caribe em contrapartida aos grandes grupos dos Estados Unidos, que detinham domínio comunicacional na região.

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As pressões ocorreram na Venezuela e em Cuba, mas também no México, aonde Aissa García já atuava como correspondente de imprensa latina, passando a assumir coberturas emblemáticas na Telesur, desde casos de risco – guerras e desastres naturais – até a trajetória de imigrantes da América Central aos Estados Unidos, uma dessas reportagens que lhe rendeu prêmios. “É preciso informar e não deixar de informar”, resumiu.

“Há 15 anos, a nossa lente não deixou de gravar, os microfones estiveram abertos para denunciar fatos como o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa em 2014, as caravanas de migrantes, as lutas dos povoados de Atenco, a busca dos mais de 100 mil desaparecidos da chamada guerra contra o narcotráfico em Calderon, as fraudes eleitorais sucessivas, os feminicídios que deixaram de luto milhares de famílias ao longo do país, a violência vinculada ao crime organizado, o levantamento das autodefesas em diversas zonas, a luta dos professores e camponeses, as reformas estruturais e seus efeitos no povo, os desastres, a chegada ao poder com um apoio esmagador de um presidente de esquerda, entre outras coisas”, resgatou García.

A emissora preparou a música “Se levanta nuestra voz” para a comemoração de seus 15 anos.

 

O caminho para o cubano Rei Gomez, hoje apresentador de notícias no “Reporte 360” e do programa de análise geopolítica “Jugada Crítica” (Jogada Crítica), no canal também é lembrado pelo desafio. Chegou à emissora em 2011, já foi enviado especial em coberturas internacionais, passou pela sede no Equador, da TeleSur em inglês, e também conduziu cursos de apresentação a colegas.

“A TeleSur para mim vem sendo uma grande escola”, contou, ao GGN. “E um grande desafio pelo compromisso que exige trabalhar em uma cadeia internacional de notícias cuja agenda editorial está baseada nas necessidades, nas reivindicações, nas ideias, nos sonhos dos povos do sul.”

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Gomez também ressalta que a maneira de informar mudou ao longo destes 15 anos, além da televisão, o formato web, as redes sociais e as plataformas de mensagens. “Acredito que este vem sendo nosso principal desafio hoje, além de conviver com circunstâncias sócio-políticas, nas quais algumas vezes tivemos a alegria de contar o progresso dos nossos povos e em outras as injustiças do capitalismo neoliberal”, afirmou.

As novas maneiras de se comunicar tornaram-se ainda mais importantes com a atual pandemia do novo coronavírus. “O jornalismo precisa reinventar sua forma de contar as histórias. Com a pandemia, compreender o funcionamento dessas diferentes plataformas torna-se ainda mais urgente. Precisamos estar próximos ao povo e são as novas ferramentas que nos permitem conhecer histórias e acompanhar outras num momento em que não podemos estar fisicamente no lugar”, manifestou André Vieira, correspondente no Brasil e apresentador do noticiário em português.

Vieira trabalha no canal desde 2013 e narra que seu contato com a TeleSur foi também uma aproximação com a América Latina, em suas histórias que “também me pertencem enquanto latino-americano”.

A importância da resistência de uma década e meia foi destacada pela presidente e também uma das fundadoras da emissora, Patricia Villegas Marín. Segundo ela, em diversos momentos da história do canal, as imagens e os sons da TeleSur “passaram a ser a única possibilidade real para que as audiências pudessem se aproximar da verdade dos fatos”. “Nossa contribuição inspirou meios comunitários, alternativos, contra-hegemônicos, que nos levam como referência de uma comunicação possível e necessária.”

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“A Telesur nasceu para dar voz ao povo que luta por direitos e ao mesmo tempo é fruto desse processo de organização popular. É, principalmente, um veículo que constrói sua agenda pautada pelas ações dos movimentos populares. Contar a resistência dos trabalhadores e trabalhadoras é a nossa forma de resistir enquanto canal de comunicação”, trouxe o brasileiro André Vieira.

“Os movimentos sociais, as vítimas da violência e do feminicídio, familiares de desaparecidos, os protagonistas do esquecimento, camponeses, professores, amantes do futebol, interessados ​​em questões de cultura e gênero, os sem voz e aqueles sem direitos aumentaram sua confiança ao longo dos anos neste canal, que é muito latino-americano e caribenho, muito popular. Eles nos visualizaram como sua casa, onde chegam sem bater, onde sempre têm as portas abertas e as luzes acesas. E por quê? Porque não os abandonamos, contamos o que vemos e algo muito importante: não compramos verdades falsas, aquelas que muitos tentam vender como históricas”, concluiu a diretora da sede México, Aissa García.

 

 

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